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minha cidade ISSN 1982-9922

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No carnaval carioca de 2011, o clima de confraternização no espaço público demonstrou o quanto é equivocada a postura de evitar o convívio entre classes sociais e econômicas distintas

como citar

JANOT, Luiz Fernando. Volta por cima. A confraternização de classes sociais no espaço público carioca. Minha Cidade, São Paulo, ano 11, n. 130.08, Vitruvius, maio 2011 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/11.130/3901>.



Não se pode negar que neste carnaval o Rio sacudiu a poeira e deu a volta por cima. Há muito tempo não se viam pelas ruas da cidade tanto riso e tanta alegria. O clima de confraternização no espaço público demonstrou o quanto é equivocada a postura de evitar o convívio entre classes sociais e econômicas distintas. Os blocos carnavalescos, superando eventuais preconceitos, promoveram uma verdadeira socialização espontânea e a revalorização da própria cidadania carioca.

De fato, a cidade botou o seu bloco na rua e mostrou disposição para encarar desafios que estão por vir. Inclusive, enfrentar democraticamente as críticas indignadas daqueles que não suportam conviver com a alegria das multidões e que não admitem abrir mão dos seus privilégios pessoais. Geralmente, são pessoas que não percebem que o alto valor pago do IPTU de seus imóveis não lhes confere o direito de se julgarem donos dos logradouros públicos. Outra argumentação crítica usada para abominar os blocos diz respeito à privação temporária do direito de ir e vir – de carro, obviamente. Se não podem abandonar o carro por um ou dois dias especiais por ano, que se programem melhor ou andem a pé até a esquina mais próxima para pegar um taxi. Mas, se efetivamente não gostam de ver o bloco passar, não se iludam, os seus filhos gostam.

Felizmente, o poder público vem dando o apoio necessário aos blocos de carnaval através do estabelecimento de regras básicas para o desfile e de uma programação destinada a compatibilizar sua presença com as demais atividades da cidade. Para isso, usou a Guarda Municipal para reprimir os excessos que geralmente acontecem em eventos com grandes aglomerações de pessoas. Atuou controlando o comércio ambulante, rebocando e multando carros estacionados irregularmente e levando para as delegacias centenas de mijões desleixados. Paralelamente, na retaguarda dos blocos, entravam em cena os garis da limpeza urbana recolhendo o lixo e varrendo as ruas juntamente com os catadores de latinhas recicláveis. Em suma, foi um carnaval de rua que ofereceu para a população do Rio e para os turistas um verdadeiro show de congraçamento e alegria coletiva sem cobrar nada por isso.

Apesar de reconhecermos todo o esforço em prol da organização dos eventos, não podemos deixar de apontar alguns aspectos negativos verificados nos locais por onde circularam os blocos. Dentre eles, as imensas filas para os banheiros químicos tornando impraticável a sua utilização como foi prevista - acrescente-se a sujeira no interior dos banheiros desestimulando o uso - a transformação dos canteiros e jardins de prédios em mictórios públicos, a presença de ladrões no meio dos blocos surrupiando carteiras e celulares e o barulho ensurdecedor nos pontos de concentração e dispersão, especialmente, quando o bloco ocupava ruas estreitas e residenciais.

No entanto, não se pode desprezar a experiência vivida nesse carnaval como referência para a organização de eventos semelhantes. Numa cidade com características sócio-culturais e urbanas como o Rio de Janeiro, qualquer iniciativa deverá ser precedida de um planejamento envolvendo os interesses coletivos da população e da imagem da própria cidade. No caso específico dos blocos carnavalescos seria de bom tom:

1) evitar a concentração excessiva que se verificou na zona sul;

2) impedir o desfile em ruas residenciais no interior dos bairros;

3) utilizar preferencialmente uma das pistas das avenidas da orla do Leblon ao Parque do Flamengo;

4) disponibilizar locais no centro da cidade para as grandes aglomerações em feriados e fins de semana;

5) criar um sistema de contêineres sanitários coletivos, controlados e higienizados permanentemente, no lugar dos módulos individuais de banheiros químicos;

6) organizar os vendedores ambulantes;

7) localizar estrategicamente ambulâncias para atendimento médico. De resto, manter o que deu certo.

É evidente que nenhuma medida proposta irá assegurar resultados definitivos. Mas, se forem bem sucedidas, certamente, estimularão o seu aperfeiçoamento e o hábito de cooperação entre as pessoas que desfrutam desses encontros festivos. Todavia, não se constrói um padrão de urbanidade da noite para o dia. Muito menos no Brasil, onde as cidades foram construídas sob o estigma do contraste social, econômico e cultural, desprezando os princípios fundamentais da cidadania. Essa prática rompeu a relação de solidariedade entre o indivíduo e a sociedade, dificultando a compreensão das transformações recentes e a aceitação das manifestações populares. A nosso ver, este é o grande desafio a ser enfrentado pela sociedade na vida cotidiana.

nota

NE
Publicação original: JANOT, Luiz Fernando. Volta por cima. O Globo, Rio de Janeiro, 19 fev. 2011.

sobre o autor

Luiz Fernando Janot é arquiteto e urbanista, professor da FAU-UFRJ.

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