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interview ISSN 2175-6708

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Na entrevista concedida à Ana Rosa de Oliveira, o arquiteto Fernando Tábora conta a experiência de ter trabalhado de 1955 a 1964 na sociedade Roberto Burle Marx e Arquitetos Associados

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OLIVEIRA, Ana Rosa de. Fernando Tábora. Entrevista, São Paulo, ano 09, n. 036.01, Vitruvius, out. 2008 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/09.036/3283>.


Expedição de coleta de plantas na Venezuela. Carlos Guinand e Burle Marx

Ana Rosa Oliveira: Fale sobre sua participação no Projeto do Parque do Flamengo.

Fernando Tábora: O projeto inicial para o Aterro do Flamengo foi um conceito desenvolvido por Affonso Eduardo Reidy. Ele desenhou essa forma que se manteve porque dera bom resultado para o porto, de acordo com a engenharia de costas. Para o parque, Reidy planejara espaços amplos, mas a SURSAN no seu projeto viário estabelecera quatro pistas rápidas que destruiriam toda possibilidade de realizar um parque. Minha participação esteve diretamente associada à programação do parque e na luta para reduzir as vias de tráfego propostas, de quatro para duas. O primeiro que se fez, projeto do Reidy, é o Museu de Arte Moderna. Eu comecei a trabalhar com o Burle em 1955, nos jardins de acesso e terraço do corpo baixo (bloco escola) no Museu de Arte Moderna, projeto do Reidy.

ARO: Esse era o jardim realizado para o terraço do restaurante do MAM-RJ?

FT: Sim, o Burle tinha feito os jardins do aeroporto, que ainda existem, mais ou menos no ano de 1947. Então, por longo tempo, não se fez mais nada. Quando se fez o projeto do aterro, inicialmente utilizou-se terra do Morro de Santo Antônio, não existindo ainda projeto de parque. Depois de criada, essa base foi completada com areia tirada do fundo da baía. Ainda não havia projeto das vias de tráfego. A SURSAN tinha uma proposta que, como mencionei anteriormente, nós fomos contra. Em lugar das duas pistas eles propunham quatro. Essas quatro pistas praticamente utilizavam todo o aterro para a circulação de veículos, deixando somente um espaguete inútil nas áreas públicas. Então, para poder convencer a SURSAN de que isso não era possível, nós fizemos uma proposta de circulação viária; essa idéia foi desenvolvida com limitações, nós não éramos engenheiros de estradas. Essa idéia foi apoiada por Lota e seus assessores. Na época John Stoddart encontrava-se na Venezuela, Nós intercalávamos períodos de supervisão de obras e de desenho para o parque do Aterro do Flamengo e o parque del Este, em Caracas.

A SURSAN acabou revisando o seu plano para quatro vias e então demos início ao plano diretor, planejando estacionamentos, passagens subterrâneas e elevadas para os pedestres. As passarelas elevadas foram inicialmente baseadas na idéia da primeira ponte projetada por Reidy e calculada pelo engenheiro Sydney M. Santos. Mas o que mais aproveitamos foi a nossa experiência com topografia modificada adotada no Parque del Este, fazendo grandes movimentos de terra, morros, visando utilizar as faixas existentes entre as pistas como parque, não se limitando à circulação. As passarelas elevadas possibilitaram a articulação entre as faixas de terra, a cidade e a praia.

O programa e o traçado do parque foram desenvolvidos pela equipe do Burle. O Reidy nos deu uma espécie de contorno do parque e uma área para resolver. Nós concebemos tudo, inclusive o projeto que serviu de base para o estudo das vias definitivas. Essa questão das vias foi muito problemática pela oposição da SURSAN à nossa proposta. Essa é a razão pela qual a Carlota (1) nos deu tanta importância nesse projeto. Ela dizia que éramos “os meninos” que resolviam todos os seus problemas, os quais Burle Marx não conseguia resolver. As quatro vias teriam acabado com o parque.

ARO: E o Parque do Aterro do Flamengo qual foi a idéia principal?

FT: O Parque do Aterro partiu do conceito que nós tínhamos desenvolvido no Parque del Este, ou seja, a recreação livre do automóvel. Isso foi muito mais difícil no Aterro que no Parque del Este, porque no Aterro as vias são parte do sistema de transporte da cidade: ainda assim conseguimos mantê-las separadas das atividades do parque, prioritariamente de recreação ativa, o que mais falta na cidade. Também pensamos em proporcionar espaços que permitissem a contemplação da magnífica paisagem circundante. Essa era uma das últimas, de dispor todo tipo de oportunidades de lazer, isto é, acesso ao mar, praia e espaços com quadras de jogos e atividades diversas para a enorme população dos setores circundantes. Eu acho que nisso nós não erramos, porque hoje se usa intensamente.

ARO: E a praia, também foi criada?

FT: Sim, o mesmo foi feito em Copacabana. Copacabana foi criada antes do Aterro. Com a experiência adquirida foi construído o Aterro do Flamengo, com os mesmos técnicos que vieram de Portugal, do Laboratório de Estudos Marinhos de Lisboa fez o estudo disso e a engenharia utilizada foi portuguesa. O interessante é que no Aterro, graças à Lota, nos aspectos técnicos, se usou o que tinha de melhor na época. Por exemplo, na iluminação, ela não suportava a idéia de “paliteiro” ou seja, ela não quis encher o aterro de pequenas luminárias resultantes de uma tecnologia nacional obsoleta e contratou os serviços mais avançados nessa área, dotando o parque com postes de 40 m de altura, cada um deles com seis luminárias de 1000 watts.

Quando foram instalados aqueles novos postes de 40m de altura, a vegetação ainda não tinha crescido, logo, eles ficaram muito visíveis e desproporcionais. Eu acho que o parque foi uma grande contribuição para a cidade, porque além de não haver outras possibilidades de lazer nessa área, tinha a vantagem de servir à população das favelas gigantes que ficam próximas. O único problema ainda não solucionado é o da segurança.

Em todo caso, o Aterro foi um ponto de partida. O Burle fez muitas coisas importantes, coisas bonitas. Progressivamente, ele foi abandonando a excessiva ênfase à vegetação e dando mais importância à plástica do jardim. No Aterro ele experimentou com outras formas geométricas como o demonstrou o desenho dos jardins diante do Museu de Arte Moderna, onde usou seixos e esculturas de blocos de granito em contraste com as formas livres das demais áreas do parque, tal como tínhamos feito entre as áreas dos Pátios e as restantes do Parque Del Este.

ARO: Havia algum desenhista que trabalhava para ele?

FT: No início era ele, e, por exemplo, certos desenhos seus eram tão barrocos que o próprio Lúcio Costa dizia que ele estava exagerando. Aí ele restringiu-se. Ele teve muita influência do Mello Barreto e do Leo Putz. O pai do Burle Marx não dava muita importância ao seu trabalho. Era ao seu irmão Walter, o músico e brilhante pianista a quem dava todo seu apoio. Mas o Walter teve um professor que o Burle odiava, porque convenceu o irmão de que o piano era a prostituta dos instrumentos e que ele devia ser compositor. Ele então, optou por ser compositor, porém, como ele não compunha nada de valor, passou a viver esquecido.

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1
Carlota Macedo Soares

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