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drops ISSN 2175-6716

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O Prêmio APCA 2018 – Categoria “Trajetória” foi concedido à arquiteta paisagista Rosa Grena Kliass.

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CAMARGO, Mônica Junqueira de. Rosa Kliass, uma trajetória duplamente exemplar. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Trajetória”. Drops, São Paulo, ano 19, n. 141.07, Vitruvius, jun. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.141/7388>.



Em tempos de acirradas batalhas de gênero, de empoderamento das mulheres, e da preocupação cada vez mais crescente com o meio ambiente, a trajetória da arquiteta paisagista Rosa Kliass é exemplar, com duplo significado. De um lado, sua reconhecida contribuição à arquitetura paisagística brasileira, por outro, a conquista serena, porém, determinada e persistente, do seu espaço em um ambiente de domínio masculino.

Formada, em 1955, na terceira turma da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo – FAU USP, quando a presença feminina nos cursos superiores ainda era uma exceção. Na sua turma de 1955, havia apenas duas mulheres e coincidentemente duas paisagistas: Miranda Magnoli e ela, que iniciaram a carreira juntas e foram as duas primeiras arquitetas paisagistas de São Paulo. Sem o amparo das discussões que hoje reivindicam igualdade de direitos entre homens e mulheres, Rosa e Miranda participaram da construção do campo do paisagismo no âmbito do curso de arquitetura e urbanismo e da profissão. Rosa Kliass foi sócia fundadora da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas – Abap, criada em 1976, cuja atuação foi de grande relevância para a difusão dessa área do conhecimento, promovendo seminários nacionais e internacionais e agregando os colegas paisagistas de modo a se fortalecerem como categoria profissional.

Inspirada pelas teorias do paisagista Roberto Coelho Cardoso e do geógrafo Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, e pela prática de Roberto Burle Marx, Rosa Kliass desenvolveu uma metodologia de trabalho que aproximava a geografia da arquitetura e do urbanismo, e lhe garantiu enfrentar de projetos de pequenos jardins residenciais a planos urbanos, abrindo oportunidades de parcerias com colegas de diversas áreas do conhecimento. Soube aproveitar as suas inúmeras viagens como um campo de pesquisa, coletando informações para alimentar seus projetos. Seu mestrado Parques Urbanos de São Paulo, concluído na FAU-USP, em 1989, é publicado em seguida, constituindo uma referência para o paisagismo paulistano.

Do primeiro projeto – o largo dos Mendes, de 1958 – em sua cidade natal, São Roque (1), ao Parque da Juventude (2), de 2003, em São Paulo, há uma centena de projetos, com experiências das mais diversas. Em parceria com Jorge Wilheim, nos tempos do Serviço Federal de Habitação e Urbanismo – Serfhau, na década de 1960, participou da elaboração de vários planos diretores, sendo o de Curitiba (1965-1966), consolidado pelas administrações de Jaime Lerner, o que mais prosperou em termos de processo de planejamento. Foi criado um sistema de áreas verdes, a partir da análise das condições existentes e de uma metodologia que estabeleceu critérios e padrões para sua implementação, determinando áreas de recreação e áreas de preservação. Ainda em parceria com Miranda, desenvolveu, em meados dos anos 1960, a pedido do prefeito Faria Lima um plano de quarenta e quatro praças para a cidade de São Paulo, que demandou a organização de uma grande equipe. Embora apenas duas tenham sido executadas, a Praça Benedito Calixto e a Praça Por-do-Sol, hoje marcos referenciais da Cidade de São Paulo, emergiu desse trabalho o Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura – Depave. Ainda sob essa administração, projetaram o Bosque do Morumbi (1966).

A partir dos projetos públicos em que esteve envolvida, Rosa Kliass teve oportunidade de contribuir para a inovação de conceitos e para a criação de propostas inéditas. Para o Consorcio de Desenvolvimento Integrado dos Municípios do Vale do Paraíba – Codivap, realizou o trabalho Caracterização do conhecimento do Vale do Paraíba e diagnósticos resultantes (1971), do qual derivou a política do planejamento regional. O estudo desenvolvido para o projeto de preservação da Área Especial de Barra Bonita e escarpas adjacentes (1975), pioneiro no enfrentamento do conflito entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental, instituiu, por recomendação do professor Paulo Nogueira Neto, o termo Área de Preservação Ambiental (APA), hoje corrente no repertório linguístico do meio ambiente.

Rosa Kliass trabalhou com diferentes parceiros, entre eles muitos geógrafos, com quem aprendeu muito, contribuindo decisivamente no seu método de trabalho. Com Joaquim Guedes, trabalhou no plano para a cidade de Marabá (1973); para a Empresa Municipal de Urbanização – Emurb fez, com o escritório Cauduro & Martino, o bulevar Paulista (1973), que alargou as calçadas, demarcou as entradas de automóveis, criou um mobiliário para reforçar áreas de descanso, do qual, para desgosto da paisagista, quase nada mais resta.

Dentre os concursos dos quais participou, Rosa Kliass ganhou, com Jorge Wilheim, o do Parque do Anhangabaú (1981) e o do Parque da Juventude (2003) com o escritório Aflalo & Gasperini, com quem já havia trabalhado no projeto Panamby (1989), onde se localiza o Parque Burle Marx.

Foi diretora de Planejamento da Secretaria Municipal de Planejamento, durante a gestão Mário Covas, na década de 1980, quando realizou pesquisas, com apoio dos docentes da FAU USP, sobre a percepção da vegetação pela população e o inventário da vegetação significativa do município de São Paulo.

Rosa Kliass, com seus trabalhos, marcou presença em muitas cidades brasileiras, valendo destacar o Complexo Fortaleza de São José (1999) em Macapá, Parque do Abaeté(1992) e Parque das Esculturas do Museu de Arte Moderna da Bahia (1996), em Salvador, e os quatro projetos em Belém, Feliz Lusitânia (1996), Estação das Docas (1998), Parque da Residência (1998) e Parque Mangal das Garças (1999), lugares estratégicos para a renovação urbana empreendida pelo poder estadual.

Uma trajetória de muitas conquistas, não apenas pessoais, mas para a cultura arquitetônica brasileira. São 64 anos de muita dedicação, nos quais se envolveu com questões de preservação ambiental, cultural e de memória, constituindo um acervo de inestimável valor ao futuro das cidades.

notas

NE – Desde 2010, a APCA incorporou os críticos de arquitetura, concedendo anualmente sete prêmios. Em 2018, os críticos Abilio Guerra, Fernando Serapião, Francesco Perrotta-Bosch, Gabriel Kogan, Guilherme Wisnik, Hugo Segawa, Luiz Recamán, Maria Isabel Villac, Nadia Somekh, Renato Anelli foram os responsáveis pela seleção dos premiados. Os artigos dedicados à premiação da modalidade Arquitetura e Urbanismo da APCA 2018 são os seguintes:

RECAMÁN, Luiz; SOMEKH, Nadia. BR Cidades: a reconstrução democrática do espaço urbano. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Urbanidade”. BR Cidades / Ermínia Maricato, Karina Leitão, Paolo Colosso, Carina Serra, João Sette Whitaker, Margaterh Uemura, Lizete Rubano e Celso Carvalho. Drops, São Paulo, ano 19, n. 141.05, Vitruvius, jun. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.141/7384>.

ANELLI, Renato. Exposição Vkhutemas: revolução social e produção serial. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Pesquisa e difusão”. Exposição Vkhutemas / Celso Lima e Neide Jallageas (curadoria e pesquisa), Goma Oficina (comunicação visual e maquetes de arquitetura). Drops, São Paulo, ano 19, n. 141.06, Vitruvius, jun. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.141/7386>.

CAMARGO, Mônica Junqueira de. Rosa Kliass, uma trajetória duplamente exemplar. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Trajetória”. Drops, São Paulo, ano 19, n. 141.07, Vitruvius, jun. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.141/7388>.

PERROTTA-BOSCH, Francesco; WISNIK, Guilherme. Minimod, Mapa Arquitetos. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Inovação tecnológica”. Minimod – Mapa / Luciano Andrades, Matías Carballal, Rochelle Castro, Andrés Gobba, Mauricio López, Silvio Machado. Drops, São Paulo, ano 19, n. 142.05, Vitruvius, jul. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.142/7410>.

VILLAC, Maria Isabel. Arquitetura como experiência e apropriação. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Contribuição à cultura brasileira”: Brasil Arquitetura / Marcelo Ferraz e Francisco Fanucci. Drops, São Paulo, ano 19, n. 142.07, Vitruvius, jul. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.142/7422>.

KOGAN, Gabriel. Vazio e pensamento, vento e movimento. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Obra brasileira no exterior”: Capela Bienal de Veneza / Carla Juaçaba. Drops, São Paulo, ano 20, n. 143.05, Vitruvius, ago. 2019 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/20.143/7457>.

SEGAWA, Hugo. Prêmio APCA 2018 – Categoria “Melhor obra”: Campus da UFABC / Claudio Libeskind e Sandra Llovet [no prelo].

1

KLIASS, Rosa Grena. Meu São Roque. Arquiteturismo, São Paulo, ano 02, n. 013.04, Vitruvius, mar. 2008 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/02.013/1404>.

2
CALLIARI, Mauro. O Parque da Juventude. O poder da ressignificação. Projetos, São Paulo, ano 14, n. 162.03, Vitruvius, jul. 2014 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/14.162/5213>.

sobre a autora

Mônica Junqueira de Camargo é arquiteta e mestre pela FAU Mackenzie, doutora e livre-docente pela FAU USP. Foi professora da FAU Mackenzie de 1987 a 2003, e atualmente é professora da FAU USP. Foi diretora do CPC – Centro de Preservação Cultural da USP.

 

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