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Sergio Marques comenta a conferência magna Alejandro Aravena/Elemental, comemorativa dos 40 anos da FAU UniRitter – Laureate International Universities, que reuniu mais de um mil e quinhentas pessoas para ouvir o arquiteto laureado com o prêmio Pritzker.

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MARQUES, Sergio Moacir. Os cegos e o elefante. A aula magna de Alejandro Aravena nos 40 anos da FAU UniRitter. Drops, São Paulo, ano 17, n. 109.08, Vitruvius, out. 2016 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.109/6252>.



Reza antiga parábola hindu que seis cegos foram conhecer pela primeira vez o elefante. Cinco deles, depois de apalpar o animal durante certo tempo discordavam veementemente em descrever a criatura. Um defendia o elefante como espécie de corda com chumaço na ponta, outro como tronco de árvore peludo, o terceiro como mangueira flexível, o quarto, uma superfície grande de abano, o quinto como enorme massa arredondada. Ouvindo a discussão crescente o sexto cego, que manteve certa distância, descreveu fielmente o elefante em seu conjunto. Ninguém tinha razão. Todos tinham razão em parte.

Assim como muitas circunstancias, de vasto espectro e significados, a conferência de Alejandro Aravena, em comemoração aos quarenta anos da FAU UniRitter, ofereceu faces diversas, interpretações e mensagens distintas. Minha primeira cegueira pessoal foi a de esperar um detentor do prêmio Pritzker com certa arrogância e presunção, que não seria surpresa em um jovem arquiteto latino-americano agraciado com o mais importante prêmio da arquitetura contemporânea. Não imaginava receber alguém jovial, gentil, generoso e paciencioso frente a tantos assédios e aproximações que a fama trouxe.

Minha cegueira seguinte foi recear que o formato interativo de conferência proposto por Aravena, sem imagens e roteiro predeterminado redundasse em uma apresentação errante, repleta de intervenções díspares. Ledo engano. O formato participativo imaginado, organizado a partir de informações, vídeos e material disponibilizado pelo Elemental previamente, bem como a ideia de uma intermediação na forma de talk show com questões preparadas previamente por professores, oportunizou conversação dinâmica e contextualizada, onde Aravena mostrou enorme capacidade de dissertar sobre sua produção conectando com temas de diferentes naturezas e experiências locais. Por outro lado a seriedade com que estudantes, muitos dos primeiros semestres, colocaram questões pertinentes, surpreenderam e revelaram interesse genuíno de todos no conteúdo em tela.

Minha terceira cegueira foi presumir que a brilhante apresentação e a importância do evento gratuito que reuniu mais de um mil e quinhentas pessoas no UniRitter, entre visitantes, estudantes, alunos, professores e convidados,  distribuídos entre oito auditórios para os quais a conferência foi transmitida ao vivo, a partir do auditório máster, produzisse certa unanimidade sobre o conteúdo apresentado.

Entre algumas frustrações de quem não conseguiu entrar no auditório para ver Aravena ao vivo, limitado a quatrocentos lugares ou outros que não entenderam tratar-se da celebração de 40 anos de uma instituição de ensino, chamou a atenção, a divergência de interpretações sobre o abordado na conferência. A primeira, mais contundente, deve-se a afirmação de Aravena sobre o entorpecimento causado aos estudantes de arquitetura pelo ensino em universidades. Muitos estudantes panfletaram a notícia que surpreendeu e provocou reação de outros tantos professores, todos que sem perceber a extensão da afirmação, reagiram precipitadamente. Aravena, logo a seguir da afirmação bombástica, dissertou longamente sobre a importância da sua formação acadêmica, em particular a ascendência de Fernando Péres Oyarzun (coordenador do Programa de Pós Graduação em Arquitetura da PUC Chile), seu principal professor, sobre autores, leituras e estudos exaustivos, através dos quais aprendeu muito, comprovando mais tarde, que mesmo em ambientes acadêmicos privilegiados, as referências apontadas pelo mestre eram especiais. Igualmente Aravena salientou a importância do fazer em sua formação, o exercício do projeto como ação prática e intelectual, do qual Fernando Péres igualmente foi mentor e coautor em diversas oportunidades, destacou o processo da reflexão na ação o qual pratica sistematicamente em sua produção, e que estava em marcha no próprio formato proposto por ele para a conferência. Metalinguagem aos olhos de todos. Aravena evidenciou a importância da atitude crítico-reflexiva e condenou a repetição de discursos preconcebidos correntes no meio universitário, assim como rechaçou a exclusão da produção de projetos como parâmetro acadêmico.

“Projetar é a verdadeira maneira de dar forma ao lugar onde as pessoas vivem”; “atuar para mudar e não esperar o mundo mudar para atuar” (1).

A segunda, foi o júbilo que pairou sobre alguns pela aparente defesa do participativo como ferramenta primordial do projeto para populações carentes, discurso simplificado frequente entre vertentes de diversos segmentos. Aravena salientou e enfatizou a necessidade de conhecer o contexto, o problema e as pessoas. Mostrou vídeo contundente da disparidade e riqueza das manifestações de personagens de determinados extratos sociais objetos de projetos do Elemental. Concomitantemente enfatizou a natureza programática deste conhecimento, que integra conjuntamente com outros conhecimentos a matéria prima e não o juízo do projeto. Este é ação da arquitetura e sua dialética com a realidade, ainda que advinda da frugalidade e escassez de meios, é o ambiente próprio do arquiteto.

“O bom de um projeto social requer qualidade não caridade”; “poucos recursos é o filtro da arbitrariedade”.

A terceira, avizinhou-se  da própria natureza prospectiva do projeto e sua índole técnica. Aravena deixou claro o papel e a importância dos arquitetos no planejamento das cidades, no projeto dos espaços públicos e privados, na solução de temas relacionados à mobilidade urbana, habitação social, meio ambiente e outros tantos problemas contemporâneos onde a contribuição da arquitetura e do projeto consistente é imprescindível. Em meio a tantas frivolidades que assaltaram a profissão, assim como a descrença na arquitetura como ciência indispensável na ação continua de enfrentamento dos problemas espaciais vividos pelas sociedades em seus tempos, Aravena mostrou de maneira simples como um arquiteto bem formado, dedicado ao ofício, sem paternalismos, demagogias ou vaidades superfulas, pode fazer a diferença.

“Alguém deve criar as regras, depois incluir as ideias; sem culpa e sem paternalismo”; “para um problema difícil necessita-se de bons arquitetos (pessoas pensantes)”.

Aravena, que pediu um quadro negro, desenhou, em diagramas, a natureza complexa dos problemas que constituem o enfrentamento da arquitetura e a especificidade do arquiteto em entender esta complexidade, sintetizar em uma ementa e traduzir a equação em desenho. “A forma como resultado das forças externas ao problema de projeto”.

Alejandro, em sua conferência, realizada entre assado de churrascaria popular e cervejas artezanais na cidade baixa de Porto Alegre, foi desconstituindo a imagem de estrela maior  de um jet set da arquitetura já gasto por tantas pirotecnias, piruetas e fricotes. Ainda que cercado de fãs, por vezes incovenientes na busca de autógrafos, fotos e atenção, soube compreender o ímpeto dos estudantes e dispensar a todos o tempo possivel, respondendo dezenas de perguntas, assinando livros e pousando para fotos, com generosidade e paciência. Foi uma noite memorável. Só vendo.

“As pessoas esperam as ideias serem criadas para copiá-las, sem critério, sem análise”; “canalizar forças, não resistir às forças”.

notas

NA – A conferência magna “Alejandro Aravena / Elemental”, comemorativa dos 40 anos da FAU UniRitter – Laureate International Universities, ocorreu no 15 de setembro de 2016, às 19h, com apresentação de Maria de Fátima Beltrão, coordenadora da FAU UniRitter, e Edson Z. Alice, presidente ADFAUPA, e a presença do debatedor Sergio M. Marques.

1
Essa e as outras expressões de Alejandro Aravena aqui mencionadas foram proferidas durante a conferência e anotadas por colegas atentos.

sobre o autor

Sergio Moacir Marques é arquiteto (FAU/UniRitter, 1984), mestre (Propar UFRGS,1999), doutor (Propar UFRGS, Etsab UPC), prêmio Capes de Tese, 2013. É professor titular da graduação, pós graduação, corpo permanente do PPGAU strictu sensu UniRitter/Mackenzie, pesquisador e coordenador do Núcleo de Projetos da FAU/UniRitter; professor adjunto da FA/UFRGS; Secretário Executivo Docomomo Sul para 2015/2019.

Alejandro Aravena e o debater Sergio Marques
Foto divulgação

Alejandro Aravena
Foto divulgação

Alejandro Aravena e o debater Sergio Marques
Foto divulgação

 

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109.08 aula de arquitetura
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