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entrevista ISSN 2175-6708

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português
Adalberto da Silva Retto Júnio entrevista Marco Biraghi, professor de História da Arquitetura Contemporânea na Facoltà di Architettura Civile del Politecnico de Milão e membro do comitê de redação da revista Casabella

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Adalberto da Silva Retto Junius interview Marco Biraghi, professor of History of Contemporary Architecture in Facoltà di Architettura Civile del Politecnico of Milan and a member of the editorial board of the magazine Casabella

español
Adalberto da Silva Retto Júnio entrevista a Marco Biraghi, profesor de Historia de la Arquitectura Contemporánea de la Facoltà di Architettura Civile del Politécnico de Milán y miembro del comité de redacción de la revista Casabella

como citar

RETTO JR., Adalberto. Marco Biraghi. Entrevista, São Paulo, ano 07, n. 028.01, Vitruvius, out. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/07.028/3300>.


Francesco Dal Co e Manfredo Tafuri na Bienal de Veneza, 1991
Fotografia de Elio Montanari [fonte: TAFURI, Manfredo. Progetto di crisi, p. 12]

Entrevista com Marco Biraghi
Adalberto da Silva Retto Júnior

Em 27 de março de 1994, durante o ciclo organizado pelo Reial Cercle Artistitc de Barcelona (1),o teórico espanhol Josep Quetglas assim começou a sua palestra intitulada “Un cadáver. Palabras para Manfredo Tafuri”:

“Anatole France morreu em 12 de outubro de 1924, em meio a uma grande agonia, seguida com emocionada apreensão em toda França, que lhe preparava os funerais nacionais. O grupo do que viria se constituir desde então o movimento surrealista – antigos dadaístas – aproveitou aquela ocasião para dar um primeiro golpe público. Tinha preparado a edição de um panfleto, à imagem de um periódico, que deveria ser distribuído no mesmo dia da morte. Com o título ‘Um cadáver’, reunia escritores importantes e declarações tomadas da imprensa, juntamente com textos ásperos e insultantes de Soupault, Éluard, Breton, Aragon e outros companheiros ocasionais” (2).

A imagem construída por Quetglas ilustra em negativo sua manifestação. Em suas palavras: “Primeiro, porque careço da solene alegria, da qualidade intelectual, do rigor vital daqueles homens de 1924. Segundo, porque Manfredo Tafuri não foi Anatole France. Não foi mais do que o autor de alguns livros conhecidos em círculos de aficionados e especialistas em história da arquitetura”.

Durante o mesmo ciclo Josep Maria Rovira, citado por Quetglas, declara que Tafuri não conheceu, em toda sua trajetória intelectual, nenhuma modificação, pois desde fins dos anos sessenta até seu colapso, uma mesma e única Razão o seguiu, segura e intocável, sempre igual e atenta a si mesma, denunciando primeiro a grande cumplicidade entre Arquitetura – entendida como trabalho intelectual, como ideologia disciplinar, como prática operativa concreta – e Capital, em seu desenvolvimento, estratégia e astúcia. Desvelando logo, minuciosamente, os nós críticos do pacto URSS e USA, as distintas Vienas, Weimar, até chegar a descobrir e identificar, por meio de uma análise histórica paciente e minuciosa, as origens do moderno localizadas no mundo do “Renascimento” italiano.

Em 1969, Paolo Portoghesi, que naquele intervalo tinha conduzido os estudos sobre Guarini e Borromini, publica um artigo na Constrospazio, de título emblemático: “Autopsia o vivisezione dell’architettura?” (3), no qual sustenta a posição de estranheza da crítica e da historiografia moderna em relação à crise que tinha atingido a arquitetura daquele período. Ele denuncia a “dificuldade dos críticos mais qualificados de destacarem-se dos seus esquemas e do caráter puramente reacionário e regressivo das raras alternativas opostas a tais esquemas” (4). Ainda no mesmo texto Portoghesi cita que o artigo de Manfredo Tafuri na Contrapiano estava “dentre as contribuições mais significativas para uma revisão radical dos modelos de desenvolvimento da arquitetura moderna, [...] pois para uma crítica da ideologia arquitetônica, é o que apresenta uma análise correta e convincente das ideologias arquitetônicas burguesas da metade dos Setecentos em diante, e desemboca em uma conclusão pessimista sobre a qual é oportuno abrir o debate”.

Rafael Moneo assim descreve esse momento:

“Vemos o Tafuri de Teorie e storia imerso nas problemáticas que foram objeto dos discursos dos seus contemporâneos no fim dos anos Sessenta. O jovem Tafuri está preocupado com o fato que os arquitetos que se autodefinem modernos, desprezem a história e do fato de que a prática da arquitetura se esforce para tomar distância do passado. Como antídoto a esta preocupação ele abraça a história universal da disciplina apresentando-a panoramicamente, como se se tratasse de um monumental afresco do passado. Brunelleschi, Alberti, Bramante, Borromini...ganham a cena como protagonistas, até que apareça a figura de Piranesi, com o qual se abrem as portas daquilo que será o mundo moderno.

Em Piranesi, Tafuri encontra o início da ‘crise dell’oggetto’ que parece caracterizar a discussão crítica da arquitetura na segunda metade do século XX. O esquecimento do passado garantia a destruição da aura, a tão desejada não sacralidade da obra de arte e, assim, da arquitetura” (5).

Os primeiros que se levantaram contra Tafuri foram os “arquitetos profissionais” como o italiano Aldo Rossi, ao dedicar-lhe um croqui intitulado L’architecture assassinée. A Manfredo Tafuri e, na Espanha, segundo Rovira, o primeiro personagem a tomar tal atitude foi Oriol Bohigas.

Em suma, aqueles que nos anos 1960 buscavam uma “história operativa”, que utilizavam uma gama de conhecimentos sobre a prancheta, como instrumento de projeto ou como afirmação cultural para a profissão.

Os segundos se levantaram receosos contra Tafuri. Esses, nas palavras irônicas de Quetglas, eram “os de uma tribo inominada, caracterizada por sua tendência a trabalhar pouco”, pois “para escrever sobre o Renascimento teria que se ler e trabalhar muito, ao contrário que para escrever acerca da arte moderna”. E continua, são “aqueles adeptos ao marxismo vulgar (que dizem que a superestrutura ideológica depende da estrutura econômica) e encadeados à ignorância (esses que supõem que o moderno começa em 1900 são uns ignorantes), já que a característica da arquitetura moderna é a destruição da caixa, a pluridisciplinaridade e a assimetria, e isso já se dava com Giulio Romano, Alberti e Palladio”.

Vale ressaltar que, a posição do historiador e a do projetista, na Europa do pós segunda guerra, e principalmente na Itália, freqüentemente se confundia ou eram muito próximas, pois os arquitetos ativos profissionalmente se empenhavam na história e na crítica, transformando-se em autênticos intelectuais “orgânicos”, na expressão de Antonio Gramsci (6).

A partir de 1977 o debate arquitetônico submerge em uma profunda crise que atinge, sobretudo, a dimensão urbana. Nas palavras de Puglisi, “Declina o mito do espaço não contaminado” (7) morrendo o mito da autenticidade ligado ao neo-realismo, e o Pós-moderno se difunde em várias correntes (neo-racionalismo, Tendenza, Historicismo), mas todas apontando para uma problemática metropolitana.

Nos anos 1980, no momento em que Tafuri escreve o livro La sfera e il Labirinto, a nova concessão urbana pós-modernista aparece de forma “espetacular” na 1ª Mostra Internacional de Arquitetura, junto à Bienal de Veneza, a “Strada Novissima”. Solà Morales pontua que esse momento para Tafuri representa uma inflexão, a partir do qual se produz uma retirada melancólica dos estudos contemporâneos, levando-o a um retorno ao Renascimento. Nos anos seguintes nosso personagem lança com Antonio Foscari, L'armonia e i conflitti. La chiesa di San Francesco della Vigna nella Venezia del '500 (Torino, Einaudi, 1983), Venezia e il Rinascimento (Milão, Einaudi, 1985), e Ricerca del Rinascimento (Torino, Einaudi, 1993), que segundo Cacciari é um exercício de filologia viva (8).

Mas se o “projeto histórico” de Veneza foi tão envolvente, levando a reações inusitadas por parte de intelectuais renomados, isso se deve ao fato de que, na crítica à história “operativa” - prática dos arautos dos Modernos -, propunha-se uma outra prática com a qual os jovens históricos europeus se empenharam, pondo em discussão as teorias precedentes, como se fosse tratada ali uma nova “causa”, capaz de rediscutir uma série de inversões conceituais que tocaram toda a história da arquitetura e que erradicaram os fundamentos das histórias até aquele momento consideradas canônicas. Assim, à história das “conquistas” dos Modernos foi substituída por operações de pesquisa genealógica, das quais Foucault é a referência mais evidente, que miravam individualizar as linhas de ligação entre a arquitetura dos séculos XVIII e XIX e as problemáticas contemporâneas. Assim, “atrás da figura de Mies se desenhava aquela de Behrens, e mais ainda, aquela de Schinkel; atrás de Le Corbusier se delineavam de um lado a continuidade do racionalismo francês e do outro a importância da experiência alemã; e atrás de Loos colhia-se a amplidão das propostas de Otto Wagner” (9).

Dentre as muitas inversões que então vinham sendo conduzidas, figurava, também, as análises das periferias das grandes cidades, lugar onde se encontravam as políticas de reforma social e de invenção arquitetônica – o verdadeiro centro da modernidade européia.

Um conjunto de fatos construído, a partir do exame minucioso e aprofundado dos edifícios, e dos arquivos, alimentou a formação dessa outra história, que ao olhar mais os “vencidos” do que os “vencedores” da história oficial, reabilitava aos olhos da história arquitetos injustamente “condenados”.

Subverter a hierarquia e propor novas linhas históricas comportou, naqueles anos, um trabalho sem paralelo levado pelo departamento coordenado por Tafuri. Deveria não somente fazer emergir novas imagens, mas, sobretudo, dar fundamento, através de uma documentação histórica rigorosa, às interpretações subversivas propostas. A consulta aos arquivos se transformou numa necessidade e uma estratégia departamental através de concessões de bolsas que financiassem tais deslocamentos. Jean-Louis Cohen (10) esclarece que, com isso, nasceu um outro modo de fazer história, baseado “não no uso dos desenhos publicados, mas no confronto das variantes que ficaram secretas e de arrependimentos, para descobrir os verdadeiros saltos conceituais nas estratégias de projeto”. Esta história recusou, também, as “hagiografias” do passado, para buscar, na correspondência dos protagonistas, aqueles contatos anódinos e aquelas relações privadas que pudessem iluminar os acontecimentos biográficos e as escolhas arquitetônicas.

No dia 25 de fevereiro de 1994 no pátio dos Tolentini, sede do Istituto Universitario di Architettura di Venezia, Massimo Cacciari expressa em palavras o espírito que envolvia a perda de Manfredo em “Quid tum. Orazione funebre per Manfredo Tafuri”:

“Saberemos nós também fazer do tempo que nos foi dado obra, construção, pintura, traços e medida. É difícil hoje pensar que conseguiremos, sem a sua presença, sem o seu exemplo”. E continua: “É fácil pensar, ao contrário, que acabaremos submersos no dilúvio de conversas, e rumores, de dogmatismos hoje em moda, dos mais opostos a cada convicção e a cada responsabilidade. E mesmo assim temos que nos permitir, aqui, em torno a Manfredo: procuraremos ‘com todas as mãos e com os pés, com todos os nervos, com todos os esforços’ de ser lhe fiéis, de escutá-lo” (11).

Depois de um período de relativo eclipse o confronto com Manfredo Tafuri está sendo re-proposto como algo iniludível para a cultura contemporânea, porém de forma muito diferente daquela imagem encenada pelo teórico espanhol.

O lançamento do livro “Progetto di Crise. Manfreso Tafuri e l’architettura contemporânea” do prof. Marco Biraghi e o Congresso The Critical Legacies of Manfredo Tafuri, que aconteceu na Columbia University em 20 e 21 de abril de 2006, organizado por Daniel Sherer (12), mostram um grupo muito seleto de intelectuais reunidos em torno ao legado tafuriano.

Gregotti assim se pronuncia sobre o livro do prof. Marco Biraghi: “Um grande mérito do livro é certamente aquele de ter dedicado um trabalho de trezentas páginas ao mais intrigante e genial historiador italiano da arquitetura do último meio século: Manfredo Tafuri” (13).

Se de um lado está, todavia, em curso uma remoção sutil e talvez superficial daquilo que atribuía ao historiador a responsabilidade de todos os erros da arquitetura atual, principalmente por parte dos arquitetos, de outro, alguns ações pontuais dentro do seu departamento e da sua universidade, começam a delinear uma tentativa inicial de rompimento do silêncio pós-morte, que pouco a pouco denotam uma lenta retirada de véu do personagem que se transformou em tabu dentro do departamento de história, por ele fundado.

Desde então, iniciou-se um ciclo de conferências anuais com renomados intelectuais que são chamados a prestar homenagem, ou ainda, conversar com Tafuri, em uma sessão especial no auditório que leva seu nome. Se em um primeiro momento aconteceu em data próxima ao seu aniversário, 20/10/1994 com Carlo Ginzburg falando sobre Straniamento: preistoria di un procedimento narrativo, nos anos sucessivos deslocou-se em torno ao dia de sua morte (14).

James Akerman (15), convidado no ano de 2001, assim se referiu a Tafuri na sessão pública:

“Depois de ter começado a ensinar, e ter entendido o quanto era difícil integrar a minha reação à individualidade e à presença física do objeto com uma interpretação penetrante, fiquei mais consciente da necessidade de estudar os assuntos ideológicos que estão submetidos à escolha de um sujeito, e à sua abordagem, e esta percepção se reforçou em fins dos tulmutuosos anos ‘60. Isto veio à tona por um outro professor, Manfredo Tafuri, vinte anos mais jovem que eu, o qual, único entre os mais inovadores e filosóficos historiadores da arquitetura do século passado, unia uma grande capacidade de penetrar as motivações ideológicas dos comitentes e dos artistas com uma rigorosa integridade de método, e com um estupefaciente empenho na busca das fontes, enriquecendo a análise de cada construção através da articulação das suas experiências visível e a sensibilidade à criatividade individual do artista” (16).

Em 12 de dezembro de 2002 foi iniciada a primeira versão do evento anual “Fare storia” (17) junto ao Doutorado de Excelência da Fondazione Scuola Studi Avanzati in Venezia, criado alguns anos após Tafuri, em San Servolo.

Francesco Dal Co assim se manifestou:

“Hoje nos jornais lemos sobre “fazer história”. Mas alguém “faz história”? O que significa exatamente? É possível fazer história? É possível escrever textos objetivos sobre o passado? História é o que encanta por que desencanta. Mas a história não exprime jamais as palavras definitivas porque jamais dá certezas. “Fazer história” então significa agir à luz deste desafio. Significa se ocupar com aquilo que não é nosso, com o que já perdemos, com aquilo que nos escapa. Não possuímos a história, não a compreendemos. Não há a última palavra na história” (18)

Em 2005, como programa do mesmo doutorado se iniciou o Seminário Internacional de Estudos 2004-2005 “Rileggere Tafuri”, nascido da “simples vontade de re-ler e re-discutir livros que foram, ou deveriam ser, a base da nossa formação de historiadores e críticos da arquitetura. Nesses vêm delineadas as razões e as metodologias de pesquisa histórica e teórica que desenvolvemos cotidianamente, as origens dos ciclos e dos fenômenos que são objetos do nosso estudo” (19). No seminário, teóricos de relevo são chamados a re-lerem as obras de Tafuri individualmente. Aquele organizado por Marco De Michelis e L. Skansi renomeado “Riscrivere Tafuri” foi apresentado o livro de Marco Biraghi, tendo como debatedor, além do organizador, Bernardo Secchi.

Mas, se a chegada dos textos de Tafuri no cenário europeu e americano, mais ainda, naquele espanhol, como adverte Quetglas, teve tantas conseqüências, “como el uso bélico de la pólvora em los trazados de las murallas renacentistas” enterrando “Giedion, Zevi, incluso el viejo Argan”, aqui no Brasil sua obra ainda permanece pouco conhecida, como constataram intelectuais de Veneza que aqui estiveram nos últimos anos.

“Um cadáver por Tafuri” e, antes da precoce mitificação que esse ato de possa assumir, ou das freqüentes interrogações se seus ensinamentos ainda são agora operantes, se existe um paradigma alternativo, o percurso aqui proposto do qual essa entrevista faz parte, é em função de indagações a partir de sua obra e na tentativa inicial, não de re-ler Tafuri, mas de lê-lo em um rito de cumplicidade gradativa a fim de encontrar traços, retirar véus na difícil arte do “desincanto” (20). Em cada véu retirado, como salienta o próprio Tafuri, o que resta é estudar, conhecer e representar os mecanismos reais, e por isso convém usar na maneira mais refinada possível os instrumentos de uma investigação (dentro de certos limites, obviamente) objetiva. É o “total desencanto que faz o grande historiador”.

notas

 1
Ciclo intitulado Per a Manfredo Tafuri, organizado pelo Col-legi Oficial d’Arquitectes de Catalunya. As outras intervenções no mesmo ciclo foram de Josep Maria Rovira, Ignasi Sola-Morales, Victor Pérez Escolano, Carlos Sambricio e Fernando Marias.

 2
QUETGLAS. Josep. Un cadáver. Palabras para Manfredo Tafuri. Quaderns d’arquitectura i urbanisme, nº 210. Barcelona, 1995.

3
Tradução: Autopsia e dissecação da arquitetura.

4
PORTOGHESI, Paolo. Leggere l’architettura. Roma, 1981, p. 46.

5
MONEO, José Rafael. La ricerca come lascito. Casabella, nº 619/620. Milão, 1995, p. 132.

6
Sobre o assunto ver: COHEN, Jean-Louis. Dall'affermazione ideologica alla storia professionale, 1999.

7
PUGLISI, L. Prestinenza. Silenziose Avanguardie. Una storia dell’arcchitettura 1976-2001. Torino, 2001, p. 86.

8
Cacciari ressalta que o próprio título de Ricerca del Rinascimento: principi, città, architetti, de Manfredo Tafuri, já é um exercício de filologia viva, pois deixa de ser uma pesquisa sobre o Renascimento para incorporar a “própria visão do Renascimento como pesquisa”. No sentido lato, segundo uma idéia oitocentesca, o objeto da filologia é o conhecimento daquilo que foi produzido pelo espírito humano, isto é, do conhecido. Muitos teorizaram e também praticaram análises do mundo figurativo e material com intenções filológicas, mas vale recordar que cabe à escola Les Annales uma redefinição recente no sentido teorético e metodológico do papel das fontes na pesquisa histórica, por meio de inovações no que diz respeito às modalidades e às técnicas de interpretação dos dados, assim como ao alargamento dos horizontes analíticos. Nessa redefinição, coloca-se, por exemplo, aquele modo de construir conhecimento histórico por meio da análise estatística de um grande número de dados, injustamente deixados de lado pela filologia tradicional. Fernand Braudel nos mostra com uma história quantitativa que dá relevância documental à multidão de fatos diminutos, externos à sacralidade do evento, como os nascimentos e as mortes, habitações e vestuário, etc. É nesse contexto que se tem uma dilatação do campo de investigação do histórico: A história – nos diz Lucien Febvre – "se faz com os documentos escritos, certamente. Quando estes existem. Mas pode-se fazer também, quando os documentos escritos não existem [...]. Logo, com as palavras. Com os signos. Com a paisagem e as telhas. Com os eclipses da lua e as rédeas dos cavalos de carga. Com as perícias das pedras feitas pelos geólogos e com as análises de metais feitas pelos químicos. Em suma, com tudo aquilo que, pertencendo ao homem, depende do homem, serve ao homem, exprime o homem, demonstra a presença, a atividade, os gostos e modos de ser dos homens". Se o objeto da filologia é o estudo com o fito de compreender e explicar um mundo de signos e sentidos por meio da obra, se é o estudo a fim de reconhecer os traços genéticos e estruturais de uma obra, e se além de tudo tem o fim de um trabalho sobre a obra – saturar lacunas ou produzir integração apropriadas –, então o procedimento filológico percorre a linha da construção.

9
Sobre isso ver CIUCCI, G. Gli anni della formazione. Casabella, nº 619-620. Milão, 1995.

10
COHEN, Jean-Luois. La coupure entre architectes et intellectuels, ou les enseignements de l'italophilie, nº 1. In Extenso. Paris, École d'Architecture Paris-Villemin, 1984.

11
Durante minha permanência em Veneza solicitei ao prof. Massimo Cacciari uma entrevista no qual exploraria os anos de Manfredo Tafuri à frente do departamento. Ele, gentilmente, disse não gostaria de falar de argumento que o fazia sofrer e que já tinha conseguido distanciar-se depois de muito tempo.

12
In www.arch.columbia.edu/gsap/59939. Participantes do Congresso: Diana Agrest, Andrew Leach, Reinhold Martin, Peter Eisenman, Kenneth Frampton, Anthony Vidler, Joan Ockman, Mark Rakatansky, Carla Keyvanian, Anthony Vidler, Guido Zuliani, James Ackerman, Deborah Howard, Daniel Sherer, Jean-Louis Cohen, Marco Biraghi, Diane Lewis, Alessandra Ponte, Antoine Picon, Reinhold Martin, Beatriz Colomina, Alessandra Ponte. Somente Bernardo Secchi e Marco De Michelis aparecem como representantes do Instituto de Veneza.

13
La Repubblica
, 10 jun. 2005.

14
23 fev. 1996 – Raymond Klibansky, Niccolò da Cusa e il pensiero dell’uomo; 23 fev. 1997 – Rafael Moneo, Critica e architettura; 23 fev. 1998 – Massimo Cacciari, Costruire – pensare; 23 fev. 1999 – Paul Zanker, Le apoteosi imperiali nel campo Marzio. Rituale e cornice urbana; 23 fev. 2000 – Salvatore Settis, Un’Adultera, Giorgione e Tiziano; 23 fev. 2001 – James Ackerman, Sulle origini della fotografia di architettura; 23 fev. 2002 – Mario Tronti, Pensare la politica dopo il ‘900?; 23 fev. 2003 – Franco Cordero, I tanti modi d’avere ragione: retoriche del secolo incipiente; 21 mar. 2005 – Pierre Gros, Le fondazioni urbane sotto l’Impero. Ombre e luci della ‘praxis’ ordinaria. Na última das “Lezione Manfredo Tafuri” (2006) houve “Tre conversazione con la musica. La vocazione artistica”, com curadoria de Paolo Cossado.

15
Ressalto a figura de James Ackerman dado sua importância frente ao Centro Internazionale Andrea Palladio. Instituição que de certa forma faz parte ainda hoje como complemento ao projeto pedagógico do departamento de história, principalmente no que se refere ao debate filológico. Manfredo Tafuri, em entrevista concedida a Pietro Corsi, ressalta tal importância na medida em que o Centro reúne historiadores com uma sólida cultura filológica. O CISA foi fundado em 1958 e congrega desde então grandes teóricos ocupados em Renascimento, como James Ackerman e Howard Burns, que tiveram grande contato com Tafuri. Até recentemente (2002) Howard Burns foi presidente do Conselho Científico e também coordenador do doutorado do DSA – Veneza. Os membros do Conselho Científico atual são: James S. Ackerman, Franco Barbieri, Arnaldo Bruschi, Renato Cevese, Giorgio Ciucci, Joseph Connors, Kurt W. Forster, Christoph L. Frommel, Luisa Giordano, Pierre Gros, Jean Guillaume, Douglas Lewis, Fernando Marias, Paola Marini, Werner Oechslin, Pier Nicola Pagliara, Jean-Marie Pérouse de Montclos, Mario piana, Lionello Puppi, Fernando Rigon, Juergen Schulz, Christof Thoenes, Wolfgang Wolters.

16
Anotação feita durante a palestra.

17
O título é uma referência ao livro Faire de l’histoire, publicado pelos historiadores franceses Jacques Le Goff e Pierre Nora em 1974. Em uma entrevista Tafuri explicita a ligação com os historiadores da Annales citando o livro Le problème de l’incroyance au XVIe siècle: la religion de Rabelais (1974-42) ou seu recente livro Un destin, Martin Luther, un destin (1928).

18
Fare storia, 12-14 dez. 2002.

19
In www.documenti.ve.it.

20
Cacciari reforça que Tafuri como “homem póstumo, ensinava a coisa mais difícil: a arte do desencanto junto à esperança e a fé”. CACCIARI, Massimo. Quid tum. Casabella, nº 619-620. Milão, Elemond Periodici, jan./fev. 1995, p. 168.

Desenho de Aldo Rossi intitulado "L’architecture assassinée. A Manfredo Tafuri", de 1974

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