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my city ISSN 1982-9922

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VERAS, Tiago Fernandes Távora. Casa Cor Ceará 2004. Deturpação de conceitos. Minha Cidade, São Paulo, ano 05, n. 051.01, Vitruvius, out. 2004 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/05.051/1995>.



Foto Tiago Fernandes Távora Veras



Foto Tiago Fernandes Távora Veras


Foto Tiago Fernandes Távora Veras


Foto Tiago Fernandes Távora Veras


Foto Tiago Fernandes Távora Veras


Foto Tiago Fernandes Távora Veras


Foto Tiago Fernandes Távora Veras

 

Um arquiteto de mente lúcida e olhar atento não há de passar incólume a uma visita à Casa Cor 2004. O evento ocupou a residência oficial do governador do estado, realizando intervenções arquitetônicas, paisagísticas e de decoração, tendo cada ambiente da casa sido desenhado por um profissional diferente. O mérito da exibição, no dizer de seus organizadores e de representantes do governo estadual, reside na permanência, após a conclusão da mostra, das benfeitorias realizadas, como uma contribuição ao patrimônio público. O objetivo, entende-se, é que a edificação se torne mais adequada à recepção de visitantes oficiais.

Vejo, no resultado deste arranjo, uma infeliz deturpação de conceitos elementares da arquitetura, tais como unidade de linguagem, ajustamento dos ambientes e materiais às suas funções e ordenamento dos fluxos. Percebe-se na mostra a inadequação de alguns dos espaços aos seus futuros usos, tendo em vista seu dimensionamento e o desenho do mobiliário. A exemplo disto, a cozinha principal, por seu porte, se aplicaria às necessidades de uma família pequena, e não ao preparo de banquetes oficiais, como os que se presume serão realizados na mesa da sala anexa. Por sua vez, os materiais adotados e os apetrechos tecnológicos exibidos – e não o espaço – são os verdadeiros expoentes da mostra, evidenciados por seu alto custo e caráter exótico.

O patrocínio dos fornecedores parece ter ditado as decisões de projeto – acima de qualquer aspecto funcional. Especial desapuro foi dado aos banheiros, posto que se esqueceu serem lugares essencialmente dedicados à higiene pessoal. Num mesmo ambiente se encontram um box para chuveiro feito de contas de vidro suspensas por fios (quem vai enxugar todo o banheiro depois do banho?) e uma banheira que fala quatro línguas (!). Um outro ambiente nos sugere perguntar – de que forma um lavabo em forma de jangada torna o “lavar-se” mais agradável? As propostas trazem em si uma patética vontade de parecerem engraçadas, como uma piada materializada no espaço. Não se tratam, muitas das intervenções, de soluções formais e funcionais para determinados problemas e atividades humanas (em outras palavras, arquitetura), mas exercícios frívolos de aplicação de materiais e equipamentos, tantos quanto forem possíveis, nos exíguos ambientes. Cada projetista, afinal, tem que aparecer e se projetar (e há uma indisfarçada ironia nesta frase).

Tais considerações podem ser facilmente ignoradas quando se analisa o evento sob a perspectiva de uma mostra efêmera voltada para um público de alto poder aquisitivo e baixa formação cultural – de que outra forma se explica um ambiente voltado para o repouso do cachorro, com televisão, sofá e esteira rolante? Os devaneios e as veleidades criativas, sob este ponto de vista, são permitidos. Desta feita, entretanto, pretendeu-se fazer uma intervenção permanente num imóvel de destacado significado público, com a presunção de representar a legítima produção cultural cearense, sendo portanto intoleráveis tais desacertos. Muito se falou, por ocasião deste evento, da “cearensidade” expressa em seus espaços. A meu ver, a intenção de materializar este jeito cearense de viver, no afã das soluções fáceis e de rápido apelo visual, voltadas para o turista, resultou algumas vezes caricato e, mesmo, cenográfico. Há exceções, é preciso dizer. Não se trata de apontar nomes, mas fazer ver aos arquitetos e ao público em geral este arranjo ruim que nos é apresentado como uma abordagem correta da prática arquitetônica e que, por vezes, não é discutido, dada a farta cobertura e o apoio da mídia ao evento. O somatório de diferentes intervenções, ao mesmo tempo, numa mesma edificação não resulta num conjunto harmônico e bem resolvido. A venda fracionada deprecia o projeto arquitetônico, produzindo não mais que uma colcha de retalhos – cara, no caso.

Uma outra questão que se nos apresenta é a capacitação e a responsabilidade técnica dos profissionais envolvidos no evento. Estes são, em sua maioria, ou arquitetos, ou designers de interiores, ou decoradores. É preciso deixar claras as competências de cada uma destas terminologias. Arquiteto é o profissional, graduado em curso de nível superior, capacitado a elaborar projetos arquitetônicos (inclusive os de arquitetura de interiores). O designer é o profissional, também graduado em curso de nível superior, capacitado a elaborar projetos de desenho industrial, sendo o designer de interiores uma variação (ou especialização) desta atividade, sendo geralmente capacitado através de cursos de curta duração. O decorador, por sua vez, é o profissional que se dedica à ambientação dos espaços, caracterizada pela escolha e disposição de mobiliário e objetos e definição de materiais de acabamento. Não se exige formação específica para a sua prática, ainda que existam cursos de aperfeiçoamento nesta matéria. Entre os não-arquitetos, na mostra, a predominância de profissionais ditos “designers de interiores” nos faz presumir que todos estes profissionais têm efetivamente a necessária formação para exercer sua atividade. De outra forma, utilizam erroneamente o termo “designer”, o que demonstraria talvez uma surpreendente ocorrência de autodidatas em nosso estado ou, mesmo, a ignorância do significado do termo, motivada pelo apelo das palavras estrangeiras.

Por sua vez, a responsabilidade técnica pelas obras, atestada pelo CREA – Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, se restringe aos arquitetos. Nos causa inquietação, portanto, a existência de obra arquitetônica, na mostra, em cuja ficha técnica não se lê o nome do profissional tecnicamente responsável. Aponta-se a autoria de projeto arquitetônico, neste caso específico, a profissional não-capacitado. Se há um profissional responsável de fato, a omissão de seu nome se torna de todo inexplicável, suscitando mesmo a impressão de que profissionais não-capacitados podem, livremente, elaborar projetos arquitetônicos, muitas vezes amparados por profissionais capacitados que assumem a responsabilidade pela obra (vulgarmente conhecidos por “caneteiros”), numa clara desvalorização da atividade. É preciso que o Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura também fiscalize e puna tais posturas, e não somente aos profissionais a ele vinculados, quando não ocorrer a anotação de responsabilidade técnica.

A condição em que se realizou este evento demonstra, por fim, a falta de compromisso da gestão pública com os concursos públicos de arquitetura. Trata-se de um evento privado, em que profissionais e empresas expõem seus trabalhos e produtos em um edifício público, alterando-o, com contestáveis retornos material e imaterial ao Estado e à sociedade – à revelia de qualquer critério racional de seleção de profissionais e fornecedores. Esta promiscuidade entre interesses públicos e privados, tão danosa à coletividade, pode ser observada in loco, na mostra. Através de um prosaico exemplo, já desde seu exterior, poder-se-á perceber a apropriação do espaço público pelo privado – uma enorme empena que, do muro, avança em balanço sobre a calçada, interrompendo a circulação de pedestres naquele trecho. Definitivamente, se houve qualquer tentativa de associar a arquitetura a este evento, certamente desprezou-se o urbanismo.

sobre o autor

Tiago Fernandes Távora Veras é arquiteto e urbanista.

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