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my city ISSN 1982-9922

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O Sanatório de Curicica, obra de Sergio Bernardes e integrante do inventário nacional patrimônio cultural da saúde, pode sofrer mutilações na construção incorreta de escolas de ensino fundamental, pois recebe pacientes tuberculosos com riscos de contágio.

how to quote

AMORA, Ana Albano; COSTA, Renato da Gama-Rosa ; MALAQUIAS, Thaysa. Sanatório de Curicica. Em perigo a obra exemplar do arquiteto Sergio Bernardes. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 173.02, Vitruvius, dez. 2014 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.173/5365>.



Em visita técnica ao Hospital Rafael de Paula Souza, antigo Sanatório de Curicica, durante a programação do 1º Seminário Internacional de História da Arquitetura Hospitalar – I SIHAH (1), realizado nos dias 11 e 12 de dezembro de 2014, os membros da Rede de Pesquisadores Latino-Americanos sobre Hospitais Pavilhonares (2) e demais colegas tiveram uma informação preocupante: o complexo hospitalar, que se encontra em processo de tombamento no nível municipal, está em perigo e poderá perder suas características de habitabilidade presentes no projeto e ter destruídas partes importantes da construção, aspectos que conferem a condição de projeto representativo das primeiras obras do arquiteto carioca Sergio Bernardes, quando este dirigiu o Setor de Arquitetura do Serviço Nacional de Tuberculose da Campanha Nacional Contra a Tuberculose.

Membros da rede e participantes do I SIHAH no Sanatório de Curicica
Foto Marinah Raposo

Para entendermos sua importância, é essencial que tenhamos em conta o conhecimento de seu legado histórico como parte da luta contra uma doença a nível nacional, além de ser uma edificação marcante de grande importância para a Arquitetura Moderna de Saúde, em que arquitetos conquistaram protagonismo no Brasil nos anos de 1950 (3).

Sanatório de Curicica, entrada do sanatório com área arborizada, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo

Em 1946, o Governo Federal intensificou a luta contra a tuberculose no país e instituiu a Campanha Nacional Contra a Tuberculose (CNCT), subordinada ao Serviço Nacional de Tuberculose (SNT), com a proposta de ser um órgão de caráter temporário até que se controlasse a doença nacionalmente. Estabeleceram um plano de combate à doença, com a construção de dispensários e sanatórios por todo o país entre as décadas de 1940 e 1950, com o objetivo não só de tratar, mas de isolar os doentes para evitar a propagação da enfermidade. Os hospitais da campanha deveriam ser construções econômicas e de baixo custo de manutenção (4).

Arquiteto brasileiro nascido no Rio de Janeiro, em 1919, Sergio Wladimir Bernardes, formou-se em 1948 na Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (FNA), hoje Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre 1949 e 1950, nos dois anos que sucederam sua formatura, Bernardes se tornou chefe do Setor de Arquitetura da Campanha Nacional Contra a Tuberculose – CNCT. Projetou nesse momento uma de suas primeiras obras, durante a gestão de Raphael de Paula Souza, médico especializado em tuberculose frente ao Serviço Nacional da Tuberculose - SNT. O Conjunto Sanatorial de Curicica, atualmente conhecido como Hospital Raphael de Paula Souza – HRPS (5), situado na Baixada de Jacarepaguá, na cidade do Rio de Janeiro, foi inaugurado em 25 de janeiro de 1952 (6). Ao observarmos o projeto e seu programa, podemos perceber sua preocupação em atender às necessidades do usuário e, nesse caso, o arejamento era de suma importância aproveitando-se das condições de ventilação e insolação do lugar. Os pátios entre os pavilhões e a vegetação do terreno, atualmente de grande porte, conferem um microclima ao lugar e promovem a circulação do ar, facilitada por fechamentos com elementos vazados.

Sanatório de Curicica, vista dos pátios, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo

O que nos assusta é o fato desse conjunto, que apresenta uma arquitetura com características de experimentação e de vanguarda para a época, estar em vias de perder algumas das suas partes e ter construído um muro de cerca de 5 m de altura em uma de suas laterais que faz limite com a área arborizada. Isso deverá impedir a ventilação, interferindo diretamente na qualidade da recuperação de pacientes que até hoje ainda se tratam no hospital.

Sanatório de Curicica, tapume invadindo a área dos pavilhões, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo

A justificativa para esse descalabro é a implantação no terreno, em que se terá destruído partes do complexo e as árvores de grande porte, de escolas de ensino fundamental, que são parte do Programa Municipal “Escola do Amanhã”. Consideramos esta mais uma escolha inadequada, pois no hospital encontram-se pacientes de risco, usuário de crack e com tuberculose, doença que no primeiro mês de internamento é extremamente contagiosa. Daí a importância da permanência do isolamento dos pacientes prevista já no programa da CNCT, estabelecida pela edificação, conforme sua localização e implantação. Assim, o local, além do que foi elencado acima acerca do valor histórico do conjunto, não é compatível com o uso do espaço por crianças menores e escolas.

Sanatório de Curicica, pavilhões em processo de demolição, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo

Consideramos louvável o Programa Municipal “Escola do Amanhã” da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro que se dispõe a construir escolas em uma região da cidade com grandes carências, já que o IDH do bairro é um dos mais baixos do município. Entretanto, a sua localização é inadequada, em um lugar que carrega parte da nossa história e tem uma importante função no presente. É preciso compreender que não se constrói o amanhã sem conhecimento e respeito ao passado.

Sanatório de Curicica, tapume dividindo a área arborizada onde se localiza a capela, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo

O Sanatório de Curicica é uma das obras mais conhecidas da trajetória do arquiteto Sérgio Bernardes na CNCT, onde atuou até 1959. Sua importância histórica como patrimônio moderno da saúde vem sendo estabelecida desde 2007 com a sua inclusão no Inventario Nacional do Patrimônio Cultural da Saúde, desenvolvido nacionalmente pela Casa de Oswaldo Cruz – COC, da Fiocruz (7). Deve-se destacar ainda dele estar listado no inventário do Docomomo Internacional, o chamado Homework 2012, cujo tema foi o da arquitetura hospitalar (8).

Sanatório de Curicica, tapume divisório com a propaganda do programa Escola do Amanhã, Rio de Janeiro. Arquiteto Sergio Bernardes
Foto Marinah Raposo


Este complexo hospitalar, junto com a Colônia Juliano Moreira (1924), atual Instituto Municipal de Assistência a Saúde Juliano Moreira (IMASJM), a Colônia Curupaiti (1929) e o Hospital Sanatório Santa Maria (1945), participam da história da localização dos hospitais de isolamento na cidade do Rio de Janeiro, que foram implantados ao longo da primeira metade do século 20 na baixada de Jacarepaguá (9).

É urgente a suspensão das obras, a preservação do complexo hospitalar e a recuperação dos danos a esse patrimônio representativo para a História da Arquitetura, para a História das Ciências e para a cidade do Rio de Janeiro. Não esqueçamos ainda de dar o do devido respeito a médicos, e demais profissional de saúde, e pacientes do hospital, além das famílias cujos filhos serão os alunos das futuras escolas propostas pelo programa da prefeitura.

notas

1
Realizado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – FAU, da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, e promovido pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura – Proarq, e Casa de Oswaldo Cruz – COC, da Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz.

2
Maria Lilia Gonzales (Unam – México), Claudio Galeno (Universidad Catolica del Norte – Chile), Alicia Campos G. (Universidad de Chile – Chile), Carlos Nieto (Pontificia Universidad Javeriana – Colômbia), Laura Alecrim (UFPE, MDU – Brasil), Ana Albano Amora (Proarq, UFRJ – Brasil), Renato da Gama-Rosa Costa (COC/Fiocruz – Brasil). Além de alunos de graduação e pós-graduação e profissionais contamos, nessa visita, com a presença de Kykah Bernardes, viúva do arquiteto, que vem travando uma batalha para preservar sua obra.

3
O arquiteto Sérgio Bernardes faz parte de uma segunda geração de arquitetos que se dedicou a projetar hospitais e demais edifícios para a saúde. Essa geração já teria conquistado relativa autonomia no campo da saúde, impondo o processo de produção arquitetônica sobre os pressupostos da medicina. Essa autonomia é demarcada, sobretudo, pelo Curso de Planejamento Hospitalar realizado em 1953 pelo IAB de São Paulo. Ver: AMORA, Ana M. G. Albano. O engenheiro e o hospital moderno – a vanguarda de Vicente Licínio Cardoso para a moderna arquitetura hospitalar no Brasil. Anais do III Enanparq – Encontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo. São Paulo, Universidade Mackenzie, 2014. Sobre o projeto e o tema geral da arquitetura hospitalar, ver: COSTA, Renato da Gama-Rosa. Patrimônio moderno da saúde e os desafios para a sua valorização – O exemplo do Rio de Janeiro. Disponível em: <www.docomomo.org.br/seminario%208%20pdfs/160.pdf>. Acesso em: 14 de julho 2014.

4
COSTA, Renato da Gama-Rosa; PESSOA, Alexandre; MELLO, Estefânia Neiva de; NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. O sanatório de Curicica: Uma obra pouco conhecida de Sérgio Bernardes. Arquitextos, São Paulo, ano 03, n. 026.02, Vitruvius, jul. 2002 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/03.026/766>. Acesso em: 14 de julho 2014.

5
O médico tisiologista Raphael de Paula Souza (1902-99) foi empossado em 11 de março de 1946 como diretor do Serviço Nacional da Tuberculose – SNT. Permaneceu no cargo até 1950, período que se registrou a construção do maior número de sanatórios no Brasil. Ver: BITTENCOURT, Tania Maria Mota. Peste Branca – arquitetura branca: os sanatórios de tuberculose no Brasil na primeira metade do século vinte. Dissertação de mestrado. São Carlos, Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo, 2000.

6
COSTA, Renato da Gama-Rosa; PESSOA, Alexandre; MELLO, Estefânia Neiva de; NASCIMENTO, Dilene Raimundo do. Op. cit.

7
Ver PORTO, Ângela; SANGLARD, Gisele; FONSECA, Maria Rachel F.; COSTA, Renato Gama-Rosa (Org.). História da saúde no Rio de Janeiro: instituições e patrimônio arquitetônico (1808-1958). Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2008.

8
Ver Homework 2012 <http://www.docomomo.org.br/>.

9
COSTA, Renato Gama-Rosa; AMORA, Ana M. G. A; FILGUEIRAS, Sara Cabral. A saúde e a cidade: o bairro de Jacarepaguá e o hospital de isolamento para doentes mentais. In SANGLARD, Gisele; ARAÚJO, Carlos Eduardo Moreira de; SIQUEIRA, José Jorge. (Org.). História urbana: cultura, memória e sociedade. Volume 1. Rio de Janeiro, Editora da Fundação Getulio Vargas, 2013, p. 279-300.

sobre os autores

Ana Albano Amora é arquiteta, doutora em Planejamento Urbano e Regional pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2006). É professora e pesquisadora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Proarq da UFRJ, onde coordena o LabLugares. É colaboradora do curso latu sensu de Gestão e Preservação do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz.

Renato da Gama-Rosa Costa é arquiteto, doutor em Urbanismo Prourb/UFRJ (2006), doutorado sanduiche no Institut dUrbanisme de Paris (2004) e pós-doutorado pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (2014). Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/FIOCRUZ. Coordenador do curso latu sensu de Gestão e Preservação do Patrimônio Cultural das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz. Professor do Curso de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz).

Thaysa Malaquias é arquiteta pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (2013). Colabora na pesquisa sobre a atuação do arquiteto Sergio Bernardes na CNCT, junto ao Lab.Lugares.

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