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my city ISSN 1982-9922

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Com novas gerações à frente de coletivos voltados para a apropriação dos espaços públicos, a cidade de São Paulo vivencia uma nova etapa de desenvolvimento urbano, com novos parâmetros, conceitos e ações por parte da sociedade civil.

how to quote

SOBRAL, Laura. Primavera paulistana. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 182.05, Vitruvius, set. 2015 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.182/5700>.



Em um momento que a internet abre janelas para tantos lugares do mundo com mais qualidade de vida, onde os voos baratos nos levam à cidades mais agradáveis, seguras e justas, a carranca da São Paulo nervosa, engarrafada e poluída cola cada vez menos.

Na nossa cidade cromofóbica, a regra até ontem era se isolar, o enclausuramento só aumentando a tensão e o medo.

A geração Y, com amplo acesso à informação e movida por propósitos pessoais ligados à melhora do mundo – ou melhor dizendo, à salvação do homem do que ele mesmo criou – não aceita viver em uma cidade como São Paulo mantendo os braços cruzados. Citando o arquiteto e professor da USP Guilherme Wisnik, "se no período do industrialismo do pós-guerra, os espaços públicos foram sacrificados pelas rodovias, agora é o momento contrário, dessas estruturas rodoviárias serem sacrificadas e retomadas em nome do uso público". O espaço público é onde novas concepções e configurações de vida urbana podem ser pensadas e construídas, onde a cidade pode se reinventar.

Estamos vivendo um sentimento de urgência em relação à cidade. Uma vez que é emergente, dentro de parte da sociedade civil, a busca por ser agente gerador do que é o urbano, segue-se a busca de quais são os processos que regem a cidade: quem constrói nossas cidades, para quê e para quem?

Provocadas por esses e outros questionamentos despontam iniciativas que propõem transformar a dinâmica urbana pela ampliação do vocabulário do que pode ser essa cidade, alimentando o imaginário da cidade que queremos. Jovens lideram uma série de movimentos que têm como objetivo a participação da sociedade civil na produção da cidade. A ocupação de espaços públicos emblemáticos tem mobilizado milhares de cidadãos, em movimentos que propõem novas formas de usar, ressignificando esses lugares.

Ter mais vida nas ruas – mais gente e menos carros – faz com que a atmosfera de uma cidade melhore. Quando se faz referência a uma cidade muitas vezes nossas lembranças nos levam ao "lado de fora", aos seus espaços públicos. É no caminhar do pedestre que a cidade dá o seu recado, gravando na memória as belas ruas de Paris, as mesinhas na calçada dos cafés de Buenos Aires, as fachadas dos arranha-céus que emolduram a paisagem de Chicago.

Um grupo de amigos pula corda e um bebê brinca enquanto amigas adolescentes tomam sol de biquini. Seria uma descrição normal para uma tarde de domingo no Parque Ibirapuera, mas aconteceu no asfalto da Avenida Paulista no último dia 23. Essa foi a segunda vez que a Paulista recentemente esteve aberta para as pessoas e já há várias movimentações pedindo mais. Um exemplo é o manifesto contra a judicialização de políticas públicas pelo Ministério Público Estadual (MPE) – que abriu inquérito sobre a abertura da Avenida Paulista para lazer aos domingos – assinado por diversas organizações da sociedade civil (1).

São Paulo não está sozinha nessa ideia de melhorar e ativar seus espaços públicos, esse é um movimento global das metrópoles. No dia 27 de setembro Paris abrirá suas principais avenidas para os pedestres durante um dia inteiro em ação inédita.

Certamente essa primavera paulistana envolve um pouco da intensa energia comunitária que floresceu nos anos de chumbo. Os movimentos contemporâneos buscam uma religação afetiva com os espaços degradados ou abandonados da cidade, com o que foi expulso ou esquecido. O que hoje se apresenta de forma corriqueira na cidade de São Paulo, a mobilização de milhares de pessoas pela reivindicação pelo Parque Augusta ou em torno da polêmica do destino do Minhocão, acontece no mesmo cenário que há menos de 50 anos foi proibido que os cidadãos se expressassem livremente. Era inimaginável a atuação firme de movimentos que questionassem os rumos do desenvolvimento urbano de São Paulo. Somos destreinados em pensar a cidade de maneira ampla, mas estamos aprendendo rápido.

Uma dura realidade é que se no Centro ainda ocorrem cenas de repressão dignas dos anos militares, são ainda mais frequentemente nas bordas da cidade. Com tantos grupos mobilizados quanto no Centro, a periferia resiste em achar no seu cotidiano a democracia que pretendemos. A atividade de muitos movimentos pró-cidadania ainda são taxadas como criminosas.


Domingo na Avenida Paulista
Vídeo Abilio Guerra

Ainda temos um longo caminho a percorrer, mas é inegável que há uma onda otimista em relação a São Paulo, nossos corações se enchendo de esperança quando ouvimos que o rio Tamisa, em Londres, era um rio biologicamente morto que reviveu em menos de 50 anos. Ou que tal cidade asiática substituiu suas marginais entupidas de carros por um lindo parque linear.

Crescemos achando que em São Paulo lazer era ir ao shopping e que para se deslocar bem era indispensável ter um carro. Hoje é possível pensarmos em outros destinos pra capital paulista.

O que precisamos fazer para que essa ânsia por uma cidade melhor não seja apenas uma onda passageira mas sim uma real mudança de paradigma?

Mais necessário que essa resposta é nos mantermos fazendo perguntas, é buscarmos a cidade que queremos na selva de pedra nossa de todo dia. O futuro de São Paulo estamos todos construindo cotidianamente.

notas

NE – Publicação original: SOBRAL, Laura. Primavera paulistana. Caderno Aliás. Estado de S.Paulo, 29 ago. 2015 <http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,primavera-paulistana,1752689>.

1
Em reunião na sexta-feira 4 de setembro, a Prefeitura e o Ministério Público fizeram um acordo para viabilizar a abertura da Avenida Paulista para ciclistas e pedestres aos domingos. Os promotores sugeriram que a medida seja estendida para vias da periferia e que o tema seja discutido com a população em audiências públicas.

sobre a autora

Laura Sobral é urbanista, ativa nos movimentos que buscam a melhora de São Paulo e membro do Instituto A Cidade Precisa de Você que tem como foco os espaços públicos.

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