Seu navegador está desatualizado.

Para experimentar uma navegação mais interessante, recomendamos que você o atualize clicando em um dos links ao lado.
Todos são gratuitos e fáceis de instalar.

 
  • em vitruvius
    • em revistas
    • em jornal
  • \/
  •  

pesquisa

revistas

entrevista ISSN 2175-6708

sinopses

como citar

SEDREZ, Maycon; CELANI, Gabriela. A forma não importa. Entrevista com Arnold Walz. Entrevista, São Paulo, ano 15, n. 058.03, Vitruvius, jun. 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/15.058/5208>.


Gabriela Celani: O que é designtoproduction?

Arnold Walz: Designtoproduction, primeiramente, é uma empresa de arquitetura, porém nós não fazemos projetos. Nossos clientes são arquitetos que querem construir estruturas com geometrias complexas. Eles chegam à conclusão de que não precisam um grupo especial de projeto interno em seus escritórios. Por exemplo, Renzo Piano às vezes constrói projetos com formas livres (freeform), mas a maior parte de seus edifícios possui um desenho pouco complicado, então ele não precisa de um grupo de geometria especial e opta por trabalhar em parceria com a designtoproduction.

O que nós fazemos é auxiliar a produzir essas estruturas complexas de duas maneiras. A primeira etapa é dar suporte na fase inicial do projeto; nós escrevemos códigos para criar as formas. Os códigos são bastante flexíveis e nós podemos experimentar diferentes formas para fachadas, vigas, sistemas de posicionamento, qualquer aspecto que quisermos testar para otimizar o projeto como um todo. A etapa seguinte é quando o projeto parece estar pronto e a equipe concorda com o resultado, mas você chega ao momento de incorporar todos os aspectos de engenharia estrutural, aspectos físicos do edifício. Esses aspectos também causam mudanças que devem ser manejadas. Nestes edifícios complexos uma pequena mudança pode ter uma reação em cadeia por todo o projeto. No museu Mercedes, uma vez nós mudamos o núcleo central e isso afetou até mesmo a fachada. Do ponto de vista de um planejamento convencional, estas alterações teriam se tornado uma catástrofe. Para nós não é um grande problema porque tudo está elaborado de uma maneira que você pode atualizar o projeto apenas mudando um parâmetro.

Maycon Sedrez: Quais são os arquivos que os arquitetos enviam para a designtoproduction? Qual a documentação que você recebe? Quais as análises que você faz nesses arquivos?

Isto varia muito. Por exemplo, para a fachada em Davos, nós recebemos uma maquete de argila que apresentava a intenção do projeto. Normalmente recebemos arquivos 3D, em Rhino (1) na maioria das vezes. Mas geralmente a qualidade desses arquivos não é boa o suficiente para sobrepormos nossa programação sobre esses dados. Por exemplo, para o Centro Pompidou em Metz (Arq. Shigeru Ban), o que nós tínhamos era basicamente uma malha triangular. O que nós precisamos como base é uma superfície contínua. Então se é muito complexo, como neste caso, nós temos outras pessoas com as quais frequentemente trabalhamos, da indústria automotiva, que nos auxiliam a criar essa superfície. Eles possuem ferramentas computacionais específicas para gerar essa superfície de alta qualidade. Então, se você faz um teste de reflexão, a superfície se apresenta totalmente regular, não há distorções. Se você tem uma superfície com descontinuidades, que foi feita a partir de diferentes partes, você sempre terá um problema nessas junções. Se você projetar algo nela, você irá obter linhas descontínuas, então antes de prosseguir com o projeto você deve unir as superfícies. Portanto é sempre uma ótima ideia iniciar com dados tridimensionais de alta qualidade.

Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010
Foto divulgação [www.designtoproduction.com]

Você tem que levar em consideração que [em nosso escritório em Stuttgart] nossos clientes são arquitetos. Eles nos procuram bem cedo, talvez com um projeto para concurso apenas, o que é bastante esquemático. Nesses casos nós desenvolvemos o modelo geométrico inicial juntamente com eles, para obtermos uma superfície contínua, que de certa forma poderá prosseguir até a fase de produção.

[Em nosso escritório em Stuttgart] nós não fazemos a programação (G-code) das fresadoras de 5 ou 6 eixos, por exemplo. Isso é algo que Fabian [que gerencia o escritório em Zurique] faz. Lá, nós finalizamos os modelos dos nossos clientes, e geralmente isso é problemático. Primeiramente por causa da questão da qualidade mas, também, algumas vezes por conta dos detalhes - pode funcionar no modelo CAD, mas não funciona na realidade. Nós geralmente temos problemas de montagem. Claro que você pode desenhar e tudo se encaixa perfeitamente, mas não há maneira de montar. Então isso é parte do nosso trabalho em colaboração com engenheiros estruturais. Isso é o que nós às vezes chamamos de "normalizar" o projeto.

UN Studio, Museu Mercedes Benz, Stuttgart, 2005. Modelo paramétrico [www.designtoproduction.ch]

UN Studio, Museu Mercedes Benz, Stuttgart, 2005
Foto divulgação [www.designtoproduction.com]

MS: Quando você precisa fazer alguma mudança no projeto, como você procede?

AW: Existem diferentes tipos de arquitetos. Alguns são bastante rigorosos, por exemplo, o arquiteto italiano Maximiliano Fuksas, eles fazem um tipo de forma e eles querem que seja construído exatamente igual. Claro que eu não quero mudar o projeto, mas eu quero encontrar um equilíbrio entre aspectos estéticos, aspectos de projeto estrutural e aspectos de produção para tornar razoável o desempenho geral. Você pode teoricamente fazer qualquer forma, mas eu tenho que admitir que não faria alguns trabalhos. Por exemplo, Frank Ghery, do meu ponto de vista tem um trabalho mais escultórico. Não há uma linha geral ou o que chamamos na Alemanha de linha vermelha condutora [lógica subjacente], é apenas fazer coisas aleatoriamente e isso afeta a maneira como os projetos são trabalhados. Normalmente esses projetos são feitos no CATIA (2), no qual você ainda pode usar alguns aspectos de modelagem paramétrica e associatividade, mas não é uma ideia de projeto fluída, é algo como um monte de recursos agrupados. Claro, é uma maneira muito cara de fazer arquitetura, embora possua certas qualidades. Eu acredito que você jamais poderia descrever esse tipo de projeto em forma de script [ou programa de computador] de maneira eficaz, mas existem outras ferramentas para a realização desses projetos.

MS: Quais os programas de computador que você usa?

AW: Nos interessam programas que possuem muitos recursos geométricos, funções e coisas parecidas, e que são programáveis. Então, se você precisa da linha de intersecção de duas superfícies de dupla curvatura no espaço, eu jamais seria capaz criar os fundamentos matemáticos para conseguir isto, mas existe uma função que faz isto e é o que precisamos. Com essas ferramentas básicas nós produzimos o projeto.

Existem bons programas arquitetônicos, com muitos botões e bibliotecas e você pode fazer a arquitetura que deseja. Mas você tem que estar ciente que estará limitado. Eu não quero estar limitado por uma ferramenta de jeito algum. Mas entre essas duas situações há exceções, por exemplo, como resolver uma escada. Se você quer programar um código de escada que pode criar qualquer tipo de escada, poderia pensar em todas as diferentes configurações. Seria muito complexo, primeiramente para programar e posteriormente para usar o código, pois para muitas pessoas haveria inúmeras opções que não teriam nenhuma utilidade. Portanto, essa não é a maneira de fazer isso. Quando você se afasta de padronização, então você percebe que é melhor escrever seu próprio código para a sua escada específica. Isso não é complicado, você consegue exatamente o que quer e está com o controle total. Eu não quero estar limitado, porque para mim ferramentas computacionais padronizadas sempre serão conservadoras e antiquadas. Elas levam muito tempo para serem desenvolvidas e é preciso um longo tempo antes que novas influências sejam parte delas. Eu já havia percebido isso desde os anos 80. Naquela época em Berkeley eles trabalhavam em ferramentas para otimizar a distribuição de ambientes, mas eu desconheço qualquer programa CAD que tenha essa ferramenta incorporada - por quê?

GC: Você acredita que seria muito chato o computador fazer isso por você? Há algo mais além da otimização?

AW: Talvez não seja possível... muitas pessoas diriam que o computador fez o projeto. Eu não acredito que surgiria algo interessante. Talvez você encontre algum tipo de algoritmo que produza algo. Mas sempre parte de você, você direciona o processo. O computador para mim é uma ferramenta, e você é responsável pelos resultados, pois você desenvolveu o algoritmo. É a sua decisão. Mesmo que você não tenha entendido o algoritmo, você ainda o escolheu.

MS: Quais são os desafios de trabalhar com empresas que não estão acostumadas produzir elementos arquitetônicos?

AW: Normalmente, nós chegamos a projetos que resultam em uma estrutura incomum, com a qual a indústria da construção civil não está preparada. Você não tem uma empresa que tenha feito isto anteriormente, então você procura uma empresa que seja próxima do que você quer produzir ou ao menos tenha as máquinas certas ou tenha experiência com o material. Às vezes nós temos empresas que são perfeitas para fabricar o projeto, mas eles não têm equipe para montagem no canteiro de obras, geralmente eles entregam o produto e é problema de outra pessoa a montagem. Uma boa dica é trabalhar com empresas de fachadas, pois elas geralmente possuem boa experiência em lidar com vidro, aço e metal e eles têm experiência em montagem na obra. Mas é sempre uma busca por empresas, e um aspecto muito importante para nós é sentir que a empresa está interessada e motivada. Algumas empresas concordam com o trabalho, mas eles não param para pensar sobre os detalhes do projeto antes de terem um contrato em mãos e isso é um grande risco para o cliente. Assim que elas assinam o contrato e começam a pensar sobre o projeto, elas podem perceber que é mais complicado do que haviam pensando, então começam os problemas orçamentários. Há uma grande responsabilidade em escolher os parceiros certos. Você tem que realmente confiar na empresa e acreditar que estão motivados para finalizar totalmente o projeto.

Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008
Foto divulgação [www.designtoproduction.com]

Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008
Foto divulgação [Blumer-Lehmann-AG]

Shigeru Ban, Haesley Nine Bridges Golf Club, 2008
Foto divulgação [Blumer-Lehmann-AG]

GC: Qual é o seu papel em escolher a empresa para o cliente? Você sugere uma empresa ou diz que isto só pode ser feito por tal empresa? É promovida uma licitação?

AW: Você está correta, eu faço sugestões. Eu posso dizer ao cliente: é melhor você optar por esta empresa, caso contrário eu não irei mais trabalhar neste projeto. Por que eu já sei o que pode acontecer. Eu estou apenas garantindo qualidade para o meu cliente e evitando o tipo de empresa "projeto interessante, vamos fazer, será uma boa publicidade". Isso não é suficiente. Muitas empresas, apesar de terem capacidade, não estão acostumadas a trabalhar com projetos com forma livres [freeform], eles não possuem experiência suficiente. Nós frequentemente avançamos bastante em termos de propor como fabricar de uma maneira eficaz. Por outro lado nós estamos cientes de que não podemos assumir a responsabilidade final pela execução. Nós propomos uma maneira de executar para a empresa e temos que sentir que eles entenderam e desenvolverão ainda mais, então ficamos muito satisfeitos e tranquilos. Nós encontramos um parceiro com o qual podemos trabalhar e então eles acrescentam a sua experiência, pois nós somos arquitetos, outros especialistas de certa maneira. Eu posso ir até certo ponto e então eu tenho que sentir que eu posso passar o problema adiante em mãos responsáveis que irão continuar a trabalhar nele.

MS: O que faz um projeto complexo ser mais caro para produzir?

AW: Se é possível executar com fabricação digital não será realmente mais caro. É difícil de dizer, pois quando um projeto é mais complexo, significa que você não pode construir com ângulos retos. Você pode encontrar uma maneira de produzir que é muito mais cara caso você não pense em certas coisas ou você direcione as pessoas para problemas que não são esperados por eles e isso pode realmente prejudicar um projeto. Se você está atuando nestes projetos, você sabe que muitos deles não funcionaram da maneira que foram planejados. Muitos deles levaram anos para serem finalizados, o custo foi muito alto. Eu posso dizer, pelos projetos em que estamos envolvidos, que podemos realmente evitar isto. O museu Mercedes e a fachada em Davos foram entregues dentro do cronograma e do orçamento estabelecidos. No caso do museu, apenas uma empresa envolvida não obteve um lucro real, mas isso acontece também às vezes. Mas nós ficamos muito satisfeitos quando a empresa entrega o trabalho e recebe seu pagamento e o produto é bom. Algumas vezes você tem que dizer: não, eu não quero estar envolvido nisto, eu não acredito que será um projeto com êxito.

MS: Você discute sobre materiais e efeitos produzidos por eles com os seus clientes?

AW: Há dois aspectos, primeiro é apenas o visual. Alguém precisa uma superfície metálica de certa aparência. É muito raro que haja aspectos estruturais, em termos de que você seja forçado a optar por certo material caso contrário não funcionará. A fachada em Davos foi, por um longo tempo, pensada em ser executada em alumínio, pois nós pensamos que seria mais leve e também poderia ter um efeito estrutural. Mas no final eles escolheram aço porque é um material muito mais barato que o alumínio e isso teve outro efeito. Quando a fachada já estava planejada e em produção eles aumentaram a espessura das placas em alguns milímetros, o que causou vários problemas adicionais para a empresa de concretagem, que teve que adicionar mais concreto e mais armadura. Eu não sei se essa decisão foi realmente tomada com o objetivo de economizar. Eles apenas transferiram o dinheiro da fachada para a estrutura de concreto, o que pode ter sido por razões políticas, ou pode também ter sido uma estratégia, eu não sei o motivo. Outra questão é que no começo do projeto o orçamento não é levado em conta. Eu já vi inúmeros projetos que começaram com fibra de carbono e terminaram com aço comum (perfil de aço padrão). Muitas pessoas gostariam de ter esses materiais extravagantes, claro em termos de custo e produção não há muitas empresas, especialmente no setor da construção, que estão acostumadas a usar esses materiais. Se você for, por exemplo, para o indústria naval é uma coisa totalmente diferente.

Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010
Foto divulgação [www.designtoproduction.com]

Shigeru Ban, Centro Pompidou em Metz, 2010
Foto divulgação [www.designtoproduction.com]

notas

1
Rhinoceros é um programa CAD para modelagem 3D.

2
CATIA é um programa de CAD para modelagem 3D desenvolvido originalmente para projeto de aeronaves.

comentários

058.03 tecnologia
sinopses
como citar

idiomas

original: português

outros: english

compartilhe

058

058.01

Eu vivo numa ilha

Otavio Leonidio

058.02

Entrevista com André Corrêa do Lago

Adalberto Retto Jr.

jornal


© 2000–2019 Vitruvius
Todos os direitos reservados

As informações são sempre responsabilidade da fonte citada