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JOANILHO, André Luiz. Felicidade, onde moras? Drops, São Paulo, ano 14, n. 079.03, Vitruvius, abr. 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/14.079/5123>.



Diga-me o seu endereço e poderei dizer se és feliz! Problemão. Numa sociedade que cultiva desesperadamente o privilégio, morar se tornou o ápice do que se pode alcançar de exclusividade. Busca-se a qualquer preço “morar bem”, nem que isto signifique enfrentar um trânsito infernal para sair e chegar ao doce lar, ou ainda ter de se deslocar pela selva urbana, conquanto se possa desfrutar das ilhas cercadas de realidade que são os condomínios. Nem que isto signifique habitar em prédios de apartamentos de gosto duvidoso ou condomínios com muros encimados com arames farpados (alguns deles desenhados com requintes sádicos).

A classe média busca desesperadamente emular os privilégios que os efetivamente ricos podem desfrutar pagando por isso. É sintomático, nos aeroportos, ver o ar de vitória sobre a massa informe parada nas filas da classe econômica, quando se consegue furar a vigilância da companhia aérea e embarcar pela fila da primeira classe, mesmo que depois tenha de amargar um voo junto com aqueles aos quais dirigiu um soslaio de desprezo ao passar pelo controle de identidade.

Poder ser atendido antes na fila do banco, parar em vagas exclusivas, ultrapassar filas enormes de carros no farol, ter o boletim do filho preenchido com boas notas, mesmo que tenha obrigado os professores a dá-las, são sintomas da síndrome V.I.P., isto é, ser exclusivo numa sociedade que teria por mito ser democrática e igualitária. Escapa-se assim da vala comum. Daí as espertas propagandas de imóveis anunciando: “espaço exclusivo”; “ilha de tranquilidade”, “spa urbano”; “clube privado”; “área verde única” e assim por diante, mesmo que a metragem do pequeno paraíso seja extremamente acanhada, e nem importa, importante é o endereço: moro nas “Torres de...” (qualquer nome estranho em espanhol, francês ou inglês mas que de modo algum coaduna com o local e a arquitetura), pode o cidadão insuflar com orgulho!

O desespero de ser “vip” produziu a exclusão social: exclusão social da classe média (os efetivamente ricos não precisam fazer força para isso em lugar algum deste planeta). Deseja se afastar do vulgo e por longe dos olhos o caos urbano. Surgem bairros verticalizados sem nenhuma regra arquitetônica e de ocupação do solo, já que os planos diretores são modificados ao “bel prazer” (entenda-se isso claramente) dos agentes públicos (legislativo e executivo). Construções entregues à “criatividade” de arquitetos que tentam resolver o problema do espaço interno com alguma fachada “agradável” (depois de algum tempo é possível perceber como era de mau gosto) e engenheiros que contorcem as plantas e os terrenos para fazerem caber qualquer coisa que poderá ser chamada de exclusiva.

A classe média, fonte quase inesgotável do gosto duvidoso, adere rapidamente às “modas” arquitetônicas para mostrar aos parentes, aos amigos e aos colegas de trabalho onde mora e escutar algo: “Puxa! Que belo lugar que você mora!”; “Nossa! Muito legal!”. Nem é realmente importante a sinceridade dos elogios, somente os próprios elogios bastam.Enquanto isso, a cidade, abandonada, vive o seu próprio caos, entregue a forças cegas que comandam o cotidiano dela: drogados, pessoas prostituídas, larápios, camelôs, marreteiros, policiais, passeatas, bandidinhos, bandidões, tudo sendo observado das janelas dos carros cuidadosamente travadas para que todo esse perigo não entre no habitáculo, torcendo-se para chegar são e salvo ao destino. Em casa, respira-se o ar de felicidade diante do “home theater” e dos poucos metros quadrados do apartamento e, no fim de semana (deseja-se fervorosamente que não chova), usufruir da piscina espremida no fundo do condomínio nas poucas horas de sol que os prédios vizinhos permitem.

Nos condomínios horizontais, que simulam subúrbios das cidades americanas (podemos então usar a palavra inglesa para isso: fake), a mesma torcida pelo sol para se usufruir de pequena piscina no fundo do pequeno terreno e talvez uma carne assada na pequena churrasqueira. Depois, “home theater” na pequena sala, aguardando a segunda-feira para atravessar a selva até o trabalho e retornar pelos seus meandros ao doce lar.

Enquanto isso, a cidade vazia degrada, pois não há algum interesse nela. Quarteirões inteiros de bairros “menos nobres” sofrem a ação do tempo pelo abandono da classe média que com volúpia busca o condomínio prometido, garantia de algum privilégio e exclusão. Ignora-se completamente que as melhores cidades para se viver são aquelas que integraram moradia e espaço urbano, quer dizer, não há distinção entre morar e habitar. A casa não está à parte, ela é parte da cidade.

Empobrecemos rapidamente o nosso morar, satisfazendo-nos com exclusividades insignificantes e deixamos de habitar a cidade que se tornou local de deslocamento e vazio de vivência. Haveria alguma possibilidade de reverter esse quadro? Não nas disposições atuais de ocupação do espaço urbano no qual morar significa dar as costas para a cidade e a demanda é pela moradia exclusiva ou que emule algum tipo de “V.I.P.”, mesmo que isso não seja real, efetivo e de impossível realização.

sobre o autor

André Luiz Joanilho é Professor Associado do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina.

 

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