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my city ISSN 1982-9922

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KATHOUNI, Saide. Sobre um outro ícone da paisagem paulistana, a Avenida Paulista. Minha Cidade, São Paulo, ano 08, n. 092.03, Vitruvius, mar. 2008 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/08.092/1899>.


Pailista em fins da década de 70 [Paulista em fins da década de 70. Fonte: TOLEDO, Benedito Lima de. Álbum iconográfico da A]


Mosaico Paulista [Fotos do arquivo do escritório Rosa Grena Kliass]

Projeto 1973 [Escritório Rosa Grena Kliass Arquitetura Planejamento e Projetos Ltda]

 

A criação desta tradicional avenida, a “Paulista” por iniciativa de Joaquim Eugênio de Lima e dois sócios paulistanos, na virada do século XIX ao XX, representou uma oportunidade de abertura de um novo eixo norteador de novos loteamentos que se associaram à expansão do centro paulistano, na direção oeste da cidade. Situada em nosso mais expressivo espigão, a uma altitude de 831 metros, e distante do centro histórico cerca de 3 quilômetros, desenhada em linha reta, foi inaugurada em 1891.

A Avenida Paulista caracterizou-se, desde o nascimento, como grande boulevard. Eixo composto por lotes generosos, quase pequenas chácaras, que, com o passar do tempo foram adquirindo ares ecléticos, pela construção de diversos casarões, associados a jardins magníficos. Este cenário perdurou até meados da década de 80, quando a pressão imobiliária, a reativação do antigo projeto do metrô e as possibilidades de tornar-se uma avenida ligada à presença de importantes sedes bancárias modificou o conteúdo arquitetônico dos lotes, que foram sendo verticalizados, em meio a lutas e polêmicas pela preservação dos casarões ainda presentes na paisagem.

O processo de transformação, prenunciado desde a década de 40 por construções de alguns edifícios residenciais e pela construção do Conjunto Nacional, já na década de 50, sob projeto do arquiteto Davi Libeskind, na esquina com a florescente Rua Augusta, de certa forma, foi impulsionado pelas modificações empreendidas no início da década de 70, pela EMURB - Empresa Municipal de Urbanização e pela implantação, mais tardia, do metropolitano.

Em 1973, foram contratados dois projetos integrados, através dos escritórios Cauduro e Martino Arquitetos Associados e Rosa Grena Kliass Paisagismo Planejamento e Projetos Ltda, dentro do processo de reformulação e ampliação de pistas da Avenida Paulista. O primeiro escritório foi responsável pela elaboração de toda a programação visual e o segundo, pelo tratamento paisagístico da avenida, constituindo o conjunto de desenhos um projeto pioneiro de desenho urbano em São Paulo, do qual fazia parte o mobiliário urbano especialmente criado por Cauduro para o local (1).

A reformulação da avenida inicialmente havia sido pensada numa cota inferior, passando pelo subsolo, a exemplo do que ocorre com o trecho no cruzamento com a avenida da Consolação. Em virtude das obras do metropolitano, que escavou túneis, ocupando este espaço, o alargamento de pistas retomou as cotas originais da avenida existente e necessitou, também, de generosas calçadas, obtidas da desapropriação das frentes dos lotes lindeiros, que perderam partes de seus jardins, já desde o início das obras de alargamento, na década de 70.

Assim, o projeto paisagístico da avenida foi pensado incorporando os acessos pré-existentes, a intensa circulação de pedestres prevista e a necessidade de devolver ao público um pouco dos jardins perdidos.

No princípio, pelo caráter provisório do tratamento, que também tinha prazo apertado para a sua inauguração e obras em curso, segundo a arquiteta Rosa Kliass, optou-se por cultivos externos, em recipientes de fibra de vidro / containeres, que foram transportados ao local, na época adequada e depositados em canteiros desenhados ao nível do piso, e que, bem mais tarde, com a permanência e fortalecimento dos projetos, receberam também muretas de delimitação não previstas originalmente. Todas as entradas, travessias previstas e acessos necessários foram estudados, norteando o desenho, que privilegiou o pedestre.

Dentro dessa ótica, implantaram-se, também, através de projeto arrojado, as largas faixas de pedestres, ainda hoje emblemáticas, com posicionamento nunca antes utilizado por aqui, associadas aos sinais de pedestres.

Esses projetos, com todas as alterações sofridas na região, em sua essência permaneceram e associaram-se à identidade deste Lugar, sem deixar de sofrer, entretanto, inevitáveis processos de deterioração, comuns a todas as áreas públicas da cidade e, em especial, nossas calçadas.

Sobre as calçadas da cidade, em fevereiro de 2001, publiquei uma espécie de manifesto a respeito da situação geral, refletindo sobre as necessidades e contando um pouco da história disso tudo (2). A avenida Paulista foi apontada pelo texto como área em deterioração, que necessitava de socorro, como também outras.

Mas isso não significa, de modo algum, que devêssemos abrir mão de um desenho que marcou fortemente a fisionomia da cidade, e principalmente, desrespeitar a autoria de uma bela obra executada e que perdurou por tanto tempo, como de fato ocorreu recentemente.

O que poderíamos ter feito: trabalhar por sua recomposição, já estudada, inclusive pelos próprios autores, contratados pela municipalidade para isso em 2004, quando revisaram e reorganizaram as proposições e arranjos originais adequando-os aos dias de hoje, sem destruir a estrutura do partido arquitetônico adotado inicialmente. Não só passeando em Copacabana, mas por dentro do Conjunto Nacional, podemos desfrutar desse belo material escolhido há mais de trinta anos e ainda presente: o mosaico português, com altos níveis de manutenção e, portanto, acessibilidade.

O que fez-se recentemente (2007): a contratação de empresas de engenharia para a troca de pisos da avenida, provavelmente pelos já internacionalizados pisos inter-travados, o que descaracteriza todo o partido arquitetônico de um projeto integrado realizado por profissionais da mais extrema competência. Estamos, assim, perdendo mais uma vez um de nossos ícones, mais próximo no tempo de cada um de nós, e impedindo que as gerações futuras desfrutem de uma bela composição paisagística de alicerces concretistas, que registra uma época em São Paulo e que marcou a nossa paisagem, na avenida escolhida como símbolo da cidade.

notas

1
KLIASS, Rosa Grena. Arquitetura Planejamento e Projetos Ltda. Projeto da Avenida Paulista, 2003.

2
KAHTOUNI, Saide. “Por um programa de recuperação ambiental de passeios públicos”. In Notícias da ABAP, n. 17, ano 2, São Paulo, ABAP, fev. 2001.

sobre o autor

Saide Kahtouni, arquiteta e urbanista, mestre e doutora pela FAU-USP

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