Your browser is out-of-date.

In order to have a more interesting navigation, we suggest upgrading your browser, clicking in one of the following links.
All browsers are free and easy to install.

 
  • in vitruvius
    • in magazines
    • in journal
  • \/
  •  

research

magazines

interview ISSN 2175-6708

abstracts

português
A entrevista de Fernanda Ferreira com Paulo Mendes da Rocha pretende discorrer sobre as questões abordadas pelo arquiteto no processo de criação de um espaço cenográfico.

english
This interview aims to discuss the issues addressed by Paulo Mendes da Rocha in the process of creating the scenographys.

español
Esta entrevista pretende discurrir sobre las cuestiones abordadas por el escenógrafo Paulo Mendes da Rocha en el proceso de creación de un espacio escenográfico.

how to quote

FERREIRA, Fernanda S.. Uma conversa com o cenógrafo Paulo Mendes da Rocha. Entrevista, São Paulo, ano 19, n. 074.01, Vitruvius, maio 2018 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.074/6980>.


Escritório de Paulo Mendes da Rocha
Foto Helena Guerra

Paulo Mendes da Rocha: Fernanda, quando me falaram o que você iria estudar, eu achei uma ideia muito interessante porque tanto já se disse sobre minha arquitetura.

Fernanda S. Ferreira: Pois é. Eu cheguei até esta questão no decorrer da pesquisa. No início eu tinha uma curiosidade sobre os museus e estudando a obra de Lina Bo Bardi, sua forma de expor e seus cavaletes, me questionei qual seria a forma de você pensar estas questões. Então, um dia conversando com Maria Isabel Villac (1), surgiu a ideia: por que não estudar a maneira do Paulo expor?

PMR: Você veja, aquilo é uma coisa extraordinária. Lembro a ideia do quadro numa parede e a história do castelo... O quadro na parede do Castelo é o quadro que o milionário compra e pendura na parede. O Museu não precisa repetir isso. Então, como fazer?

FSF: Este é o ponto: como?! Eu cheguei a esta questão a partir do estudo de sua obra. Começamos a estudar os museus e então algo nos fez perceber que este estudo poderia abranger algo maior, que fosse além do objeto arquitetônico. Percebemos que esta questão poderia abordar outras maneiras de expor, por exemplo, montagens, cenários, mostras etc.

PMR: É, você tem que fazer disso uma tese. Você tem que construir a defesa “do que”? O que isso tudo no fundo quer dizer? Temos uma pobreza muito grande, uma dificuldade muito grande em exprimir o que queremos dizer ao outro. As próprias palavras são muito poucas. Inventamos o que podemos falar. É tudo um discurso: o ato de você dizer ao outro.

A dança é um discurso; a gesticulação, a expressão facial, também. Há muitas formas de você fazer o mesmo discurso, de dizer a mesma coisa. E para dizer a mesma coisa você pode convocar a tal dimensão inventiva da natureza humana. Ela aparece no ato de dizer ao outro. Portanto, esta história do cenário e a arquitetura é como se fosse tudo uma coisa só. Vários modos de expressão! Vale a pena lembrar que as palavras estão para um escritor assim como as pedras de uma catedral para um construtor. Se você não construir direito as palavras, elas não servem para nada. Portando o “modo de” é a questão do cenário e da apresentação. Fazer ver é muito importante.

Croqui do cenário de Suor Angelica, o segundo ato de Il Trittico de Puccini [Acervo Paulo Mendes da Rocha]

Por exemplo, você pega um verso – para usar uma frase feita –, é impossível mudar um verso conhecido. Vou dizer um que eu sei e que eu gosto muito: “Nas águas da praia, nas ondas do mar, quero ser feliz, quero te encontrar. Nas ondas da praia, nas águas do mar, quero ser feliz quero me afogar” (2). Se você imaginar cada palavra impressa em chumbo, como se usava antigamente, e embaralhar na mesa, uma pessoa que não conheça o verso vai dizer: Isso é o que? Mar? Quero? Nas? Não quer dizer nada! Tem que arrumar daquele modo. É uma construção. Portanto todo discurso é uma construção. Com os poucos recursos que temos, no caso, palavras.

Por ser tão difícil dizer o que de fato você quer dizer, a nossa imaginação é incomensurável. É por isso que existe essa quantidade infinita de “modos de”, de formas de dizer. Eis porque Lina [Bo Bardi] fez a exposição dela, porque, mesmo com a ideia daquele museu suspenso no ar com aquele vazio embaixo, poderia se encher de paredes lá dentro. Poderia ter pilares que não faria a menor diferença. Mas não! Como fazer para mostrar que não tem nada? O vidro é transparente e o quadro pendurado nele pode até ter inconvenientes – brilha muito, tem que ter luz para ver o quadro –, mas ela achou que era isso e valeu a pena. Porque você inventa uma forma de dizer ao outro o que de fato você quer dizer. Outra coisa importante do ponto intelectual: por que você quer dizer? Por que você não se contenta em pensar?

FSF: Porque é preciso dividir com o outro, tornar público, não é?

PMR: Porque isso é o que mais se deseja. É o dizer ao outro. Como diria o filósofo, porque você sabe, como todos sabemos, que inexoravelmente vai morrer. Entretanto, não nascemos para morrer, nascemos para continuar. Então, precisa dizer ao outro. É uma condição humana, é a condenação humana: transformar o pensamento em “coisa” para o outro ver. É muito curioso a dimensão artística presente. Toda ação nossa tem uma dimensão artística. Não precisa ser artista, como se diz. Há coisas que são necessárias, já outras são desejáveis.

Os tipos de atividades que possam aparecer na área que você está pesquisando – cenário de teatro, montagem de exposição de artes, bienais e outras coisas que nem me lembro – são interessantes no âmbito da cidade. Pessoas da área da arte – um diretor de teatro municipal ou uma Bia Lessa – só podem se associar por estarem na cidade. Dizem que a razão da cidade é conversarmos. É difícil ficar velho, pois você vê tudo de uma só vez, de tanto que você já pensou.

FSF: E na verdade não temos memória, não é mesmo? Tenho tido uma dificuldade enorme de levantar material destas exposições etc. Encontro poucas fotos, poucas evidências.

PMR: É oportuno diante dessa constatação criticar a estupidez brasileira. O Brasil já nasceu atrasado porque nasceu colônia. Deveria ser revolucionário desde a origem para sair dessa condição, mas, ao contrário, se atrasa cada vez mais. Se você imaginar os cenários de teatro, feitos por mim por exemplo, para o Teatro Municipal, que é uma instituição e tanto, você irá bater lá e não há um só registro do que fizemos. Se você for à Bienal, também não irá encontrar. Estamos empenhados em destruir memória.

Veja você, por exemplo, o Niemeyer fez muita coisa, até cenário de filme, o Orpheu do Carnaval. Se você precisar achar alguma coisa, vai sofrer.

notas

1
FERREIRA, Fernanda Silva. Mire Veja! A cenografia de Paulo Mendes da Rocha em sete atos. Dissertação de mestrado. Orientadora Maria Isabel Villac. São Paulo, FAU Mackenzie, 2018.

2
Ao citar de memória trecho do poema “Cantiga”, de Manoel Bandeira, Paulo Mendes da Rocha cometeu algumas imprecisões. A sequência correta das estrofes é a seguinte:

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

comments

074.01
abstracts
how to quote

languages

original: português

share

074

074.02

A arquitetura dá significado à vida

Gabriela Celani and David Sperling

newspaper


© 2000–2019 Vitruvius
All rights reserved

The sources are always responsible for the accuracy of the information provided