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drops ISSN 2175-6716

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português
Gabriel Kogan homenageia o músico João Gilberto, alma da bossa nova e emblema de um país criativo e original, falecido em 6 de julho de 2019.

how to quote

KOGAN, Gabriel. Saudades de um país que ia dar certo. Ou o show de João Gilberto que nunca existiu. Drops, São Paulo, ano 20, n. 142.03, Vitruvius, jul. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/19.142/7407>.



Enquanto João gravava seu “Chega de Saudades”, o primeiro disco da Bossa Nova, Oscar via começar as obras de Brasília e os projetos dos palácios estavam a pleno vapor. Estamos em 1958: Oscar e João materializaram suas conquistas e consolidariam uma revolução nas artes. Já se passavam quinze anos da Pampulha e mais de vinte do início do projeto do Ministério da Educação, mas seria na nova capital que Oscar tiraria todas dúvidas do sentido e grandiosidade daquele projeto. João mostrava enfim o quê faria com o samba e com o Jazz. Oscar Niemeyer e João Gilberto colocavam o país no mapa; reivindicaram ao país uma identidade enfim moderna e brasileira.

O mesmo susto que Oscar Niemeyer provocara em Le Corbusier e Lucio Costa em 1936, quando de estagiário medíocre se tornaria autor e coordenador da principal obra de arquitetura do mundo naquele momento, João – crooner também medíocre da “Era do Rádio” – provocaria publicamente agora em 1958 ao sintetizar a complexa batida do samba e a maciez do cool jazz em um novo jeito de se cantar e tocar violão.

O som do surdo ficaria para as cordas graves do violão, vibradas por toques suaves do dedão. O tamborim se resumiria a econômicos sons das cordas agudas emitidos ao se pegar e puxar as cordas delicadamente. Pronto. Bastaria cantar baixinho e brincar com os ritmos que, inexplicavelmente nunca sairiam do pulso. Tínhamos Barney Kessel, Julie London e Chet Baker juntos com Dorival Caymmi, Ary Barroso e Dick Farney.

A mesma síntese antropofágica está na base da arquitetura de Oscar: pegar o racionalismo europeu, distorcê-lo até se tornar irreconhecível e constituí-lo em formas suaves. Le Corbusier, Walter Gropius e Mies Van der Rohe, estão, mas não estão na Pampulha. São, mas não são. Primeiro o Cassino com sua pequena marquise curva na frente anunciando o estranhamento diante de uma fachada ritmada análoga as soluções do Estilo Internacional. Por de trás, um volume massivo curvo em planta, como se os contidos elementos sinuosos da arquitetura e da pintura de Le Corbusier ganhassem escala, uma escala brasileira. Depois a curva se tornaria estrutura na Igreja e por fim, apoteoticamente, divertimento na Casa de Baile.

Oscar dizia que suas “inspirações” para as curvas vinham das montanhas do Rio de Janeiro, as mesmas montanhas cantadas por João nas músicas de Tom Jobim (“da janela vê-se o Concovado”). O elemento geográfico natural e urbano (Copacabana, Ipanema...) retornaria invariavelmente à Bossa Nova e à arquitetura moderna.

Como se tudo isso não bastasse, Oscar e João compartilham princípios estéticos, cada um na sua arte, a arquitetura, a música: uma certa predileção pela suavidade, pela maciez, acompanhada de uma indiscutível precisão; a precisão da curva derivada da intuição estrutural ou do ritmo sincopado que nunca sai do pulso; essa antiga oposição entre o perfeito e o imperfeito que está inclusive na base das filosofias orientais.

Quando chegamos a Casa das Canoas, Oscar tinha acabado de sair. Vi João duas vezes. A primeira no Tom Brasil em 1996. Sentei na primeira fila. João cantou Bahia com H e perguntou ao fim se alguém sabia o compositor dessa música. "Denis Bream", óbvio. Fiquei quieto. Ninguém no público sabia. Ou se sabia, não quis falar, como eu. Depois, João tocou secretamente no Sesc, no Vila Mariana, lá pelo ano 2000. Um concerto que parece que nunca aconteceu: o Sesc não divulgou, e nunca registrou esse evento. João cantou por mais de três horas, boa parte do seu repertório. Não duvido que tenha sido o maior/melhor concerto da vida dele, feliz pelo público não ser metido a besta (o ingresso custou 10 reais no máximo). Na terceira música, todos começaram a cantar baixinho com ele. João parou a música. "Ih... Lá vem bronca no público". Engano: "Eu adoro quando cantam assim comigo, vocês podem me acompanhar hoje?". Esse concerto nunca existiu.

Não estamos em 1958. Retornei ao Rio esse mês após quase dois anos. Tive que voltar. Quis voltar. Fiz questão, pela primeira vez, de passar na Rua Nascimento Silva, número 107. O Rio é a cidade que mais amo e odeio. Estou falando desse Rio do Brasil que ia dar certo. O Rio de Tom e João. O Rio de Oscar. O país do futuro, referência para o mundo: Nova York ou Japão. Estou falando do Rio da violência e do pânico. O Rio do tráfico, das milícias, da guerra civil. E o Rio do fascismo que transborda todas as fronteiras. João tinha que morrer em 2019. Não havia outra data possível. O Rio é lindo, é horrível... “Esse Rio de amor que se perdeu”.

nota

NE – texto em homenagem ao músico João Gilberto (João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, Juazeiro BA, 10 jun. 1931 – Rio de Janeiro RJ, 6 jul. 2019).

sobre o autor

Gabriel Kogan, arquiteto (FAU-USP) e crítico de arquitetura, professor visitante adjunto da Politécnico de Milão (POLIMI). Colaborou com a Folha de S.Paulo. Fundador do Centro Pesquisas Urbanas e editor a Revista Centro. Integra o júri do Prêmio APCA desde 2016.

 

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