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Segundo livro da Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, curadoria de Eder Chiodetto, o volume traz a obra de Nelson Kon, especializado na documentação de arquitetura e cidade.

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CHIODETTO, Eder. Nelson Kon, o fotógrafo cronista. Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira. Drops, São Paulo, ano 15, n. 087.06, Vitruvius, dez. 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.087/5369>.



Olhar a cidade. Perscrutá-la por cima, por baixo, em seus interstícios. Percebê-la na sua grandiosidade épica e nos seus detalhes quase insignificantes. Entendê-la como a somatória de tempos, histórias, embates políticos e econômicos, crenças e sobreposição de ideias que rabiscam e transformam continuamente o território.

Nelson Kon é certamente o fotógrafo brasileiro de arquitetura mais proeminente da nossa geração. Nelson Kon, no entanto, não é um fotógrafo de arquitetura!

Os rótulos, necessários para facilitar a identificação de nichos de mercado, tendem a engessar, com suas nomenclaturas impositivas, algo cuja natureza é muito mais complexa e porosa.

Nelson Kon, como as imagens deste livro atestam, é um inspirado cronista que se vale da paisagem urbana, das formas de apropriação do solo e, claro, da arquitetura para narrar tensões existentes nestas equações.

Em seu foco está a forma como o ser humano contemporâneo realiza a ocupação do espaço, mas também a fratura que não se fecha − sobretudo no contexto brasileiro − entre o desejo idealizado de construir a partir de premissas racionais e a falta de planejamento estratégico, o desprezo à perspectiva histórica dos lugares, o uso degenerado daquilo que era para ser o que nunca foi.

Por outro lado, seu trabalho tem a capacidade de revelar, com delicada veemência, a poética contida no desenho minimalista de um projeto arquitetônico quando este salta do esboço para ganhar a concretude de um volume no espaço.

Uma fotografia, neste caso, pode ser a tradução mais genuína do conceito de um projeto tanto para o próprio arquiteto que o desenvolveu, quanto para o público em geral.

Filho do arquiteto João Kon (1933), Nelson seguiu a formação do pai. Em 1983 graduou-se pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Nunca, porém, se imaginou como um arquiteto que desenvolveria projetos de construção civil, tal como seu pai. “Pode parecer estranho, mas no tempo em que estudei na FAU, não me interessava muito por arquitetura. Eu não fotografava arquitetura. Comecei a me interessar por arquitetura uns cinco anos depois de formado”, diz.

Logo no início do curso, Kon se interessou pelo Laboratório de Recursos Audiovisuais da FAU USP, criado em 1979 pelo então diretor professor Nestor Goulart Reis Filho e coordenado pelo fotógrafo Cristiano Mascaro. Integrou-se rapidamente ao grupo de fotógrafos, como João Musa, Raul Garcez e o próprio Mascaro, que defendia a fotografia no contexto das disciplinas da FAU não apenas como ferramenta de auxílio nas pesquisas de campo, mas também como linguagem autônoma capaz de expandir a reflexão e o pensamento crítico sobre arquitetura.

Por essa época, Kon descobriu na biblioteca da faculdade o livro Photography and Architecture, de Eric Samuel de Maré (1).

“Nessa antiga obra, Eric de Maré divide a fotografia de arquitetura em três categorias: documental, ilustrativa e autoral. A fotografia documental, que predomina no século 19, segue de perto a linguagem do desenho arquitetônico (vista frontal, vista oblíqua) e tenta ser neutra e precisa. A fotografia ilustrativa vai além e procura interpretar e comentar a arquitetura. Constrói uma narrativa sobre o edifício. A fotografia autoral tem a arquitetura como objeto, mas ela é puro pretexto para que o fotógrafo possa se expressar. Quando dou aulas, até uso essas categorias, mas considero um tanto simplista. Não lembro se De Maré faz as ressalvas necessárias. Didaticamente, são categorias interessantes como ponto de partida. Na verdade, não existe o trabalho documental, o trabalho ilustrativo e o trabalho autoral de forma tão estanque. As categorias se entrelaçam e se confundem, estão sempre presentes em qualquer fotografia”, disse Kon em entrevista para a Revista da Pós-Graduação da FAU USP (2).

De fato, a divisão entre documental, ilustrativo e autoral, mesmo como ferramenta didática, já não responde ao contexto contemporâneo da produção de imagens.

A obra de Kon é uma mostra clara da porosidade entre esses tênues limites e as classificações que tentam, em vão, demarcá-los. Um cruzamento de fronteiras que se torna ainda mais surpreendente quando temos ciência de que praticamente todo o seu acervo é formado por fotografias realizadas por encomendas de clientes. Praticamente não há em seus registros séries ou ensaios feitos a partir de uma motivação própria.

“O meu trabalho é comercial, é um trabalho no qual tenho um cliente e atendo uma solicitação. Não o vejo como um trabalho pessoal, autoral. Muita gente no mercado quer transformar seu trabalho comercial em trabalho autoral. Parece que só isso pode legitimar o que se faz. Não penso assim. Tenho alguns trabalhos mais autorais, de quando fiz, por exemplo, o Projeto Arte/Cidade, mas, ainda assim, havia um cliente. Por alguma razão, é pecado você não ser um fotógrafo autoral. Isso durante muito tempo me incomodou, hoje não. Sou um fotógrafo comercial. Não tenho talento para ser um fotógrafo autoral, mas acho até que faço bem o que faço”, explica.

Outra referência importante para Kon foi o fotógrafo japonês Yukio Futagawa (1932-2013), fundador e editor da importante revista Global Architecture. “Ele era tecnicamente muito preciso. Fotografava com cromos de 8x10 polegadas. Quando comecei a fotografar, queria obter resultados como os dele.”

À precisão técnica, observada em fotógrafos como Futagawa e que se tornou meta e método para Kon, somou-se a capacidade de fotografar a paisagem urbana com a sensibilidade de um cronista, como podemos observar na imagem de um observador envolvido pela atmosfera da Oca, ou no movimento de pessoas na Rua General Carneiro (p. 65), ou ainda na visão da cidade de São Paulo, de um helicóptero, quando irrompem os primeiros raios so­lares.

Imagens com tal envergadura poética, ao se mesclarem com imagens do imenso acervo de Kon, que pontuam construções realizadas pelos principais arquitetos brasileiros modernistas e contemporâneos, mostram, em conjunto, a aspiração e a materialização de um pensamento sobre o ser humano na relação com os espaços sociais e privados.

Sob o aparente diapasão rítmico que Kon cria, por exemplo, em tantas de suas vistas aéreas de São Paulo, há embates ferozes: especulação imobiliária, agressões ao meio ambiente, ideologias conflitantes e incongruências do jogo capitalista.

Na espessura dessas imagens, entre a harmonia e o conflito, mais além do discurso necessário, está a habilidade do fotógrafo para nos levar a momentos de contemplação apaixonada de um espaço que também é o da possibilidade do encontro com o outro, território de convívio, resultante da necessidade do ser humano de transformar e transformar-se.

notas

NE – Texto de apresentação do livro de fotografias CHIODETTO, Eder (Org.). Cristiano Mascaro. Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, volume 2. São Paulo, Ipsis, 2014. Os textos publicados mesma coleção são os seguintes:

CHIODETTO, Eder. Araquém Alcântara. Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira. Drops, São Paulo, ano 15, n. 087.05, Vitruvius, dez. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.087/5368>.

CHIODETTO, Eder. Nelson Kon, o fotografo cronista. Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira. Drops, São Paulo, ano 15, n. 087.06, Vitruvius, dez. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.087/5369>.

CHIODETTO, Eder. Cristiano Mascaro, fotogenia e latências. Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira. Drops, São Paulo, ano 15, n. 087.07, Vitruvius, dez. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/15.087/5370>.

1
DE MARÉ, Eric Samuel. Photography and Architecture. New York, Praeger, 1961.

2
COSTA, Eduardo Augusto; GOUVEIA, Sonia Maria Milani. Nelson Kon – uma fotografia de arquitetura brasileira. Depoimentos. Pós, v. 15, n. 24, São Paulo, Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP, dez. 2008, p. 10-25 <www.usp.br/fau/public/pos/24/revista_pos_24.pdf>.

sobre o fotógrafo

Nelson Kon é graduado em arquitetura (FAU USP, 1979-1983) e atua como fotógrafo de arquitetura e cidades desde 1985. Suas fotos ilustram importantes livros e revistas especializados em arquitetura de diversos países. Seus trabalhos já foram expostos no Centro Cultural São Paulo (1988, 1995 e 2007), Espaço Phillips (1996), FAU USP (1998, 2000), SESC Pompéia (1997, 2000 e 2014), Instituto Cultural Itaú (1998), Banco Real (2000), Coleção Pirelli-Masp (2005) e Arquería Nuevos Ministerios, Madrid, Espanha (2008). Foi professor de fotografia na Oficina Oswald de Andrade, na Universidade Mackenzie e na Faculdade de Comunicações e Artes do Senac SP. Em 2013 recebeu o Prêmio APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte.

sobre o organizador

Eder Chiodetto é mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Atuou como repórter-fotográfico (1991-1995), editor (1995-2004) e crítico de fotografia (1996-2010) no jornal Folha de S.Paulo. Hoje, reúne as funções de jornalista, professor, curador e pesquisador de fotografia.

Capa do livro Nelson Kon, Coleção Ipsis de Fotografia Brasileira, volume 2
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