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my city ISSN 1982-9922

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PAVIANI, Aldo. Indústria de reformas em Brasília. Minha Cidade, São Paulo, ano 06, n. 062.01, Vitruvius, set. 2005 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/06.062/1969>.



Há necessidade de conhecermos a Geografia da Capital federal por suas características e atividades distribuídas no quadrilátero do Distrito Federal (DF). Suas indústrias não a colocam muito bem no elenco das áreas metropolitanas tradicionais, muitas crescidas ao redor de parques industriais importantes para o país.

Diriam alguns, se as indústrias locais são incipientes por que se ocupar com elas? A questão seria correta se fôssemos tratar das indústrias tradicionais, com chaminés fumegantes em poluídos distritos industriais. Então, diriam outros, se não há indústrias com chaminés, deveríamos nos ocupar com outras modalidades? Por exemplo, as que assumem as reformas industriadas em Brasília, como a interminável reforma da previdência, a reforma política, do judiciário, do ministério federal, do secretariado do governo do DF (GDF), ou ainda, a reforma do sistema viário, aqui e ali “saturado” pelo constante crescimento do tráfego de veículos não atenuado pelo trem metropolitano, nem pelas infindáveis duplicações de vias públicas.  Diríamos que estas reformas acabam caindo em setores muito intrincados e, por vezes, submersos na política. Neste campo, hoje minado, não nos atreveríamos a abordá-las no espaço deste pequeno artigo, pois o foco é outro.

Indo ao ponto: trataremos da indústria de reformas que, alguns preferem denominar de “atividades de serviço”. Da mesma forma que a construção civil, os “serviços” contribuem para o emprego de milhares de pessoas, em todos os quadrantes da cidade, desde o Plano Piloto de Brasília até as mais distantes cidades-satélites. As obras em foco assumem importância na economia do DF e resultam em preocupações por sua dinâmica, operacionalidade, custos e nível de poluição.

Assim, notam-se, nas superquadras do Plano Piloto, prédios com andaimes para pintura de suas fachadas ou mesmo para modernizá-las com esquadrias de alumínio, novas pastilhas e, sobretudo, com os indefectíveis revestimentos dos pilotis com mármore branco ou colorido. Os pilotis são cartões postais dos blocos e, se renovados, valorizam os imóveis. A renovação demanda também reforma das cerâmicas do piso, escadas, garagens, elevadores e áreas de uso comum. No piso, há substituição da surrada granitina por mármore, novas lajotas de cerâmica colorida ou reluzentes tipos de granito. Há, ainda, blocos nos quais é decidida cirurgia mais ampla, pois, os materiais em uso há 20, 30 ou 45 anos, demonstram cansaço, desbotam, trincam, e devem ser renovados ou removidos. Para as obras, nomeia-se comissão em assembléia geral que recolhe orçamentos de firmas, em expansão neste florescente mercado da construção civil. Aliás, as assembléias nem sempre acontecem com debate civilizado, sobretudo quando se formam grupos opostos em razão das medidas a serem tomadas e, sobretudo, quanto ao montante das “taxas extras” e a quantidade de mensalidades para cobrir as despesas com a empreitada.

A reforma em blocos residenciais é um dos mais evidentes exemplos da “indústria das reformas”, que movimenta razoável contingente de trabalhadores em toda a linha da construção civil, do engenheiro ao peão e ao comércio de materiais de construção, uma das mais prósperas atividades econômicas de Brasília. Assim, a geografia do DF, aos poucos, vai sendo modificada por crescente número de pessoas que se ocupam em fazer desta indústria sem chaminés uma das mais desenvolvidas da cidade. Geógrafos, economistas, sociólogos e outros profissionais das Ciências Humanas, que pesquisam o processo de urbanização, ressentem-se da falta de estatísticas sobre esta atividade. Com os dados levantados poderiam fazer avaliação de sua importância no mercado informal de trabalho, no giro econômico-financeiro e para o sustento de famílias. Acredita-se que, devido às reformas há redução da taxa de desemprego no DF.

Ultimamente, surgiram na cidade escritórios de engenharia e arquitetura que organizam as reformas e passam para os condomínios contratantes a garantia de que a empreitada chegará a bom termo, de acordo com o orçamento escolhido. Mas, em toda a obra humana, a escolha de orçamento não é tarefa tranqüila. Surgem dois lados das reformas a serem avaliados, ou seja, um grupo pensa em reforma mais ampla, com materiais de melhor qualidade e maior durabilidade e outro que se contenta com maquiagem que elimine infiltrações, corrija desgaste dos materiais antigos e que evite taxa extra de elevado custo durante muitos meses ou mais de ano, onerando o orçamento dos condôminos.

Sendo uma ou outra corrente dominante, há necessidade de iniciar as obras antes do período chuvoso. Portanto, as reformas se movimentam pelo que vulgarmente é referido como clima, mas que na realidade é o tempo cambiante do Planalto Central, que oscila dicotomicamente entre meses secos de abril/maio a setembro/outubro, com secura e temperaturas amenas, mas com dias ensolarados e os demais meses, chuvosos. Portanto, as obras correm contra o tempo. A geografia, novamente, ajuda a todos os que “põem a mão na massa”, com dias propícios no período seco, com longas jornadas de trabalho, muita poeira, sucata, cheiro de tintas e barulho insuportável de marretas, furadeiras, martelete, serras e queda de materiais pesados, perturbando a vizinhada.

De uma forma ou de outra, as obras em blocos residenciais são apenas a parte mais perceptível da indústria de reformas. Mais sutis são as reformas nas repartições públicas do governo federal – ministérios, autarquias e no GDF. Nos órgãos públicos abrem-se licitações e aí, por necessidade ou não, os contribuintes arcam com os impostos para as obras. Além disto, erguem-se suntuosos palácios para o judiciário (mas este é outro assunto). No GDF, procedeu-se a reforma do palácio do Buriti, que chamou a atenção por sua amplitude, custos e demora na execução dos trabalhos. No âmbito público, ruídos e poluição ficam distantes dos espaços residenciais – como estabelecido na setorização demarcada pelo plano piloto do urbanista Lúcio Costa.

De modo geral, observa-se movimento de reformas em todas as localidades da Capital. Com o passar dos anos e com o alto poder aquisitivo, muitos moradores do núcleo central se cansam da pintura de seus apartamentos, das instalações sanitárias dos banheiros e do modelo antigo das cozinhas. Nestas há competitivo mercado de armários pré-fabricados que modernizam moradias – mansões ou apartamentos, no Lago Sul e Norte, no Plano Piloto e vizinhanças. As reformas em casas e apartamentos é modalidade muito barulhenta e atazana a paciência da vizinhança em que ocorrem as obras. Os moradores de apartamentos já começam a se mobilizar para que, além do respeito à lei do silêncio, os condomínios votem medidas de proteção contra o excesso de poeira, cheiro de tintas, vernizes, tiner e colas e, sobretudo, barulho. Argumentam que a mobilização se faz necessária para que o aconchegante ambiente familiar não se torne um inferno ao longo de dias ou meses – dependendo do volume e custos da obra.

Mas, passa despercebido o problema com o exército de trabalhadores que aproveitam este filão de trabalho informal. Geralmente, este contingente anônimo de trabalhadores se organiza em torno de “mestre-de-obras” mais experiente ou peão habilidoso e com maior tino comercial. Muitos pertenciam ao quadro de construtoras que faliram ou que reduziram o número de seus empregados. No desemprego, estes mestres-de-obras e peões sentiram o florescer de oportunidades quando aumentou a demanda por reformas. Neste contingente, ocupam-se mesmo sem abrigo da legislação trabalhista, sem férias, sem contribuição ao INSS ou FGTS, mas garantem o sustento de suas famílias. Avalia-se que movimente razoável quantidade de materiais e recursos financeiros importantes para a economia do DF. Com isso, azulegistas, pintores, pedreiros, eletricistas e seus ajudantes, marmoristas e outros se ocupam nas empreitadas e migram de um lugar a outro, de uma obra a outra e garantem remuneração oscilante, temporária e, por isso mesmo, imprevisível. Nos escritórios de arquitetura e engenharia, voltados para reformas e decoração, o operariado trabalha mais organizadamente e ao abrigo da legislação trabalhista.

Por fim, oferecemos algumas sugestões para órgãos de pesquisa federal e do GDF, legisladores e pesquisadores da evolução sócio-espacial do DF para que: 1) se elaborem estatísticas da quantidade e características dos trabalhadores deste “circuito inferior da economia” (concepção do grande geógrafo Milton Santos); 2) se saiba qual é montante da movimentação financeira que passa distante dos cofres públicos, seja em termos de impostos e das contribuições não pagas à proteção social desta sofrida massa de trabalhadores da Capital; 3) órgãos ambientais verifiquem qual é o patamar aceitável de poluição - ruído, maus odores, poeira e entulho produzidos por esta atividade no território deBrasília – cidade tombada como Patrimônio da Humanidade e que medidas devem ser tomadas para atenuar seus impactos sócio-ambientais.

notas[versão reduzida deste artigo foi publicada no jornal Correio Braziliense, Caderno Opinião, 25 jul. 2005, p. 11]

sobre o autor

Aldo Paviani, geógrafo, é Pesquisador Associado e Professor Emérito da UnB.

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