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interview ISSN 2175-6708

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O texto apresenta conversa entre o arquiteto brasileiro Paulo Mendes da Rocha e o pesquisador italiano Giacomo Pirazzoli, com o precioso suporte de Marta Moreira. O encontro aconteceu no dia 8 de setembro de 2017.

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PIRAZZOLI, Giacomo. Paulo Mendes da Rocha: sobre o edifício Sesc 24 de Maio. Entrevista a Giacomo Pirazzoli. Entrevista, São Paulo, ano 19, n. 075.01, Vitruvius, set. 2018 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/19.075/7107>.


Sesc 24 de Maio, início das obras
Foto divulgação [Website MMBB Arquitetos]

Este projeto inicia em 2001.

Fui convidado para uma primeira inspeção do edifício existente que o Sesc havia adquirido: uma construção dos anos 1940 com uso predominantemente comercial. A estrutura composta por pilares foi modificada e desordenada ao longo dos anos. Quase no centro, havia uma praça quadrada, a qual teve os dois primeiros andares cobertos. Imediatamente, concordei com a proposta de estabelecer funções culturais no centro da cidade, apesar de conhecer pouco o programa de necessidades. Eles me disseram que cerca de 300 funcionários trabalhariam na obra. Salientei que o edifício existente, mesmo tendo sido cuidadosamente reformado, não era capaz de acomodar adequadamente tudo o que o cliente queria. Este tipo de diagnóstico no início do projeto é fundamental.

Em geral, a recuperação de um edifício existente através da sua transformação já expressa uma ideia de sustentabilidade. Portanto, eu articulei uma solução possível: havia um edifício pequeno, com cerca de 7 por 20 metros, vizinho ao edifício adquirido. Usei a metáfora da “oficina de barcos” que é essencialmente uma concentração de máquinas utilizadas para a manutenção e operação de grandes navios de transporte. Então, expliquei à eles que se comprassem a outra propriedade para abrigar as máquinas e os serviços, ganharíamos mais área nos vários níveis, naturalmente após a ocupação da praça quadrada.

O Sesc aceitou a sugestão e comprou o segundo edifício que, transformado, passou a abrigar os serviços e equipamentos técnicos, conectando-se ao volume principal por rampas. Abaixo destas passa uma pequena “rua” – isto é, um caminho urbano de pedestres entre duas fachadas, sendo uma delas transparente, que leva a porta secundária de acesso ao teatro.

Sesc 24 de Maio, fachada interna transparente
Foto Nelson Kon

Esta fachada “interna” transparente é composta por uma estrutura de aço que, do ponto de vista tecnológico, difere muito das fachadas de vidro comuns no “primeiro mundo”. Neste caso, trata-se de uma estrutura modular tridimensional em aço soldado: em efeito, um elemento bastante low-tech, feito através do processo de soldagem e sem o uso de parafusos, especialmente peças fundidas ou tirantes de aço inoxidável. Para mim, deve ser claro o modo como cada coisa é feita, de maneira que possa ser compreendida. E a boa técnica é sempre clara. Então – isso é porque eu gosto de pensar como uma “nuvem estrutural” – aplicamos a mecânica dos fluídos para identificar o tamanho das lacunas que há entre as placas individuais de vidro, de modo que as gotas de chuva não penetrem.

Atrás desta fachada interna se encontra a rampa, a qual eu prefiro chamar de rua sem fim. A rampa é um dos elementos urbanos que trouxemos para o interior do edifício – identificamos uma rua em declive na cidade como ladeira. Essa tem um papel fundamental. Também não é coincidência que muitos chamam instintivamente o vão de 14 por 14 metros, localizado no nível do chão, de praça. Logo a reconhecemos felizmente como sendo outro componente da cidade que contribui na construção deste edifício. A arquitetura é uma forma de conhecimento do repertório da cidade.

Sesc 24 de Maio, “rua sem fim”
Foto Nelson Kon

Dito isso, a cidade não é um projeto do arquiteto, mas do Homem: o saber construir faz com que seja possível habitar o planeta.

Mas, voltando a falar do vão de 14 por 14 metros. Ocupamos o subsolo com o auditório do teatro. Então, com uma série de mezaninos subimos em direção ao céu até alcançar o nível da piscina – a princípio, pensávamos que ela não poderia ser construída. Tudo isso está apoiado em quatro pilares que sobem do subsolo até o último pavimento, sem interferir na estrutura existente. É verdade que no Brasil não existem terremotos, mas os contraventamentos do ponto de vista estrutural são utilizados do mesmo modo que é no resto do mundo. Ao invés de disfarçá-los ou escondê-los, nós os usamos para construir a arquitetura da piscina e da biblioteca, reiterando que exibir o êxito da técnica é a atitude principal do arquiteto.

Então, se alguém observou que este edifício tem acabamentos simplificados desprovidos de detalhes sofisticados, e sustenta que se trata de uma abordagem ainda brutalista, eu responderia que, em geral, as classificações ou teorias críticas não me preocupam muito. Trabalho com isso que estamos vendo e tocando, e é isso o que eu respondo e sobre isso que eu posso ser julgado. É verdade que as particularidades desse edifício não têm nada a ver com o trabalho de Carlo Scarpa. Entretanto, os acabamentos e os detalhes não estão entre as minhas preocupações. Basicamente, penso que o acabamento da arquitetura da cidade são as pessoas que a completam.

Sesc 24 de Maio, “fenda horizontal”
Foto Nelson Kon

Com relação a isso, adicionamos o [duplo] contraponto entre interior e exterior. Em um caso, através da pele transparente de vidro que envolve completamente os dois lados da “rua”. No outro caso, por meio da fenda horizontal que – como uma fileira sem vidros – interrompe a fachada plana na altura de um pavimento. A continuidade da parede de vidro é interrompida novamente na altura do Jardim da Piscina, onde o volume é desarticulado, identificando a piscina sobrejacente que ocupa agora o antigo espaço vazio. Essencialmente, o tema principal deste edifício é estar dentro da cidade, permitindo a ele exibir a presença e as virtudes da cidade.

É um interior e ao mesmo tempo uma máquina para descobrir o mundo com o olhar, criando diálogos com a paisagem urbana mais próxima e/ou distante. Além disso, a horizontalidade do espaço comprimido do Jardim é um dispositivo que induz olhar para fora, para a cidade. Este edifício é pensado de dentro para fora. O que é estranho à prática autoral de alguns arquitetos que consiste no fazer uma determinada forma que seja reconhecível como sua assinatura.

Sesc 24 de Maio, “horizontalidade do espaço comprimido do Jardim”
Foto Nelson Kon

Oferecer a experiência da arquitetura na cidade com tudo o que a convivência humana contém significa opor-se ao terror difuso na metrópole, a verdadeira semente do fascismo. Depois da série de atentados que todos nós conhecemos, o mesmo sentimento de medo une diferentes partes do mundo.

A segurança que as pessoas costumavam pensar como sendo uma característica do Ocidente parece não existir mais. Raciocinando dessa maneira, o senso comum global, que construiu a narrativa a respeito da violência urbana no Brasil – o equivalente a morte por bala perdida –, passou a considerar a partir de agora que o mesmo pode ocorrer por todo o Ocidente, enquanto andamos em qualquer cidade. Nesta situação a arquitetura pode ajudar identificando as virtudes da vivência urbana através da construção de estruturas de cultura e convívio, contrastando com o terror induzido que nos faz acreditar na necessidade de um chefe, líder ou ditador.

Afinal de contas, para a arquitetura não existe espaço privado. O espaço é e sempre será apenas público, mesmo que o seu uso varie ao longo do tempo. Esta é uma das razões que guiou o projeto do mobiliário do Sesc 24 de Maio. O sócio do Sesc pertence à classe média e este mobiliário é projetado sem exibicionismo. É resistente, nem muito pesado, nem muito leve, colorido e combinável de acordo com algumas opções. Inspirado em uma peça do canteiro de obras – o tripé que suporta as estruturas temporárias e a fiação –, os pés das mesas são feitos de aço e os topos de laminado.

Existem poucas peças especiais – uma delas é a mesa cantilevered para a cafeteria do Jardim. As pernas das cadeiras são similares às pernas das mesas, enquanto os acentos das cadeiras são feitos com uma chapa de metal dobrada e colorida que resolve o projeto através de uma junta estrutural.

Penso que o arquiteto deve saber construir assim como um romancista deve saber escrever.

Sesc 24 de Maio, piscina da cobertura
Foto Nelson Kon

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Entrevista com Zaida Muxí

Daniela Abritta Cota

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