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entrevista ISSN 2175-6708

sinopses

português
Entrevista realizada a partir da Pesquisa “A Educação do Arquiteto para o Século 21 – O Ensino do Projeto de Arquitetura e Urbanismo no final do Curso”, em desenvolvimento no Propar, da UFRGS, com verba de custeio Capes.

english
Interview based on the survey "Architect's Education for the 21st Century – Teaching the Architecture and Urbanism Project at the end of the Course", under development in the Propar, at the UFRGS, with funding from Capes.

español
Entrevista basada en la investigación "La educación del arquitecto para el siglo XXI - Enseñanza del Proyecto de Arquitectura y Urbanismo al final el Curso", en desarrollo en el Propar, en la UFRGS, con fondos de Capes.

como citar

MARQUES, Sérgio M.; BOHRER, Mônica L.. Rodo Tisnado e o Architecturestudio. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.02, Vitruvius, jul. 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7828>.


YALA – Cartaz de divulgação, Veneza, 2018
Foto Cássio Sauer e Eliza Martins

Sérgio Moacir Marques: É verdade. Em algumas temporadas, desde Porto Alegre é mais barato ir a Barcelona que a Manaus... Bem, Rodo, outra pergunta: eu atuei como professor muitos anos no final do curso de arquitetura. Aqui na França se chama de Diplome. No Brasil, faz muitos anos que, na maioria das escolas, este trabalho é um projeto em que os estudantes escolhem o seu tema, seu orientador e fazem um recorte da cena contemporânea para desenvolver seu trabalho.

Rodo Tisnado: Começam com o mundo e terminam com o projeto.

SMM: Sim (risos). Qual tua opinião sobre esta sistemática? E qual tua visão em relação ao futuro deste processo?

RT: Isto é artesanal... Assim é no mundo inteiro. Era assim no Peru, quando eu estudava, antes de vir à França fazer um doutorado. Era uma mescla deste sistema tradicional com os novos aportes da Bauhaus. Havia apenas uma escola de arquitetura e se formavam vinte arquitetos por ano, para uma população de vinte milhões de habitantes. Um arquiteto para cada milhão de habitantes. Agora são trinta milhões de habitantes e quase trinta milhões de arquitetos (risos). Ou seja, não há mais nenhum tipo de apoio personalizado. Na França, neste processo, foi muito importante a revolução estudantil de 1968. Este episódio mudou tudo. Antes, na Escola de Belas Artes, havia um pastor com suas ovelhas, sem nenhuma interação com outras áreas do conhecimento. Em 1968 se romperam todas as barreiras, os "patrões" desapareceram, surgiu a universidade, mudou a lei, as mulheres podiam cursar etc. Uma mudança cultural importante. Esta forma de fazer o projeto, artesanal, vem da tradição acadêmica. Na minha opinião, a arquitetura tem que vir da competência. Portanto o TFG não deveria vir da cabeça de cada um, e sim vir de um concurso, preparado pela escola e por representantes da sociedade, que todos deveriam desenvolver. E logo se qualificaria com um júri, como um concurso, para que tenham competência, senão é como se a arquitetura fosse para si próprios... Se os arquitetos vão fazer a casa para o tio ou para a tia, vão desperdiçando o esforço que o Estado fez para formá-los. Na universidade pública é o Estado que forma os arquitetos e de maneira gratuita. Portanto a universidade deve fazer uma seleção dos melhores arquitetos para contribuir em temas relevantes para a sociedade. Este seria o primeiro grande concurso que os arquitetos fariam. Controlados por equipes de várias áreas do conhecimento e dispositivos para evitar que haja fraudes e que se abra espaço para a indústria de produção de trabalhos acadêmicos.

SMM: Como foi sua experiência docente?

RT: Fui professor muito jovem no Peru e acho que não era bom professor. Era imaturo, me dedicava mais aos melhores alunos e acho que isto não se deve fazer, então abandonei. Aqui na França, quando já estava com o Architecturestudio estruturado, o Ministério me contratou para um plano de redução de escolas de arquitetura em Paris. Havia doze escolas de arquitetura públicas e havia a ideia de suprimir as quatro piores, elevando a qualidade de preparo dos estudantes destas e incorporando-os nas demais. Para mim foi a oportunidade de me dedicar aos alunos com maiores dificuldades. Era um regime mais democrático, mas com necessidade de disciplina. Havia uma incidência maior de alunos usando questões pessoais para conseguir vantagens com o professor. Portanto há que se ter cuidado, para que os estudos sejam fortes e sérios. Por isto digo que em uma Escola de Arquitetura há dois fundamentos: Há a Arquitetura e há a Escola. Escola é a ordem, a presença, a dedicação e a responsabilidade que temos com o Estado. Estudar arquitetura é apaixonante, o indivíduo entra no mundo das artes, do cinema, da cultura, da criação... Isto é verdade, mas também é mentira, porque se não tiver o impulso disciplinar da Escola, ou seja, as técnicas, a organização, a regularidade, as leituras, os editais de entregas, o cronograma, não haverá Arquitetura. A síndrome "professor, não posso projetar porque meu pai está doente" tem que ser cortada na raiz. "É muito bonita a preocupação com teu pai, serás um ótimo filho, mas um péssimo arquiteto." Esta é a parte da escola que é necessário solidificar.

YALA – Coquetel de abertura com Rodo Tisnado, Veneza, 2018
Foto Cássio Sauer e Eliza Martins

Para a Arquitetura, creio que é necessário preparar os estudantes para usar as mãos e os olhos, o que cada vez é mais difícil. Os estudantes parecem jogadores de futebol em uma barreira de falta. Colocam as mãos para baixo e fecham os olhos (risos). Isto creio que não se pode abandonar. O arquiteto deve aprender a desenhar, a ler, a observar, a perceber, a ver. É uma questão neural.

Sempre que visito uma escola de arquitetura, vou à biblioteca, pois creio que ali se vê o funcionamento, a cultura da escola. Na FAU/USP, por exemplo, se nota que a biblioteca é o eixo, é o polo da escola. Nos Estados Unidos é diferente. A biblioteca é sempre algo centralizado, gigantesco e enorme, mas longe e difícil de acessar...

SMM: Estou de acordo. Creio que assim como no âmbito do desenho, no do estudo, o impacto do mundo digital tem sido importante. As escolas privadas estão comprando acesso a publicações digitais, que são mais baratas, e contingenciando os professores a condicionarem as bibliografias de suas disciplinas a este material. E não o contrário. Isto não pode ser...

RT: Não pode ser! É o que digo. O estudante, quando vai à biblioteca, encontra-se com outros estudantes para interagir e aprender a se concentrar, a focar. É um espaço de aprender. Se as bibliotecas se transformarem apenas em um código de acesso para o estudante pesquisar pela internet, este processo está morto. É como jogar futebol da tua casa...

SMM: É uma crise... Isto está dentro do mundo do EAD. No Brasil está entrando forte. Há cursos com até 40% do conteúdo à distância...

RT: Isto é impossível. Se não há interação, se não há relação do estudante com o concreto, com a vivência e aprendizagem no espaço, se não se vê e não se toca, não há Arquitetura. A base de tudo é que arquitetura se vê. E arquitetura tem que ser construída, tem que ser feita, não é virtual. Isto é o mais extraordinário da vida de um arquiteto. Esta sensação de entrar na obra construída é fundamental. Esta é uma razão pela qual vim à França. No Peru eu de certa forma "estudava à distância". Tínhamos que estudar muitas coisas que não tínhamos lá, arquitetura europeia, gótico, renascimento. Eu com a cabeça cheia de coisas e nunca tinha visto nada... Ao passo que quando vais conhecer obras, podes mirar, desenhar, experimentar. Te dás conta da diferença de imaginar e de fazer.

Por outro lado, estudávamos coisas alheias ao nosso contexto. Me lembro de perguntarem qual a diferença entre o Românico Inglês e o Francês. E respondíamos sem ter visto nada; e sem saber de quarenta mil anos de peregrinação histórica do Homem na América do Sul. É verdade que estamos conversando e nos entendemos porque eu sou da "Espanha" e tu és de "Portugal", senão eu falaria Quíchua e tu Guarani. Em uma conferência no Peru perguntei quantos falavam Quíchua. Alguns levantaram a mão. Nem todos, pois muitos têm vergonha... Depois perguntei quantos falavam inglês. Quase todos levantaram a mão. Então perguntei: Estão aprendendo chinês (risos)? Depois me perguntaram como eu havia conseguido ter um grande escritório na França. Respondi: "porque abandonei minha zona de conforto no Peru e fui à Europa fazer um esforço enorme, aprender outros idiomas, enfrentar muitas dificuldades e adquirir competência". Muitas coisas a gente só se dá conta quando está longe.

Agora, no Peru, há algumas escolas de arquitetura em que cem por cento dos estudantes fazem viagem de estudos...

SMM: Como nós no Rio Grande do Sul, que herdamos certa tradição das viagens da "rifa" do Uruguai.

RT: Ah, sim. No Uruguai constroem uma casa, rifam e viajam com a venda, não é? Bom, além disto o Uruguai é um país pequeno, superculto, organizado e democrático.

SMM: Nós temos uma conexão forte com o Uruguai em Porto Alegre. Esta é uma certa distinção que temos no sul do Brasil. Pelo lado da arquitetura, como falo no meu livro, não é exatamente o que acontece em São Paulo e no Rio, por questões climáticas e culturais.

YALA – Exposição, Veneza, 2018
Foto Cássio Sauer e Eliza Martins

RT: O gaúcho, não é?

SMM: Sim. E o churrasco. Este é o que temos de melhor (risos).

RT: (risos) Bem, acho que todas estas coisas passam pelo futuro de como ensinar. Creio que também deverá existir uma seleção mais rigorosa. É diferente cem arquitetos por ano, como tínhamos no Peru, do que vinte mil como temos hoje. Na Itália, arquitetura é um fenômeno cultural. Em Veneza há vinte mil estudantes de arquitetura. Em uma cidade que não construiu nenhum metro quadrado no último século (risos).

SMM: Fazem restauração.

RT: E teoria. É o âmbito puramente cultural, exposições, bienais... E estudam as diferenças microscópicas das colunas do Brunelleschi... É outro mundo. Por outro lado, na Noruega, um país de sete milhões de habitantes, há um esforço muito grande para perpetuar a cultura, a língua, senão desaparece, como o Guarani.

O Peru me preparou muito bem para eu ser arquiteto, mas eu quis ir além, e com meus próprios meios vim para cá e aprendi muitas outras coisas. Portanto, sem pretensão, me sinto em dívida com o investimento que o país fez em mim e sempre tento retribuir. Sempre que posso volto, vou às escolas, dou aulas e conferências.

Lá temos esta História pré-colombiana, que muitos estão tentando conectar com a cena contemporânea, o que é difícil. O Brasil é diferente. Não há este peso arqueológico. Por isto o Brasil inventou a Arquitetura Moderna.

SMM: Pode ser. No Brasil já estava o jardim. Faltava fazer a Cidade.

RT: Exatamente. Quando se chega ao Rio, é espantoso se dar conta que aquela topografia já estava ali. E como eu disse no início, entre os anos 1930 e 1950, na Europa se construiu pouco pela guerra. Se fazia muita arquitetura de papel, os ingleses do Archigram e outros especuladores conceituais, mas é no Brasil que o Movimento Moderno encontrou uma vontade de Estado. Vocês conhecem o Peru?

SMM/Mônica Bohrer: – Não, nunca fomos. Está nos planos.

RT: Ah, tem que conhecer. Machu Picchu é uma visita obrigatória. Hoje estou em dúvida se aprendo quíchua ou chinês (risos)!

SMM: (risos) Nós vamos lá. Quero visitar as escolas e tentar entrevistar alguns que tenho contato, como Sandra Barclay e Jean Pìerre Crousse...

RT: Sim! Sandra e Jean Pierre são os que estão fazendo a melhor arquitetura peruana. E fazem conferências fantásticas. Trouxemos eles para uma conferência aqui e teve grande impacto. Fazem uma arquitetura extraordinária.

SMM: Eu conheci Sandra em Porto Alegre, quando Marta Peixoto, coordenadora da minha escola, a convidou para uma conferência. Jean Pierre conheci em São Paulo, na casa de um amigo comum, o Fernando Viegas, em uma Bienal Ibero-Americana que participei do júri.

RT: Agora estão convidados para a Bienal de Veneza...

SMM: ...e classificados para o Prêmio Mies, que saiu ontem o resultado.

RT: Ah, sim!? Eu conheci o pai de Jean Pierre e a ele quando era pequeno. Agora é um arquiteto fantástico e simpaticíssimo. Mas o melhor é quando fazem os dois juntos uma conferência, se complementam. Então se vê bem como trabalham. Quando há um casal de arquitetos, sempre é complicado... Nunca se sabe quando é um ou outro. Ou as mulheres desaparecem. Nas conferências isto se revela melhor.

SMM: Curioso. O evento que participou Sandra em Porto Alegre tinha uma conotação um tanto feminista. Eram quatro mulheres, organizado pela Marta, orientadora da Mônica, e se chamava 4 x 4, como estes carros com tração nas quatro rodas...

RT: (Risos) Claro! É complicado. No Architecturestudio, nunca aceitamos um casal. Um casal sempre é suspeito. Não se sabe quem trabalha (risos). Podem se transformar em um casal depois, mas não antes (risos).

SMM: (risos)

RT: Para as novas gerações, nós aqui do Architecturestudio organizamos concursos continentais para jovens arquitetos no mundo inteiro. Já fizemos para a os chineses, para os árabes, África negra. Então fazemos um catálogo e uma exposição e levamos os premiados a Veneza e à Europa. Esta última edição foi para latino-americanos, de até quarenta anos de idade. Com projetos construídos ou não. Tivemos um resultado extraordinário com mais de duzentos projetos. Houve muita participação do Peru e da Colômbia. O concurso era em espanhol e acho que isto restringiu um pouco a participação brasileira (foi selecionado um projeto de Sauermartins de Porto Alegre) (1).

Então, concluindo, o Architecturestudio tem três objetivos principais: 1. Fazer a melhor arquitetura possível; 2. Publicar o máximo possível para compartilhar e conectar e 3. Ajudar os jovens arquitetos do mundo inteiro a fazer boa arquitetura.

SMM: Que bom isto. Muito obrigado, Rodo, por nos receber e reservar tempo para nós. Este livro sobre Arquitetura Moderna Brasileira no Sul é para ti.

RT: Ah, obrigado! Faça uma dedicatória, por favor.

SMM: Para Rodo ou para Architecturestudio?

RT: Para Rodo!! Senão vai parar na biblioteca do escritório, ainda que todos saibam que Architecturestudio é Rodo (Risos)!

SMM e MB: (Risos)

Y.AL.A. – Exposição, Veneza, 2018
Foto Cássio Sauer e Eliza Martins

nota

1
“YALA – Young Architects in Latin America”, evento da Bienal de Veneza, que posteriormente foi exibido em Bordeaux e no MARQ de Buenos Aires. Participaram quatro projetos brasileiros: Casa de lata – sauermartins <https://www.archdaily.com.br/br/921967/casa-de-lata-sauemartins?ad_medium=gallery>; Casa península – Bernardes Arquitetura <https://www.archdaily.com.br/br/912406/casa-peninsula-bernardes-arquitetura?ad_medium=gallery>; Capela Ingá-Mirim - Messina | Rivas <https://www.archdaily.com.br/br/921490/capela-inga-mirim-messina-rivas?ad_medium=gallery>; Pavilhão Lygia Pape - Rizoma Arquitetura <https://www.archdaily.com/349967/lygia-pape-gallery-rizoma-arquitetura>. Website da exposição: <http://www.ca-asi.com/expo_fiche.php?fiche=12&langue=en>; link para o catálogo: <https://issuu.com/architecture-studio/docs/2018.05.28_catalogue_web.compressed>.

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