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interview ISSN 2175-6708

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O cineasta Roberto Gervitz comenta história, personagens, filmagem, fotografia de Lauro Escorel e diversos aspectos de seu novo filme, Prova de coragem, baseado no romance Mãos de cavalo, de Daniel Galera.

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STIVALETTI, Thiago. Roberto Gervitz e sua prova de coragem. Entrevista, São Paulo, ano 17, n. 066.01, Vitruvius, abr. 2016 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/17.066/6000>.


Nicolas Vargas como Bonobo, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Foto divulgação

Thiago Stivaletti: Qual foi o seu ponto de partida em termos estéticos e narrativos?

Roberto Gervitz: Procurei manter a atmosfera do livro: seca, precisa e realista. Assim, escrevi diálogos econômicos, principalmente os de Hermano que, por vezes, são quase lacônicos. Não há diálogos reflexivos, pensamentos ou formulações literárias; evitei também os psicologismos — a psicologia dos personagens se revela na ação. A edição de Manga Campion que deixou a sua marca com importantes soluções estruturais, manteve a mesma secura, sem espaços para a contemplação. Inicialmente eu pensava até em um filme sem música, mas durante a edição, senti tal necessidade. Isso foi decidido com o próprio músico Luiz Henrique Xavier que fez um trabalho marcante. A trilha musical é pouco melódica e não reitera emoções, criando atmosferas evocativas do que não é visível na tela. A trilha sonora é delicada — complexa mas essencial, em consonância com todo o resto — desenhada e mixada por Kiko Ferraz e Christian Vaisz.

Em termos narrativos, procurei contar de forma precisa e sem “poesia” uma história mínima. Não quis “esfregar no nariz” do espectador pontuações do tipo “isso é importante” ou “pense nisso”, “emocione-se aqui”. Narrativamente, o filme se aproxima de uma estrutura clássica – evolui através dos conflitos de Hermano com os personagens que o cercam e por meio de flashbacks, tirando partido de interrupções bruscas entre as duas épocas da narrativa. O final do filme está longe de ser enigmático, mas deixa nas mãos do espectador o destino de Hermano e também de Adri.

TS: Uma das decisões fundamentais do filme foi a escolha do casal protagonista, vivido por Armando Babaioff e Mariana Ximenes. Como chegou a eles? E quais as qualidades que você sente que eles trouxeram para Hermano e Adri?

RG: Hermano e Adri são incapazes de sair de si mesmos, conceder e compartilhar a vida, encerrados que estão em seus próprios projetos pessoais. A partir de um momento-chave e de acirramento onde se chocam a inesperada gravidez de Adri e a temerária escalada de Hermano, procuro refletir a solidão e o narcisismo pós-modernos, em uma época destituída de sonhos coletivos.

Armando Babaioff e Mariana Ximenes tiveram o desafio de viver personagens intimamente duros, fechados em si mesmos, mas com características bem diferentes um do outro.

O Armando, assim como Áurea Maranhão e Daniel Volpi, foi escolhido a partir de testes extensos. Sempre pensei Prova de coragem como um filme de ator e, portanto, mirava na contribuição que cada um poderia trazer para o seu papel. Contei tanto no trabalho de seleção como no de preparação com as valiosas colaborações de Nara Sakarê, Angélica Figuera e Dani Fogliatto.

Armando Babaioff como Hermano, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Foto divulgação

Babaioff é um ator da mais alta seriedade e, como protagonista, está em cerca de 85% das cenas deste filme que lhe exigiram muito, tanto física como emocionalmente. Foi um ator incansável, deu verdade a Hermano, com grande delicadeza e contenção. Podemos sentir todas as suas variações ao longo do filme e acompanhar o processo de transformação que ele atravessa.

Mariana sempre foi uma atriz com quem quis trabalhar. Ela irradia uma grande energia, um enorme prazer em atuar; está sempre aberta a descobrir e tentar novas coisas. O apelido de Leoa dado a Adri por Thales, o obstetra interpretado por César Troncoso, é a perfeita tradução do trabalho desempenhado por Mari.

Enviei-lhe o roteiro e ela de cara topou fazer o papel de Adri, uma mulher intensa e voraz para com a vida; sensível, mas intransigente. Adri concentra muitas características da mulher de nossos dias: prática, desglamorizada e às voltas com os seus inúmeros papéis. Mariana deu a Adri a pulsação, o fogo e a urgência que o personagem necessitava.

TS: Como foi o trabalho com os atores mais jovens, que vivem Hermano, Bonobo, Naiara e toda a turma entre os 14 e 16 anos? Há um desafio em trabalhar adolescentes para um filme?

RG: Fiquei muito satisfeito com o trabalho do núcleo adolescente. Indiscutivelmente há verdade e pulsação ali. Devo muito isso ao trabalho de quatro semanas feito por Angélica Figuera, uma grande colaboradora.

Buscamos e conseguimos criar uma intimidade entre eles, um espírito necessário de turma, e conquistamos a confiança sem a qual o trabalho não se daria. Alguns deles jamais haviam atuado antes. Não quisemos mudar o jeito de cada um, pelo contrário, só trouxemos suas características à tona – isto bastou para desenhá-los. Creio que o grande desafio de trabalhar com adolescentes em um filme é colocá-los “inteiros” para viver uma situação, fazer com que eles atinjam uma verdade, esquecendo os seus medos e preconceitos através do prazer lúdico de atuar. Eles foram muito corajosos e ousados, compreenderam perfeitamente o que estavam fazendo ali — vivendo e contando uma história.

Mariana Ximenes como Adri, filme Prova de coragem, de Roberto Gervitz Foto divulgação, filme Prova de coragem
Foto divulgação

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