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entrevista ISSN 2175-6708

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Entrevista com João Filgueiras Lima, Lelé, concedida a Otavio Leonídio, no canteiro de obras do hospital da Rede Sarah, Barra da Tijuca (Rio de Janeiro/RJ), no dia 18 de outubro de 2007.

como citar

LEONIDIO, Otavio. Eu vivo numa ilha. Entrevista com João Filgueiras Lima, Lelé. Entrevista, São Paulo, ano 15, n. 058.01, Vitruvius, maio 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.058/5170>.


Hospital Sarah Rio de Janeiro, solário
Foto Celso Brando [Livro "Arquitetura – uma experiência na área de Saúde"]


Otavio Leonidio: Lelé, como foi a sua formação de arquiteto?

João Filgueiras Lima, Lelé: Na época em que eu ingressei na faculdade, o curso de arquitetura ainda se localizava no edifício da Escola de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Engraçado, pois era de se supor que ali na Escola de Belas Artes houvesse, digamos, uma atenção maior para a parte artística – e evidentemente que havia –, mas havia também um estímulo muito grande à parte técnica. Eu me lembro, por exemplo, que os cursos de geometria descritiva, de concreto armado, de resistência dos materiais eram muito estimulados na Escola. Tenho, por exemplo, uma formação muito sólida em concreto armado e mecânica – disciplinas que eram ministradas à época pelos professores Aderson Moreira da Rocha e Ademar Fonseca. Este último foi inclusive paraninfo da minha turma, para você ver como a turma reconheceu a qualidade do seu ensino. Foram cursos, portanto, muito valorizados na Escola, tão valorizados que o paraninfo da turma foi um professor de concreto armado.

Agora, eu creio que fundamental na minha formação foi a ida para Brasília. Porque logo depois de formado, em 1956 (eu me formei em 1955) já estava se discutindo o plano de Brasília e eu me candidatei a ir para lá. Antes de ir para Brasília, tive uma formação muito rigorosa, graças ao convívio com Aldary Toledo, que foi muito importante para mim. Aldary era um arquiteto de formação muito ampla, um homem muito culto, que trabalhara com Jorge Machado Moreira e tinha uma formação cultural muito grande. Ele me ajudou muito nesse período de formação, quando eu ainda estava na Escola. Depois disso, o fundamental foi a ida para Brasília. Não do ponto de vista, digamos, humanista ou artístico da formação do arquiteto, mas no que se refere à formação técnica, devido aos problemas técnicos que tive que enfrentar no canteiro de obras – caso contrário não se fazia a obra. A rigor, minha função em Brasília não era propriamente de arquiteto. Detalhei projetos de superquadras, desenvolvi projetos de execução, mas já havia os projetos de Oscar Niemeyer – projetos que nós obedecíamos rigorosamente. Devido à precariedade de Brasília, o canteiro de obras e toda a implantação da obra foi muito difícil. Então, esse foi um aspecto fundamental na minha formação de arquiteto.

Hospital Sarah Rio de Janeiro, vista aérea
Foto Celso Brando [Livro "Arquitetura – uma experiência na área de Saúde"]

Eu destacaria portanto três momentos fundamentais na minha formação: a Escola de Arquitetura; o convívio com Aldary Toledo e, finalmente, a ida para Brasília e o convívio com Oscar – convívio que não se restringiu àquele período inicial, se estendeu por muitos anos.

OL: Rememorando especificamente os tempos de Escola, havia, naquele momento, algum tipo de vínculo entre a parte artística e a parte construtiva do ensino?

JFL: Eu acho que esse é um ponto fundamenta na questão da formação do arquiteto – um ponto a ser discutido hoje e sempre: a fragmentação cada vez maior do conhecimento e a falta de integração das disciplinas. O arquiteto é um generalista, não um especialista. Ou ele dialoga com todos os especialistas e consegue coordenar o trabalho, ou então, inevitavelmente, perde o controle do projeto. Nesse sentido, principalmente no trabalho em Brasília, o importante para a minha formação foi a oportunidade que tive de conviver com a necessidade imperiosa de coordenar todos os projetos.

Logicamente, era muito grande a necessidade de invenção e o grau de improviso na obra de Brasília – o que às vezes assustava. Eu tinha tido, como disse, uma formação técnica, mas levei muitos livros para Brasília, já imaginando que teria de conviver com coisas que se aprende na Escola (por exemplo, fundações, estacas) mas que, em Brasília, seria preciso improvisar. Não havia, por exemplo, como aguardar por informações vindas do Rio de Janeiro, algo que só acontecia aos Sábados. Era uma vez por semana e pronto!

OL: E você acha que já existia naquele momento uma predileção sua para o aspecto construtivo da arquitetura?

JFL: É engraçado, eu sempre imagino que a nossa vida muitas vezes é conduzida por questões acidentais. Brasília foi uma questão acidental na minha vida. Mas que me direcionou para um tipo de trabalho que, com o tempo, eu fui assumindo, até pelo fato de tê-lo desenvolvido. Por exemplo, quando eu fui para a Universidade de Brasília (UnB), trabalhando com o Oscar: como eu tinha uma experiência de obra, fui me integrando na direção dos trabalhos de pré-fabricacão, da industrialização, de coisas afins. Então o Darcy Ribeiro, que era um homem extremamente criativo e entusiasmado, sugeriu, em 1962, que eu viajasse para o Leste Europeu, como objetivo de estudar melhor a questão da industrialização da construção. A pré-fabricação foi muito empregada na Europa no Pós-Guerra, com a necessidade de reconstrução, principalmente na área de habitação. E foi muito estimulada na União Soviética e nos países do Leste, regiões que haviam sido muito destruídas. Na época, se usava muito um sistema muito desenvolvido na França, o processo Camus, de paredes portantes. Mas o que me interessava não era, digamos, o processo propriamente dito; era saber como a pré-fabricado era utilizada, quais suas possibilidades, como poderia ser empregada. Veja que se trata de outra questão de oportunidade: o Darcy, que vivia sempre procurando recursos, descobriu que havia uma venda enorme de café para a Polônia e que, portanto, havia recursos disponíveis lá. Ele imaginou transformar este credito em benefícios para a Universidade. Fomos então para Polônia, não apenas arquitetos, pessoas de todas as áreas. Na minha área especifica, de construção em geral, fomos Sabino Barroso e eu. Foi uma viagem longa, que durou cerca de três meses. Nós fomos visitando país por país; passávamos por exemplo uma semana na Alemanha, depois íamos para a Tchecoslováquia, de lá para a União Soviética. A Tchecoslováquia, por exemplo, era bastante desenvolvida, já tinha uma cultura construtiva bem mais sofisticada, com um tipo de pré-fabricacão diferente. Depois disso, também estivemos na França. Foi uma viagem muito produtiva.

OL: Lucio Costa dizia que você era o elemento que faltava para o desenvolvimento da nossa arquitetura. Segundo ele, seu trabalho seria o elo entre a capacidade de criação de Niemeyer e a produção. Como você vê esta síntese entre arte e produção no seu trabalho?

JFL: E preciso dizer antes de tudo que foram várias fases de trabalho. Creio que a fase atual – na qual conto com a fabrica da Rede Sarah, em Salvador, que, evidentemente, me oferece todas as oportunidades de pesquisar – é muito mais rica. Este hospital aqui do Rio de Janeiro é fruto dessa oportunidade, da oportunidade que tenho de conviver com vários técnicos; há portanto um convívio muito estreito com a produção. Hoje em dia, logicamente, quando penso um projeto, já o penso conjuntamente com essas pessoas. Existe sempre a possibilidade de discutir aspectos importantes, que estão sendo abordados num determinado momento. Por exemplo, neste hospital do Rio: havia um aspecto de drenagem muito serio. Estamos numa área muito baixa, e o volume de terra a ser colocado para recuperar o terreno era muito caro. Nós então estudamos a implantação de um espelho d’água, intercomunicando-se diretamente com a Lagoa de Jacarepaguá, de modo a reduzir o volume de terra (que, no caso de um sistema de drenagem convencional, teria de ser colocado no terreno). Ora, para se chegar a uma solução tão especifica, numa área tão especifica, ou você discute com um técnico especialista – no caso, em drenagem –, ou fica difícil formular o projeto. E depois do projeto definido e estabelecida a implantação, é muito difícil recuperar uma proposta como essa. Assim, eu creio que há certos aspectos que têm de surgir no nascedouro, não podem surgir depois. Para mim, hoje – quer dizer, visando uma arquitetura conforme me propus fazer aqui, usando todos os recursos da fábrica, da industrialização –, é fundamental, ainda nos primeiros passos da criação, contar com um conhecimento de equipe.

Hospital Sarah Rio de Janeiro, auditório com teto semiesférico aberto
Foto Celso Brando [Livro "Arquitetura – uma experiência na área de Saúde"]

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