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interview ISSN 2175-6708

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GUERRA, Abilio; et. al. Gilberto Gil, o homem que sabe ouvir. Transa Marieta – episódio 7. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 084.01, Vitruvius, out. 2020 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.084/7902>.


Abilio Guerra, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison, Chico César, Gilberto Gil, Luiz Fernando de Almeida, Silvana Romano, Helena Guerra, Giovanni Pirelli e Caio Guerra
Foto divulgação

Quando ficou claro que a pandemia de Covid-19 nos obrigaria a muito mais do que uma simples quarentena, os membros do projeto Marieta desenvolveram uma ideia para se manter em atividade durante o inevitável período de distanciamento social. Em abril, o grupo deu vida ao novo projeto cultural, que ganhou o divertido nome de “Transa Marieta”. Nos dicionários se pode observar a polivalência do vocábulo, ambíguo em suas acepções:

Transa: substantivo feminino; 1. Entendimento, acordo, pacto; 2. Ligação, trama, conluio; 3. Relação amorosa; 4. Relação sexual; 5. Assunto ou questão pessoal; 6. Apreciar muito alguma coisa; 7. Sentir-se bem com; 8. Gostar: “ele não transa música clássica”; 9. Combinar ou entrar em concordância com; ajustar; 10. Fazer maquinações, planos ocultos, geralmente com intuito de prejudicar; 11. Fazer transações, negócios comerciais com; negociar. Etimologia (origem: De transação).

A intenção era convidar personalidades da arte e da cultura contemporânea, com o propósito de discutir uma trajetória de vida e uma percepção específica do mundo atual, em interação com profissionais de áreas diversas, com formações e experiências complementares. Um convite para “transar” ao vivo, misturando prazer e cultura. Não queríamos um programa jornalístico convencional, com perguntas protocolares ou polêmicas, mas um encontro de sensibilidades e inteligências. Uma atração especialmente pensada para a urgência do momento, onde todos vivem a incerteza do futuro imediato. Durante a concepção do evento, que deveria ser necessariamente online, ainda não havia a febre de “lives”, que logo tomaram conta da vida de todos nós.

O programa piloto foi com o escritor Milton Hatoum, que de forma generosa disse sim ao convite para um programa que não passava de esboço de uma ideia. Augusto Massi e Julia Bussius foram os primeiros convidados do coletivo Marieta, para uma animada e aprofundada conversa sobre literatura e política (1). Segundo Massi, a relação amistosa construída durante a conversa deixou o literato manauara tão à vontade ao ponto de revelar coisas inéditas. Desde então, por ideia própria e sugestões do público que foi aumentando, o coletivo paulista conversou com as seguintes personalidades: o músico e compositor Arrigo Barnabé (2), acompanhados por Luiz Gê, Paulo Sampaio, João Sampaio e Carla Camuratti; a arquiteta e militante social Erminia Maricato (3), mais as presenças de Celso Aparecido Sampaio, João Sette Whitaker e Lizete Maria Rubano; o gestor cultural Danilo Santos de Miranda (4), com apoio de Marta Bogéa na conversa; o líder indígena Ailton Krenak (5), cercado dos amigos Isa Grinspum Ferraz, Marco Altberg e Suely Rolnik; e o teatrólogo José Celso Martinez Corrêa, o Zé Celso (6), em prosa e verso com Cafira Zoé, Casé Angatu, Marcelo Dalourzi e Marília Gallmeister.

Nesse mês de outubro, a pandemia arrefecendo no pano de fundo da realidade brasileira, mas ainda causando o desconforto de centenas de mortes a cada dia, o coletivo Marieta, representados por Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, recebeu pessoas de grande renome em suas áreas de atuação – o cantor e compositor Chico César, a escritora e filósofa Djamila Ribeiro, a curadora e atual diretora artística do MAM-Rio Keyna Eleison, e o arquiteto Luiz Fernando de Almeida, ex-presidente do Iphan – para conversar com o cantor, compositor e ex-Ministro da Cultura Gilberto Gil. A seleção cuidadosa dos convidados se revelou muito acertada: perguntas bem elaboradas, ao largo do convencional, e respostas sagazes e iluminadas, cortantes às vezes, motivo de fartas gargalhadas em outras tantas, em tom forte em ao menos um instante.

Gilberto Gil
Foto Bob Wolfenson

O sétimo episódio da série ocorreu no dia 6 de outubro de 2020, a partir das 17h, com quase duas horas de duração, e transmissão ao vivo via Facebook, na página do projeto Marieta (7). Com grande repercussão e participação do público, teve mais de 5 mil visualizações, 593 comentários, 357 curtidas e 75 compartilhamentos. O comentário bem-humorado de Matheus Assumpção – “Está até difícil de carregar aqui no meu PC, de tanta gente pesada que está na live” –, feito no chat durante a transmissão, sintetiza o que ocorreu: a conexão eletrizante que aos poucos se estabeleceu na conversa contagiou o público. Agora, na íntegra, a entrevista está disponibilizada na plataforma Youtube e pode ser acessada no módulo 2 dessa edição da entrevista.

Quem quiser saber o que se pretendia realizar, pode matar a curiosidade acessando o módulo 3, que contém o roteiro da entrevista, com as perguntas previamente elaboradas pelos convidados, organizadas em dois blocos temáticos: “Cultura: transmissão e construção” e “O passado e o presente”. Como havia a previsão da presença de Gil apenas na primeira hora inicial, pensamos em um hipotético terceiro bloco, “O futuro”, e elaboramos algumas perguntas extras caso ele se decidisse permanecer por mais tempo, o que acabou acontecendo (8). Por fim, no quarto e último módulo desta publicação o leitor poderá consultar informações sobre os participantes do evento, a ficha técnica completa da entrevista, e link para episódios anteriores do Transa Marieta.

Este é o sétimo episódio do Transa Marieta. Como todos sabem, o 7 é um número mágico. Ele é ímpar. Número primo, ele se divide por si próprio ou resta apenas para um. Ele é pleno, ou é igual para todos. Um mistério que se revela na alegria contagiante do convidado Gilberto Gil. À primeira pergunta, de Keyna Eleison, sobre o Festac 77 ocorrido em Lagos, Nigéria, Gilberto Moreira – como preferiu se identificar durante a conversa – deu uma longa resposta, lembrando dos participantes, do evento em si, dos eventos paralelos, da primeira edição do festival ocorrido anteriormente em Dakar, Senegal (9), dos desdobramentos que tiveram em sua carreira e em sua vida. Djamila Ribeiro mereceu atenta resposta à sua indagação sobre como ele entendia os papeis do Estado e da sociedade civil no momento de crise atual (10), raciocínio que ele pôde complementar ao comentar a recordação de Luiz Fernando de Almeida, que narrou um fato peculiar que presenciou em uma das muitas viagens com Gil durante sua gestão como ministro da Cultura: o discurso cantado como “uma embolada, um coco, um rap pantaneiro”.

Chico Cesar, amigo e colega no virtuoso mister de músico profissional, mereceu seguidos e rasgados elogios do nosso entrevistado. Espirituoso e engajado, o artista paraibano colocou em pauta a cena cultural do final dos anos 1960 e início da década seguinte, onde artistas como Tony Tornado, Miriam Batucada, Maria Alcina, Ney Matogrosso, Edy Star, Luli e Lucina, e os tropicalistas em geral se postavam publicamente de forma transgressora na arte e no comportamento. Abilio Guerra, se aproveitando a permanência de Gil na segunda parte da entrevista, lembrou que nesse mesmo período ele havia participado de uma passeata contra a guitarra elétrica e, logo a seguir, de uma apresentação acompanhado dos Mutantes, com a presença da guitarra elétrica empunhada por Sérgio Baptista (11). As respostas de Gil são tão espirituosas em ambos os casos que vamos evitar spoilers nessa breve apresentação.

Faltou perguntar uma curiosidade antiga. Na exposição GIL70 ocorrida em 2012-2013 no Itaú Cultural (12), em um dos totens interativos, Gil explicava como nasceu Super-Homem, a canção (13) a partir de uma conversa com Caetano Veloso, que havia adorado o filme Superman (14). O caso em si foi comentado pelo cantor em algumas situações, mas o que nos interessava saber é como a convencional história do herói que salva a donzela se transformou em magnífica letra sobre a igualdade de gêneros. Mas, se faltou uma explicação mais detalhada sobre seu processo criativo, e se faltou a ilustre presença de Caetano na conversa, em compensação ocorreu uma inusitada situação: Gilberto Gil ouvindo com atenção os comentários dos convidados e mediadores. A modéstia genuína, atributo dos seres iluminados, é um ensinamento para se guardar na memória e no coração.

[texto de Abilio Guerra]

Gilberto Gil
Foto Bob Wolfenson

notas

1
O primeiro episódio do “Transa Marieta”, com Milton Hatoum, ocorreu no dia 20 de abril de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; MASSI, Augusto; BUSSIUS, Julia. Milton Hatoum: literatura em tempos de cólera política e pandemia de coronavírus. Transa Marieta – episódio 1. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.02, Vitruvius, abr. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7713>.

2
O segundo episódio do “Transa Marieta”, com Arrigo Barnabé, ocorreu no dia 12 de maio de 2020, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; ROMANO SANTOS, Silvana. As mil faces do artista Arrigo Barnabé. Transa Marieta – episódio 2. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.04, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7740>.

3
O terceiro episódio do “Transa Marieta”, com Erminia Maricato, ocorreu no dia 26 de maio de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; SAMPAIO, Celso Aparecido; WHITAKER, João Sette; RUBANO, Lizete Maria. Erminia Maricato, arquiteta, professora, gestora pública e ativista social. Transa Marieta – episódio 3. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.05, Vitruvius, maio 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7757>.

4
O quarto episódio do “Transa Marieta”, com Danilo Santos de Miranda, ocorreu no dia 22 de junho de 2020, segunda-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; BOGÉA, Marta; PIRELLI, Giovanni. Danilo Miranda, um intelectual a serviço do Brasil. Transa Marieta – episódio 4. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 082.07, Vitruvius, jun. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.082/7792>.

5
O quinto episódio do “Transa Marieta”, com Ailton Krenak, ocorreu no dia 21 de julho de 2020, terça-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: GUERRA, Abilio; FERRAZ, Isa Grinspum; ALTBERG, Marco; ROLNIK, Suely. Ailton Krenak, o intérprete dos intérpretes do Brasil. Transa Marieta – episódio 5. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.01, Vitruvius, jul. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7825>.

6
O sexto episódio do “Transa Marieta”, com José Celso Martinez Corrêa, ocorreu no dia 22 de setembro de 2020, terça-feira, com início às 18h30, e está disponibilizado no portal Vitruvius: PIRELLI, Giovanni; ZOÉ, Cafira; ANGATU, Casé; DALOURZI, Marcelo; GALLMEISTER, Marília. Zé Celso, a irreverência a serviço da teatro e da cidade. Transa Marieta – episódio 6. Entrevista, São Paulo, ano 21, n. 083.04, Vitruvius, set. 2020 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/entrevista/21.083/7890>.

7
Transa Marieta #7 – Gilberto Gil em conversa com Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida, com mediação de Abilio Guerra e Giovanni Pirelli, 06 out. 2020 <www.facebook.com/watch/live/?v=338370723917662>.

8
A programação do episódio era a seguinte: 17h-18h15: Entrevista com Gilberto Gil, ao vivo, com perguntas de Chico César, Djamila Ribeiro, Keyna Eleison e Luiz Fernando de Almeida; 18h15: Despedida do Gil; 18h15–19h: Conversa livre entre os entrevistadores.

9
O primeiro World Black and African Festival of Arts and Culture – Festac (Festival Mundial de Arte e Cultura Negra e Africana) ocorreu em Dakar, Senegal, em 1966. Foi uma conferência de caráter intelectual, que propunha a libertação dos negros via poesia, literatura e filosofia. O segundo festival – o Festac 77 – ocorreu entre janeiro e fevereiro de 1977, em Lagos, Nigéria, com a participação de milhares de artistas negros de 55 países do mundo inteiro.

10
Como ministro, Gilberto Gil tinha sob sua guarda diversos órgãos e empresas estatais, como a Embrafilme, a Funarte, a Fundação Nacional Pró-Memória, a Fundação Casa de Rui Barbosa, a Fundação Joaquim Nabuco, a Fundação Biblioteca Nacional e o Iphan.

12
Em 17 de julho de 1967, liderados por Elis Regina e com as presenças de Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e Gilberto Gil, ocorreu em São Paulo a Marcha contra a Guitarra Elétrica, uma defesa da música brasileira contra a invasão da música internacional. Três meses depois, em outubro de 1967, durante o III Festival da TV Record, Gilberto Gil se apresentou acompanhado dos Mutantes, munidos de instrumentos elétricos.

12
GIL70, curadoria de André Vallias, colaboração de Frederico Coelho. Itaú Cultural, São Paulo, de 12 de dezembro de 2012 a 17 de fevereiro de 2013. Exposição comemorativa dos 70 anos de vida do músico Gilberto Gil.

13
Super-Homem – A Canção (1979): Um dia / Vivi a ilusão de que ser homem bastaria / Que o mundo masculino tudo me daria / Do que eu quisesse ter // Que nada / Minha porção mulher, que até então se resguardara / É a porção melhor que trago em mim agora / É que me faz viver // Quem dera / Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera / Ser o verão o apogeu da primavera / E só por ela ser // Quem sabe / O Superhomem venha nos restituir a glória / Mudando como um deus o curso da história / Por causa da mulher.

14
Superman: The Movie, direção de Richard Donner, roteiro de Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman e Robert Benton, história de Mario Puzo, Estados Unidos, 1978. Com Christopher Reeve, Marlon Brando, Gene Hackman, Ned Beatty, Jackie Cooper, Glenn Ford, Trevor Howard, Margot Kidder, Valerie Perrine, Maria Schell, Terence Stamp, Phyllis Thaxter e Susannah York.

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