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my city ISSN 1982-9922

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BARBOSA, Antônio Agenor. Morro da Conceição: a geografia da cordialidade. Minha Cidade, São Paulo, ano 06, n. 068.03, Vitruvius, mar. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/06.068/1951>.


Morro da Conceição em 1940


Casa na Rua do Jogo da Bola

Fortaleza da Conceição em 2005

Fortaleza da Conceição em 2005

Rua do Jogo da Bola

Seu Felix, sergipano morador do Morro da Conceição

Imagem de Nossa Sra. da Conceição no Morro da Conceição

Imagem de Nossa Sra. da Conceição no Morro da Conceição

 

Para Ana Cecília

"Há um menino
Há um moleque
Morando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão

Há um passado no meu presente
Um sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão

Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidãoToda vez que a tristeza me alcança
O menino me dá a mão"
(”Bola de Meia, bola de Gude”, Milton Nascimento)

Situado em pleno coração do Centro Antigo, o Morro da Conceição encontra-se nas franjas remanescentes da urbe colonial, desta Muito Leal e Heróica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um lugar de gente simples, solidária e, sobretudo, educada. Características aprendidas, desde o berço, no dia-a-dia da vivência nos becos, ladeiras, escadas, largos e ruas estreitas que tornam o local tão peculiar. Espaço pitoresco e aprazível que guarda, no calçamento de pé-de-moleque e outras pedras, a memória cultural e histórica da Cidade Maravilhosa.

Costumes urbanos que já se perderam nos dias atuais ainda são observados constantemente pelas ruas desta pequena colina que compôs, com o Morro do Castelo, São Bento e Santo Antônio, um dos vértices do acidentado quadrilátero colonial que originou a malha urbana do Rio.

A história do Morro da Conceição começa em 1590, quando o local recebe uma pequena igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, que passa a dar nome ao espaço. A ermida fora construída no Morro em frente, oito anos antes. Mas como a área fora doada pelo sesmeiro Manoel de Brito aos monges beneditinos para a construção do Mosteiro de São Bento, e na época uma igreja não poderia simplesmente ser demolida, a capela foi transferida pedra por pedra.

Em volta dela se instalaram alguns dos primeiros descendentes de portugueses, que dois séculos depois teriam como vizinho o Bispo do Rio de Janeiro, D. Francisco de São Jerônico. Os ataques franceses à cidade, no início do século XVIII, levaram a Corte Portuguesa a construir também no local uma fortaleza, onde mais tarde seriam confinados inconfidentes como Tomás Antonio Gonzaga. Transformou-se apenas em cadeia por pressão, segundo reza a lenda, do Bispo, indignado com a quebra de cristais aos primeiros disparos de canhões.

No século passado o Morro da Conceição era embalado pela música de sambistas como Donga e João dos Prazeres, que se reuniam junto à Pedra do Sal – o local onde o produto, procedente da Europa, era descarregado para abastecer o Rio Colônia.

Mas voltemos aos dias de hoje, em um passeio por este local histórico. Logo à chegada por uma das principais entradas que dão acesso ao Morro propriamente dito, chegando à Praça Major Valô, ergue-se a bonita imagem da Virgem Santa que batiza com seu nome o lugar e que lhe confere tanta proteção, paz e segurança quanto as guaritas da Fortaleza onde estão os soldados do Exército brasileiro que dão alguma contribuição à santa na proteção e na ampliação da sensação de segurança que se tem por aqui. Mas além da pura e simples sensação de segurança, aqui se pode vivenciar cotidianamente, de fato, a tão sonhada segurança pública que em muitas partes da metrópole já não se encontra mais.

No Morro da Conceição reside e trabalha muita gente de bem e muita gente do bem. Militares da reserva, funcionários aposentados do Porto Marítimo, comerciantes e alguns profissionais liberais compõem boa parte do perfil de muitos dos moradores que residem talvez em alguns dos imóveis residenciais mais antigos do Rio de Janeiro. A grande maioria de idosos e aposentados, muitos filhos de portugueses nascidos e criados no lugar e que nunca tiveram a experiência de viver em outra parte da cidade. Existem alguns nordestinos pioneiros como o Seu Felix da Ladeira do João Homem – um simpático sergipano que aqui reside desde 1936 – e outros recém-chegados, mas que foram muito bem recebidos e aceitos pela comunidade. E certamente por isto está ainda por se desvendar, para os pesquisadores, sociólogos e urbanistas, um outro sítio urbano desta cidade em que a noção de pertencimento, de integração física e simbólica entre as pessoas de diferentes origens geográficas e culturais e de identidade quase umbilical entre as pessoas e o lugar seja tão forte e significativa quanto o é no Morro da Conceição e nos seus arrabaldes.

Lugar também impressionantemente muito rico em símbolos (materiais e imateriais) e trocas afetivas cotidianas experimentadas pelas relações cordiais que se dão nas ruas deste sítio, onde tanto a tristeza quanto a alegria do dia-a-dia não passam despercebidas – pelo simples olhar carinhoso ou pela entonação gentil com que os moradores mais antigos respondem com um “bom dia” ou “boa tarde” às pessoas que por ali circulam, tentando desvendar algumas das camadas de muitos véus e mistérios que encobrem suas íngremes e sinuosas ladeiras.

Solidão, carência, depressão e tristeza podem até existir na vida privada de seus moradores. Mas delas pouco ou nada saberemos, já que a vida pública no Morro da Conceição é uma festa regada com muita batida, churrasco, cerveja e outros acepipes que podem ser degustados no Bar do Sérgio ou no Bar do Beto, na Rua do Jogo da Bola. Ou ainda em ensaios quase misteriosos, e paradoxalmente lotados de muita gente, do bloco carnavalesco “Escravos da Mauá” que animam uma vez por mês as ruas que circundam o sopé desta colina à beira do Largo de São Francisco da Prainha e que expandem em coro com o lírico samba “Quantas lágrimas”, de Manacéa, da Velha Guarda da Portela.

E neste jogo complexo de memórias urbanas marcadas por uma nostalgia que nos toma quando aqui pisamos e que nos dá uma doce saudade que nos remete e nos faz viajar a uma Lisboa arcaica que também não é do nosso tempo e cuja trilha sonora deste cenário seria um Fado e os protagonistas somos nós que por ali temos o privilégio de passar, não impunemente. Visitar, flanar e conhecer o Morro da Conceição e, sobretudo, conhecer a sua gente é também sentir-se modificado e perceber como o nosso cada vez mais duro coração urbano vai, paulatinamente, amolecendo e limando suas arestas e a nossa memória (atávica, ancestral e/ou coletiva) vai (re)inaugurando seus recônditos puxadinhos e construindo novas lajes que fazem com que nos reconheçamos em um ambiente que, paradoxalmente, nada mais tem a ver com a correria e com ritmo frenético, competitivo e até beligerante com que a cidade como um todo está permeada à sua volta.

Os sons que (ainda) se escutam por aqui é o do canto do galo ao amanhecer, o canto do bem-te-vi e a melodia da Ave Maria, gerada na torre sineira da Igreja, ao lusco- fusco, pontualmente às 18:00h. O medo que existe por aqui é dos morcegos, das corujas, das cigarras e o medo de se perder o tempo da delicadeza que, inexplicavelmente, congelou-se por aqui e que vai contaminando positivamente as novas gerações que aqui nasceram ou que se instalaram mais recentemente.

Tenho dito que todos aqueles que tiverem a sorte e a oportunidade de conhecer, passear e visitar este esquecido e desconhecido recanto da Cidade Maravilhosa, passarão por uma experiência não apenas pedagógica e nem didática simplesmente, mas sim por uma experiência formadora. Uma espécie de paidéia que nos leva a retomar, vivenciar e fundamentalmente praticar atos simples que o senso comum chamaria de bons atos ou boas maneiras ao que numa só palavra pode-se resumir como algo que queira exprimir “civilidade” e/ou “urbanidade”. Feliz o lugar que ainda preserva estes valores e estas qualidades a despeito do tão idealizado progresso que nos circunda e, não raro, nos ameaça com aquela tão conhecida e feroz “força da grana que ergue e destrói coisas belas”.

Visitar o Morro da Conceição nos faz conhecer, (re)conhecer e vivenciar um tempo arcaico que não é nosso e sim dos nossos distantes ancestrais que, de fato, construíram estes sobrados e rechearam de vida e impregnaram de memória as ruas deste lugar. É, talvez, esta energia latente de memória contida nas suas calçadas e nas suas paredes que permite que senhores e senhoras de 70, 80 e até quase 90 anos circulem a pé e tenham forças para subir estas ladeiras coloniais.

Mas a nova e a novíssima geração de moradores nascidos no Morro já disse a que veio ao mundo também. Pois improvisar uma lúdica mesa de tênis de mesa, o nosso velho conhecido “ping-pong”, com uma porta velha oriunda de alguma demolição e um cavalete para ser jogado no meio da Rua do Jogo da Bola e estabelecer regras dignas de um sério campeonato olímpico é algo que só poderia estar sendo gerado pela criatividade destas crianças que circulam livres, leves e soltas pelas ruas do Morro da Conceição. Sem vídeos-game, sem televisão, sem jogos eletrônicos, sem os celulares de última geração na mão, pois elas são chamadas pelos seus respectivos pais que se põem à janela e sentenciam: “Pedro, Zeca, João, Raquel, hora do almoço, está na hora de vir para casa”. E a velha tábua e o cavalete acima mencionado são deixados num cantinho da rua para que no dia seguinte o campeonato possa ser continuado.

Sem carros blindados, sem motoristas, sem seguranças e sem babás, as crianças daqui circulam em suas bicicletas que fazem barulhos ensurdecedores simulando o motor ruidoso de uma motocicleta sem escapamento. Toda esta sonoplastia é garantida pelo simples fato de prender um copo de plástico descartável junto às rodas das referidas bicicletas. Várias bicicletas com este potente assessório já dá para imaginar e até calcular os altos níveis de ruídos que elas podem produzir, com a vantagem de não emitirem monóxido de carbono – como as motocicletas que simulam – na atmosfera que encobre o Morro.

Visitar e conhecer o Morro da Conceição é também perceber que as crianças que garantirão o futuro do lugar, vivem e se divertem muito empolgadas com brincadeiras do passado. Aos fins de tarde quando retornam da escola, ou nos finais de semana, a criançada ganha a rua literalmente. Muitas crianças que, em plena rua e ao ar livre, ainda brincam de bola de gude, jogam futebol com bolas de meia e correm despreocupadamente pelas ruas onde batem papos, soltam pipas e piões, brincam de pique esconde, de pular corda e outras brincadeiras hoje, infelizmente, já desconhecidas pelas crianças que são criadas trancadas em seus apartamentos e playgrounds em geral da Zona Sul.

Uma das poucas e principais ruas do Morro da Conceição, a Rua do Jogo da Bola (este poético nome da rua permanece desde os tempos da colônia onde, de fato, havia um jogo da bocha) é uma rua pequena e estreita, onde só passa um carro de cada vez, o que amplia ainda mais, a meu ver, a vocação para a civilidade e urbanidade do lugar; pois alguém terá sempre que ceder a vez ao outro carro que vem em sentido contrário.

É uma rua espremida entre a igreja e a fortaleza. Um lugar de poucos acessos e que, na maior parte das vezes, para chegar lá em cima tem que passar necessariamente pelas guaritas do Exército (na Fortaleza da Conceição) sempre de vigilância no lugar, o que confere e amplia a sensação de segurança que se tem em todo o Morro, como já mencionado anteriormente.

Um lugar que, ao fim do dia e todos os dias, ao crepúsculo, as pessoas põem as suas cadeiras nas calçadas para conversarem e são receptivas aos que passam pela rua em frente às suas casas. Um lugar que conheço pessoalmente o carteiro (Paulo Roberto) e o padeiro (Marcos) que entregam cartas e pães frescos na minha própria mão. Quando tem em mãos uma encomenda muito grande e que não cabe na caixinha do correio, o carteiro a deixa no Bar do Sérgio, que informa aos destinatários.

Um lugar que as pessoas deixam as portas de suas casas abertas e vivem de forma simples e tranqüila. Um lugar em que todos os dias, às 18:00 horas, é possível ouvir a Ave Maria na igreja – algumas pessoas rezam, como eu já presenciei várias vezes. Um lugar gostoso de freqüentar e aonde as crianças que vêm de fora se divertem assistindo a garotada do lugar fazendo brincadeiras simples e bem antigas que elas sequer sabiam que existiam.

No Morro da Conceição – que a despeito do nome não é e nem nunca foi uma favela, como algumas pessoas preconceituosas pensam – não há registros de crimes, roubo de carro ou mesmo qualquer outro ato de vandalismo contra o patrimônio público. Pois senão, como diria a urbanista Jane Jacobs, as pessoas estariam todas trancadas em suas casas e não convivendo livre e despreocupadamente nas ruas como fazem por aqui.

[artigo publicado originalmente na edição impressa da Revista Carioquice, publicação do Instituto Cultural Cravo Albin do Rio de Janeiro <http://www.carioquice.com.br/07/010.pdf>]

sobre o autor

Antônio Agenor Barbosa, Arquiteto e Urbanista, Mestre em Urbanismo e Doutorando em Arquitetura pela FAU / UFRJ, Coordenador dos Cursos de Graduação e Pós-Graduação em Paisagismo da Escola de Design da Universidade Veiga de Almeida, Professor do Curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Plínio Leite e do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES / JF - MG) e morador do Morro da Conceição.

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