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drops ISSN 2175-6716

abstracts

português
O texto busca abordar as dificuldades e respostas encontradas pelo ambiente educacional brasileiro de arquitetura frente à expansão da pandemia Covid-19 no país, em especial as possíveis alterações do ensino após o fim do distanciamento social.

english
The text seeks to approach the hardships and answers found by the Brazilian architectural education system regarding the expansion of the Covid-19 pandemics, in particular the possible changes in teaching after the end of social distance.

español
El texto estudia las dificultades y respuestas propuestas por la educación brasileña de arquitectura para la expansión de la pandemia Covid-19, en particular los posibles cambios en la enseñanza después del final de la distancia social.

how to quote

LEITE, André Gabriel Caetano. Fugindo do confinamento. Efeitos da pandemia para a educação de arquitetura no Brasil. Drops, São Paulo, ano 20, n. 154.01, Vitruvius, jul. 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/20.154/7800>.



Com novos tempos, novos desafios. E agora, frente à pandemia do Covid-19, mais do que nunca o brasileiro se questiona sobre suas rotinas, seus ritos e suas certezas. Até mesmo as maiores cidades, como a pulsante São Paulo, se viram contidas por causa dos efeitos da doença. Mas para além dos impactos no dia-a-dia que se veem na mídia, há também a necessidade de pensar na fundação do mundo arquitetônico: a escola. O quadro atual veio como um forte abalo ao funcionamento típico do campo da educação, onde normalmente a paciência e a calma são vitais para um bom resultado. Afinal, nesse contexto extremamente prático em que todos os arquitetos passam ou passaram, se observa agora uma mudança de paradigmas como observado em poucos outros contextos.

Para entender a intensidade do choque sofrido, é necessário relembrar da normalidade pré-pandêmica. Ao mesmo tempo que a profissão do arquiteto caminhava a passos largos para a modernização e automação, a academia, em geral, possuía uma marcha mais lenta, ainda um tanto saudosa com o modernismo da Escola de Belas Artes. Nunca saíram do currículo o desenho a mão, a maquete e o ensino de conceitos que já são feitos por computadores na prática. Mas atenção: não se critica aqui esse método. Há valor em ensinar o “tradicional” para que se erga e compreenda o atual posteriormente; toda forma de ensino tem vantagens e desvantagens. A questão é justamente que uma das desvantagens desse modo de ensino acadêmico foi duramente atacada pelo vírus. Em tempos de distanciamento social, o processo criativo presencial e o aprendizado coletivo em ateliê são inviáveis. Esse modelo de manufatura, da noite para o dia, teve que se atualizar.

Como então, lecionar um processo físico e íntimo como a criação de maquetes? Como possibilitar a elaboração de desenhos técnicos, com pranchetas e instrumentos mil? O vírus impactou a escola a ponto de fazer com que, num salto, ela tivesse que tentar evoluir para o mundo da hiper conectividade virtual. Fortuitamente, os jovens que compõem a maioria desse ambiente já nasceram nessa intricada teia social. Por isso, o impacto não foi fatal. É verdade que, em se tratando de uma analogia à evolução, nem todos responderam ao meio da mesma forma. Algumas universidades públicas, como a UFRJ, negaram o ensino virtual, já que não se é justificável exigir o acesso dos alunos da rede pública a um computador e a uma rede estável para realizar quaisquer atividades online. Em um país onde o acesso a esse meio ainda é um privilégio, tratou-se de uma medida extremamente compreensível por parte das prefeituras dos campus. Mesmo assim, o corpo docente e de pesquisadores continua funcionando e lutando por soluções viáveis para a situação atual nos mais diversos campos do conhecimento. E essa realidade é vital para o Brasil: das dez melhores faculdades de arquitetura do país, oito são da esfera pública (1). Apesar das aulas estarem oficialmente paralisadas, a educação se mantém viva dentro do possível e mostra sua importância na resposta contra o vírus.

Por outro lado, algumas faculdades particulares escolheram migrar para o Ensino a Distância – EAD. Nesses casos, em que se analisou que o grupo de alunos detém os meios para aprender com a modalidade, o salto foi feito. E é nesse momento em que o paradigma da academia começa a ser volatilizado. Pela primeira vez, algumas das principais faculdades do país tentam adaptar o ensino de arquitetura para uma forma de manufatura a distância. Escolas como a PUC-Rio fizeram o esforço dessa migração em questão de dias. Graças ao auxílio de pdfs, fotos e todo tipo de contato virtual entre aluno e professor, o ensino de projeto e sua fenomenologia inerente não foram totalmente desestabilizados. É óbvio que a cobrança foi reduzida e repensada e o material exigido para maquetes, por exemplo, tornou-se tudo aquilo que o aluno possuir em mãos. Caixas, papel, papelão, tudo se torna materialização do imaginável. O mais importante é manter-se saudável – o que alguns já podem apontar como mudança na mentalidade da escola de arquitetura. Além disso, alguns comprometimentos tiveram que ser feitos para manter a aula, mas isso também gerou novos processos de aprendizado. Expressar-se, digitalmente e não ao vivo, levantou desafios e exercícios de discurso que são proveitosos para a formação dos jovens. Novos métodos e programas de computador são acessados. Novas formas de comunicação criativa e imagética, exploradas. A independência tornou-se palavra de ordem. E em um país onde 55% dos profissionais de arquitetura e urbanismo é liberal ou autônomo (2), essas experiências adquiridas certamente terão efeitos positivos no porvir. Da adversidade atual, pouco a pouco surgem saídas que aproximam a arquitetura à realidade hiper conectada do mundo desde o início do curso.

Nesse cenário já bastante complicado, contudo, as dificuldades vão muito além das quatro paredes da sala de aula – seja ela quarto, sala ou escritório de cada um. A solução encontrada no EAD ainda está em fase de desenvolvimento, mas desde cedo enfrenta um enorme obstáculo no Brasil. A questão é que o órgão máximo da profissão no país, o CAU/BR, se posiciona de forma contrária à modalidade. De março de 2019, o CAU recusa o registro profissional de alunos formados a distância (3), o que já põe sob pressão esse salto para o ensino virtual no que tange aos vários alunos que se formariam no fim do primeiro semestre de 2020. Para os alunos de outros períodos, porém, a situação não melhora muito. Manifestações de pouco antes dos efeitos da pandemia se concretizarem (4) foram contra o aumento da carga horária da modalidade em arquitetura e urbanismo efetivada pela Portaria do Ministério da Educação – MEC n. 2.117, de 6 de dezembro de 2019, que levou a 40% o limite de carga EAD (5). O CAU/BR alegou nessa manifestação que a medida “cerceia e prejudica a formação profissional teórico-prática do arquiteto e urbanista, podendo trazer sérios danos, com riscos à segurança, à integridade física, à saúde, à educação, ao patrimônio, ao meio ambiente e ao bem-estar da sociedade” (6).

Desse modo, a questão no momento é muito mais profunda do que somente a produção e o aprendizado em tempos de corona vírus. Os responsáveis pelo ensino se encontram de mãos atadas: como professores, buscam o ensino de qualquer forma possível; como arquitetos, caminham para a modernização constante do campo; mas como profissionais, devem seguir a orientação do órgão regulador e negar o molde de ensino que tem se visto desde o início da pandemia. Tudo somado ao estresse coletivo como cidadão, oriundo do distanciamento social. Pois chegou o momento de tomar decisões que irão contrariar um aspecto ou outro da sua vida profissional. E enquanto os próprios membros do órgão aderiram ao teletrabalho recentemente (7), ainda não houve indicação de que a situação os convenceu de possíveis benefícios do EAD que possam ser futuramente aproveitados.

Por fim, entende-se a encruzilhada do ensino brasileiro de arquitetura. Além dos desafios e aprendizados da fuga do confinamento por meio do ensino a distância, empecilhos de órgãos reguladores se somam ao problema. Mesmo assim, há de se ter positividade. O salto para um aprendizado mais conectado ao mundo online teria que ser feito em algum momento. É possível que no pós-pandemia alguns elementos do EAD se mantenham, e é quase certo que aprendizados desse momento serão implementados ao retornar para o ensino presencial. Que essa experiência seja, ao menos, uma base para o futuro mais adaptado à vida contemporânea no ensino de arquitetura. E que, seja dentro ou fora de casa, os arquitetos continuem podendo sonhar arquitetura livremente.

notas

1
Rankings de Cursos Arquitetura e Urbanismo Arquitetura e Urbanismo. RUF – Ranking Universitário Folha 2018. Folha de S.Paulo, São Paulo, 2018 <https://bit.ly/3eWlucu>.

2
Pesquisa CAU/BR revela perfil profissional dos arquitetos e urbanistas brasileiros. CAU/BR, Brasília, 20 ago. 2019 <https://bit.ly/2NSQM81>.

3
CAU/BR decide recusar registro profissional a alunos formados em cursos EaD. CAU/BR, Brasília, 29 mar. 2019 <https://bit.ly/3it14tB>.

4
CAU manifesta-se contra aumento da carga horária em EaD em cursos presenciais. CAU/BR, Brasília, 19 fev. 2020<https://bit.ly/3eTiA8o>.

5
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Portaria n. 2.117, de 6 de dezembro de 2019. Dispõe sobre a oferta de carga horária na modalidade de Ensino a Distância – EaD em cursos de graduação presenciais ofertados por Instituições de Educação Superior – IES pertencentes ao Sistema Federal de Ensino. Diário Oficial da União, Brasília, n. 239, seção: 1, 11 dez. 2019, p. 131 <https://bit.ly/3eVLDYU>.

6
CAU manifesta-se contra aumento da carga horária em EaD em cursos presenciais. CAU/BR, Brasília (op. cit.).

7
CAU/BR adota teletrabalho até 30/04, sem prejuízo da prestação de serviços. CAU/BR, Brasília, 18 mar. 2020 <https://bit.ly/31zQsmS>.

sobre o autor

André Caetano é aluno bolsista da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Possui experiência nacional e internacional de escrita de arquitetura, da qual se destaca sua participação na revista online Rethinking the Future e na publicação de artigo na sétima edição da revista Prumo, em 2019.

 

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154.01 coronavirus
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