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my city ISSN 1982-9922

abstracts

português
Enquanto um antigo complexo cultural da cidade de Campinas/SP está abandonado a própria sorte, a administração local decide construir um teatro de ópera em um degradado parque da cidade.

english
While an ancient cultural complex in the city of Campinas/SP is abandoned to their own luck, the local government decides to build an opera house in a dilapidated city park.

español
Mientras un antiguo complexo cultural de la ciudad de Campinas/SP se encuentra echado a propia suerte, la administración local decide por construir un teatro de ópera en un degradado parque de la ciudad.

how to quote

BOTTURA, Roberto. A sorte da ópera burguesa versus a má-sorte da convivência cultural. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 177.02, Vitruvius, abr. 2015 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.177/5480>.



“O homem que disse ‘Eu prefiro ter sorte do que ser bom’ enxergou a vida de forma profunda. As pessoas têm medo de encarar que uma grande parte da vida é dependente da sorte. É assustador pensar que há tanta coisa fora de nosso controle... Há momentos, num jogo de tênis, que a bola atinge o topo da rede e por uma fração de segundo ela pode avançar ou retroceder. Com um pouco de sorte ela vai em frente e você ganha. Ou não, e você perde".
Diálogo inicial do filme Match Point, de Woody Allen

Não é à toa que Woody Allen, em um de seus mais brilhantes filmes, dedica à sorte e à ópera como pano de fundo para a corrupção moral que corrói o personagem lentamente ao longo da história. A sorte pode ser o elemento definidor do destino de uma pessoa ou de um lugar. Se um edifício cai na graça de um investidor ou da administração pública, está com sorte. Se não, nada lhe resta a não ser o abandono. A ópera é o símbolo máximo do reduto da burguesia que – finalmente – se tornou aristocrática com a modernidade. No filme de Woody Allen, com ecos de Dostoievski, fica claro que ter sorte não significa necessariamente ser íntegro. É o jogo do engano que esconde ocultas ambições materialistas. Em uma tragédia operística, a história pode ter muitas nuances...

Mobiliário urbano no Parque Ecológico encontra-se abandonado e sem utilização
Foto Roberto Bottura

Me surpreendo quando leio a notícia de que a cidade de Campinas SP finalmente ganhará um teatro de ópera. Que sorte! O local proposto: o abandonado Parque Ecológico Monsenhor Emílio José Salim. O arquiteto: Carlos Bratke. A instituição que está por trás do projeto: o megagrupo de incorporação imobiliária de alto padrão Swiss Park.

Em 15 de Dezembro de 2014, a notícia no jornal local Correio Popular (1) foi a da assinatura do convênio para a revitalização e municipalização do Parque Ecológico – uma medida urgentíssima, diga-se de passagem – junto ao anúncio da licitação para a construção de um teatro de ópera ao custo de 80 milhões de reais. Estavam presentes o governador do estado Geraldo Alckmin e o prefeito Jonas Donizette. Na reportagem, mencionava-se (ou justificava-se) o antigo teatro de ópera Carlos Gomes, demolido no começo do século passado após um misterioso incêndio cuja cidade desde então permaneceu sem seu tradicional reduto burguês. Essa vontade de dotar a cidade de um novo teatro de ópera é antiga, tendo tomado contornos surreais em uma cidade que nada tem a ver com esse tipo de produção e que abandona a própria sorte outros edifícios culturais já edificados, um deles – inclusive – autêntico representante da arquitetura moderna brasileira premiado internacionalmente.

O belo casarão que antes era um restaurante na frente do lago, hoje está aberto entregue ao vandalismo
Foto Roberto Bottura

Não se sabe ao certo em qual universo vivem os governantes e os investidores que instigam tal proposta, mas uma coisa é certa: passam longe de qualquer ideal democrático, afastados do que um dia a disciplina do urbanismo pregou como integração de uma metrópole e cuja arquitetura, que por seu histórico recente deveria ser um instrumento para contribuir com uma cidadania universal, hoje retorna a sua ancestral vocação de suporte para os devaneios políticos de uma pequena classe da população.

O interior do casarão
Foto Roberto Bottura

Vejamos os fatos:

A situação que se encontra o Parque Ecológico é lamentável. Qualquer habitante da cidade que não se conforme com a diversão elitizada dos shopping-centers locais (cada um com seu respectivo complexo de cinemas e alguns com salas de teatro) percebe a falta de políticas públicas que possibilitem opções culturais mais democráticas em espaços de livre acesso a população.

Atualmente, dois principais usos se apropriam da gigante estrutura do parque: a feira de orgânicos que ocorre aos domingos de manhã no estacionamento asfaltado de acesso ao parque, e os encontros de carros antigos que ocorrem alguns domingos por ano, também no mesmo estacionamento de acesso. Soa como um absurdo que a principal área de utilização dos dois eventos ícone do Parque seja um mero estacionamento, longe do verde, das construções e da vegetação que um dia foi um paisagismo projetado por Burle Marx, em sua inauguração em 1987.

Edifício sem utilização no Parque Ecológico
Foto Roberto Bottura

Em respeito à feira de orgânicos, ao invés da Prefeitura estimular esse brilhante uso, podendo-se valer, inclusive, da publicidade em torno da “moda” do ecologicamente correto, vez ou outra a ameaça com a expulsão dos feirantes. E toca aos organizadores e algumas centenas de frequentadores recolher assinaturas em abaixo-assinados, fazer protestos virtuais via facebook e colocar faixas no local. Não é preciso ir muito longe para imaginar o que seria uma feira dessa característica em um parque público urbano apoiado pela municipalidade: todos os fins de semana no Parque da Água Branca, em São Paulo, um mercado de orgânicos é instalado nos antigos galpões existentes e ali ocorrem diversas atividades para pessoas de todas as faixas etárias, inclusive bailes diurnos para a terceira idade. Comidas saudáveis, compras conscientes, danças, esporte, integração de pequenos produtores, enfim, todo o parque é sabiamente adaptado para esse evento.

Vista externa do conjunto de apoio ao Parque, onde antes eram lanchonetes, lojas e sanitários
Foto Roberto Bottura

Para se ter uma ideia da crise cultural que passa a cidade de Campinas, a companhia teatral local LUME, internacionalmente reconhecida, até hoje batalha por uma sede própria à altura de seu valor, deixando inclusive de trazer com mais frequência companhias internacionais parceiras por falta de um espaço adequado e de financiamento público (como o renomado Feverestival que esteve fora de cartaz por alguns anos e acontece em 2015). Em 2012, por ventura da inauguração do Teatro Castro Mendes em Campinas (outro impasse da Prefeitura que se limita a “entregar” um edifício a cidade, esquecendo-se de vincula-lo a políticas culturais e ações de preservação por meio de manutenção física e intelectual), o LUME promoveu o evento Desinauguração do Teatro Castro Mendes, onde manifestava no convite: “Devido à ausência de políticas públicas para a cultura de Campinas – que se reflete no abandono dos teatros municipais –, o LUME vai estar entre os 12 grupos que se apresentarão na ‘Desinauguração do Teatro Castro Mendes’, no dia 15 de Março, 18hs, com o cortejo cênico-musical ‘Parada de Rua’. A ação é organizada pelo movimento Levante Cultura”.

Vista externa do conjunto de apoio ao Parque, onde antes eram lanchonetes, lojas e sanitários
Foto Roberto Bottura

Já que estamos falando de abandono, o descaso com o Centro de Convivência Cultural é o falido contraponto desse tendencioso interesse em inaugurar um teatro de ópera em Campinas.

Com refinado projeto brutalista do arquiteto campineiro Fábio Penteado (2), alocado em um dos tecidos urbanos mais agradáveis da cidade, o Centro de Convivência Cultural segue abandonado. É a face chocante das políticas neoliberais na cidade, onde os teatros dos shoppings garantem diversão em suas ilhas de consumo elitizadas enquanto as estruturas municipais são deixadas ao relento à espera de sorte. Suas salas de apresentação, galerias expositivas, o café e o antigo espaço de ensaio da Orquestra Sinfônica Municipal permanecem sem utilização, fechados e entregues as infiltrações de um concreto armado que desde sua inauguração em 1968 nunca recebeu uma só manutenção em suas estruturas internas. No final de 2014, uma placa anuncia “Início dos projetos de revitalização do Centro de Convivência Cultural” (!) com a logomarca da construtora/incorporadora Rossi, em destaque. Não se sabe ao certo que tipo de publicidade significa o “inicio” de algum projeto, mas talvez sirva de consolo no psicológico de quem assiste a degradação dessa joia da arquitetura ao longo dos três últimos anos em que permanece lacrado. A mensagem oculta é a de que quem está no comando são os incorporadores imobiliários, seja no Teatro de Ópera (financiado pelo grupo Swiss Park) como pela suposta “revitalização” do Centro de Convivência. Pelo menos, por enquanto, o antigo desejo de Fábio Penteado de democratizar o espaço público por meio do teatro de arena do Centro de Convivência Cultural segue sendo realizado: o espaço externo do complexo é o único que sobrevive, mesmo que em precárias condições (ainda que recentemente o teatro de arena tenha sido reinaugurado, com a Prefeitura afirmando que não corre risco de desabamento!), mas utilizado por jovens, crianças, senhores e senhoras do bairro, além de receber a tradicional Feira Hippie aos fins de semana. Como manifestou Fábio, que ali seja “um espaço aberto para o encontro e o convívio, onde se pode ficar à vontade, vadiar, ler, descansar, namorar, assistir à espetáculos artísticos e esportivos, participar de manifestações públicas...” (3).

Vista do deck, na área antes dedicada a lanchonetes na frente do lago
Foto Roberto Bottura

Ao invés da Prefeitura se esforçar em recuperar um complexo cultural, como esse, já inserido em um contexto com ativa vida urbana junto a bares, restaurantes e intenso comércio local, prefere criar uma gigantesca estrutura do zero, em meio a um parque ecológico na entrada da cidade.

Vista do deck, na área antes dedicada a lanchonetes na frente do lago
Foto Roberto Bottura

Enquanto, no Centro de Convivência Cultural, Fábio Penteado se preocupou em criar uma arquitetura que não segregasse a população, o Teatro de Ópera de Carlos Bratke nada fica a dever das tradicionais casas de espetáculos, ou seja, fechada em si mesma reforçando a escala do grandioso e do monumental, que é a mesma escala das superproduções de caros ingressos que acontecem um ou dois dias por semana, num esquema casa-carro-estacionamento.

Triste abandono no conjunto de apoio ao Parque
Foto Roberto Bottura

Se o Centro de Fábio Penteado subverteu a hierarquia da arte, “enterrando” as grandes produções nas salas pelo subsolo e liberando o térreo da cidade para uma grande praça aberta com um teatro de arena para o povo, a Ópera de Bratke é um mastodonte de 7 pavimentos com cheiro a naftalina, que na sua sala de palco italiano para 1.230 mil pessoas, não reverte nenhum conceito tradicional em prol do cotidiano dos habitantes da cidade. É mais do mesmo. Como diz Lampedusa, em Il Gatopardo “é preciso mudar algo, para que tudo permaneça do jeito que está”.

Triste abandono no conjunto de apoio ao Parque
Foto Roberto Bottura

A salvação do Parque Ecológico é extremamente necessária, porém, voltada para o lazer do dia-a-dia e para usos que sejam um respiro para a brusca vida na metrópole como o esporte, o relax na natureza, as feiras e as atividades integradoras. Dotar esse espaço de um teatro de ópera é não prestar atenção nas reais necessidades da população, valendo-se de um projeto midiático para transparecer algum avanço cultural mas que significa nada além do que um atraso no modo de se fazer cidade.

Triste abandono no conjunto de apoio ao Parque
Foto Roberto Bottura

Peço a administração pública que o Centro de Convivência Cultural tenha mais sorte, requalificando seus belos espaços e inserindo-o dentro de uma política cultural consistente que atenda aos mais diversos coletivos artísticos da cidade. Pode-se ali, inclusive, instalar o recém-fechado Cine de arte Topázio nos moldes da Filmoteca da Catalunha (em eficiente projeto de Josep Lluis Mateo, no Raval de Barcelona) e, se sobrar alguns milhões, a modo de mea culpa, que construam o excelente projeto para um teatro de ópera, do mesmo Fábio Penteado, apresentado em concurso em 1966 e em seu momento premiado com a grande medalha de ouro da I Quadrienal Mundial de Teatro de Praga. A diferença com o projeto de Bratke é que o de Penteado, apropriando-se da linguagem formal dos circos populares, está inserido nos mais altos desígnios humanistas que um dia a arquitetura ousou alcançar, ou seja, está pensado para integrar os habitantes, trabalhando na escala da cidade buscando reconstituir a consciência do coletivo na multidão da metrópole.

Área do Parque onde alguns corajosos moradores do entorno comparecem para uma caminhada
Foto Roberto Bottura

notas

1
REDAÇÃO. Parque Ecológico é do Município e Estado apressa o teatro. Correio Popular, Campinas, 15 dez. 2014 <http://correio.rac.com.br/_conteudo/2014/12/capa/campinas_e_rmc/229972-parque-ecologico-e-do-municipio-e-estado-apressa-o-teatro.html>.

2
Sobre o projeto, ver: GIROTO, Ivo Renato. A Praça é o povo. A arquitetura de Fábio Penteado. Docomomo in: http://www.docomomo.org.br/seminario%208%20pdfs/026.pdf

3
PENTEADO, Fábio. Fábio Penteado. Ensaios de arquitetura. São Paulo, Empresa das Artes, 1998, p. 100.

sobre o autor

Roberto Bottura é arquiteto e urbanista, formado pela PUC-Campinas e mestre em Teoria e História da Arquitetura pela Universitat Politècnica de Catalunya. Se interessa pelas relações entre cidade, poder e arquitetura.

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