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my city ISSN 1982-9922

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português
Aldo Paviani fala sobre o desemprego na capital brasileira: em tempos de crise, o aumento do número de desempregados faz necessário o aprofundamento das pesquisas para o encontro de outros parâmetros e indicadores da desigualdade sócio-espacial.

how to quote

PAVIANI, Aldo. Raízes da desigualdade socioespacial. Emprego e desemprego em Brasília. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 231.04, Vitruvius, out. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.231/7511>.



Pode-se prever o comportamento das atividades econômicas em tempos de crise e instabilidade política? Nesse sentido, é desafiador antever se haverá expansão das ocupações econômicas de Brasília e de sua área metropolitana (1), expandida além limites externos do Distrito Federal – DF (2). Contudo, há pesquisas realizadas que nos fornecem dados sobre o emprego e desemprego na atualidade, que podem colaborar com a necessária reavaliação de rumos a seguir, isto é, embasar planos, programas e ações de planejamento. A primeira questão a examinar é o constante aumento da População Economicamente Ativa – PEA. Essa segue o incremento populacional do Distrito Federal, que supera os 3,015 milhões de habitantes, segundo estimativas recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Edifícios do Setor Bancário Sul do PP, Brasília DF Brasil
Foto Aldo Paviani

A esse montante, acrescentem-se os moradores da periferia metropolitana, cerca de 1,2 milhão de pessoas existentes em doze municípios goianos próximos (3). A Pesquisa Metropolitana por Amostra de Domicílios da Companhia De Planejamento Do Distrito Federal – Pmad / Codeplan indica que esses municípios dependem do mercado de trabalho e dos serviços oferecidos por Brasília. Com isso, temos uma metrópole de mais de quatro milhões de habitantes e um quadro de atividades pouco elástico, isto é, a população urbana cresce mais do que o surgimento de novas oportunidades de trabalho, como ficará evidente, a seguir.

Evolução do desemprego metropolitano

Os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED (4) atestam que, em 2018, a PEA somava 1,653 milhão de pessoas; estavam empregados 1,346 milhão, enquanto se estimou em 307 mil o total de desempregados ou 18,6% da PEA, uma das mais elevadas taxas em relação às demais metrópoles brasileiras. Embora essa taxa seja inferior à de 2017 – 19,3% – há preocupação com o fato de o desemprego ir se elevando ao longo dos anos. Para uma avaliação, em março de 1997, a taxa de desemprego, em Brasília, atingiu 18% e era a segunda mais alta em seis metrópoles onde a pesquisa era realizada, apenas abaixo de Salvador, 20,9%. Nas outras metrópoles, as taxas eram as seguintes: Belo Horizonte, 13,3%; Curitiba, 14,4%; Porto Alegre, 13,5% (a mais baixa) e a grande metrópole de São Paulo, 15% ou 1,409 milhão desempregados no mesmo mês e ano. Já no ano de 2.000, o desemprego em Brasília atingiu 19,6%, caindo para 15,9%, em 2009, a mais baixa em duas décadas. Também para efeito de comparação, a PED de agosto de 2019, revela que o desemprego atingiu 18,3% da PEA – 1,711 milhão de pessoas, das quais 1,398 milhão estava ocupado, e 313 mil desempregados.

Novo edifício de escritórios no Setor Comercial Norte do Plano Piloto, Brasília DF Brasil
Foto Aldo Paviani

Abre-se parênteses para informar que, ante a crise econômica e política e de acordo com os resultados negativos apresentados pelas PEDs, várias metrópoles deixaram de realizar as respectivas PEDs. Ao longo dos últimos anos, havia possibilidade de comparar as pesquisas de emprego e desemprego de 6 metrópoles, depois quatro e, em agosto de 2019, apenas São Paulo, Brasília e Salvador realizam PEDs. Ao concluir esse artigo, noticiou-se que São Paulo descontinuou a respectiva PED de setembro de 2019. Com isso, restará Salvador, uma vez que o DF interromperá sua PED até nova licitação, no final do ano (5).

Ressalte-se que as PEDs são importantes para se entender o desempenho e a evolução das atividades econômicas das metrópoles, as estimativas dos ocupados, segundo a posição na ocupação, quais os que são contratados com carteira e sem carteira, quantos autônomos, quantos empregadores, quantos empregados domésticos e o montante de assalariados do setor privado e do setor público. Quer dizer, uma cobertura estatística confiável e extremamente válida para as políticas públicas, gestão e orientação para o setor privado da economia. Consideram-se as PEDs marcantes para a tomada de decisões e estabelecer os caminhos a seguir.

Desemprego e desigualdade socioespacial na Capital Federal

No caso de Brasília, há duas constatações: a) que há aumento do número de jovens que se apresentam para trabalhar, sem que surjam atividades novas no mercado de trabalho; b) que há desigualdades socioespaciais, pois o emprego não está distribuído de forma homogênea no território do DF. As PEDs classificam as Regiões Administrativas – RAs do Distrito Federal por faixas de renda, divididas em quatro grupos. Na faixa de renda mais alta – o Grupo 1 (6) – o centro metropolitano, apresentou a mais baixa taxa de desemprego, em 2018 – 8,4% e de 8,2% no semestre de março a agosto de 2019. Na faixa seguinte, de média-alta renda – Grupo 2 – o desemprego, em agosto de 2019 foi de 16,2%. No Grupo 3, de média-baixa renda, o desemprego foi estimado em 22,3% – muito superior ao Grupo de alta renda. No Grupo 4, de mais baixa renda, o desemprego é de 24,6% da PEA ou quase três vezes superior ao Grupo 1. Esses números mostram que os lugares mais pobres do Distrito Federal (Grupo 4) – Fercal, Itapoã, Paranoá, Recanto das Emas, Estrutural, SCIA e Varjão – devem receber atenções e políticas públicas para que desenvolvam atividades e ocupem a população no próprio local de moradia. O mesmo é recomendável ao Grupo 3, de média-baixa renda – Brazlândia, Ceilândia, Planaltina, Riacho Fundo, Samambaia, Riacho Fundo 2, Santa Maria e São Sebastião, que igualmente dependem do Grupo 1 (Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte, Jardim Botânico, Park Way e Sudeste/Octogonal) para exercer atividades e procurar serviços de vários tipos. Saliente-se que o centro metropolitano concentra 41,2% das atividades do Distrito Federal, segundo a Pdad/Codeplan, 2018. O Grupo 2 – de média-alta renda é composto por Águas Claras, Candangolândia, Cruzeiro, Gama, Guará, Sobradinho, Sobradinho II, Taguatinga e Vicente Pires é diverso quanto à dependência ao núcleo central, pois possui distâncias desiguais em relação ao Grupo 1.

Conclui-se que: 1 – há necessidade de descentralizar atividades para as localidades dos Grupos 3 e 4, como referido, para que possam ofertar atividades econômicas; 2 – há fortes evidências de que o atual perfil de atividades no Distrito Federal se esgotou e passa a exigir mudanças para a alteração do padrão até agora estabelecido; 3 – existem fortes evidência das desigualdades socioespaciais no Distrito Federal, em razão do desequilíbrio na oferta das atividades nos núcleos de 2, 3 e 4, o que os mantém dependentes do núcleo metropolitano, como demonstrado.

Visão ampla da parte superior da Rodoviária do Plano Piloto, com Conjunto Nacional (à esquerda) e ao fundo o Setor Bancário Norte; à direita, o Teatro Nacional, projeto de Oscar Niemayer
Foto Aldo Paviani

Rendimentos e desemprego no Distrito Federal: disparidades salariais

Pesquisas realizadas no Distrito Federal, a respeito do emprego/desemprego, mostram o aumento do número de jovens que ingressam no mercado de trabalho sem que surjam atividades para abrigar esses novos trabalhadores. Essa constatação pode ser percebida em razão da crise econômica que é mais acentuada em algumas regiões do território brasileiro. Nas economias desenvolvidas há superação dos tropeços de 2008 e avançam com o uso de tecnologias inovadoras para a evolução suas economias.

Voltando à temática do título, como estará o trabalho e os respectivos ganhos salariais na Capital Federal em datas recentes? Comparando os valores de agosto de 2017 com os de 2018, notam-se pequenas alterações: os assalariados do Setor Privado auferiram ganhos mensais assemelhados de R$ 3.833,00, em relação a 2018, em que os valores eram de R$ 3.842,00. Quanto ao Setor Público, no mês de setembro, houve mudanças: de R$ 8.052,00, em 2017, comparativamente a 2018, quando se reduziu a R$ 7.740,00. No que diz respeito aos empregadores, os rendimentos médios elevaram-se de R$ 7.198,00, em 2017, para R$ 7.205,00, em 2018. Todavia, o que é digno de nota é a discrepância entre o Setor Privado em relação ao Setor Público, com diferencial de quase duas vezes, a favor do Setor Público. A última PED de 2019, traz os seguintes valores: os 10% mais pobres – auferiram R$ 615,00 em julho de 2018 e R$ 659,00 em julho de 2019, com pequeno acréscimo. Já os 10% mais ricos auferiram R$ 13.397,00 reais em julho de 2018 e R$ 14.715,00, em julho de 2019, com ganhos elevados, o que torna o emprego público mais atrativo.

A condição de desemprego, comparando 2017 e 2018, mostra pequeno aumento de ocupados: eram, respectivamente, 1,319 mil e 1,346 mil pessoas, respectivamente, rebatendo-se na redução do número de desempregados: 315 mil, em 2017 e 307mil, em 2018. Essa comparação revela, não sem surpresa, a queda da taxa de desemprego, que era ascendente nos últimos anos. A PED não revela as maiores causas dessa redução do número de desempregados nos anos indicados. Uma pista pode ser encontrada nos dados de desemprego por características pessoais e experiência de trabalho das pessoas. Em relação ao sexo, houve decréscimo dos homens sem emprego: de 17,6%, em 2017 para 16,8%, em 2018. A PED de agosto de 2019 mostra que houve redução da taxa de desemprego entre os homens, de 16,6%, em agosto de 2018 para 15,7%, em agosto de 2019. Para as mulheres houve aumento da taxa de 19,7%, em agosto de 2018, para 20,9%, em agosto de 2019. Em outros meses se observa que, enquanto há redução do desemprego entre os homens, há aumento das taxas das mulheres sem emprego.

No caso da raça/cor, em 2018, os negros apresentaram taxa de 21,4%, enquanto os não negros a taxa se reduz para 15,4%, no mesmo ano. Em anos anteriores, essa discrepância também era mostrada nas PEDs, o que é avaliado como preconceito do tratamento dos negros, que apresentam taxas mais elevadas do que a média encontrada no DF em relação aos não negros. No caso das mulheres, o desemprego pode surgir por diversos fatores, inclusive o da maternidade. Com referências aos negros, além da discriminação, as oportunidades não se apresentam por não terem, talvez, escolaridade completa, pois no Brasil e no DF, negros e pobres possuem menor chance de frequentar toda a escala educacional como revelam outras pesquisas da Codeplan DF.

A julgar pela Pesquisa de Emprego e Desemprego – PED DF, de fevereiro de 2019, é urgente avaliar os rumos da atividade econômica, pois, a taxa de desemprego elevou-se de 18,3%, em janeiro, para 18,7% em fevereiro ou, em termos absolutos, de 308 mil para 314 mil desempregados. Além desses números, quais as outras características que a PED DF indica? Estimativas de março mostram que o desemprego atingiu 326 mil pessoas ou 19,5% da População Economicamente Ativa – PEA, a mais elevada dos últimos anos. Além disso, como estão os rendimentos dos trabalhadores?

As estatísticas da PED, de 2019, identificam pequenas mudanças ocorridas neste ano, entre janeiro e agosto. Em primeiro lugar, o desemprego se manteve estável, mas elevado: 308 mil em janeiro e 313 em agosto de 2019. As taxas também se mantiveram elevadas e oscilantes: 18,3; 19,9, em abril e 18,3% em agosto. Todavia, como estão os rendimentos dos assalariados em um ano? Houve pequena variação para mais dos ganhos dos ocupados, com média salarial de, R$ 3.811,00, em julho de 2018 e elevação para R$ 3.910,00, em julho de 2019. O Setor privado teve ganhos pequenos, algo ao redor de R$ 100,00, o que pode ser justificado pela estagnação econômica local e nacional. O Setor Público seguiu a mesma tendência de R$ 8.330,00, em julho de 2018 para R$ 8.580,00, em julho de 2019, uma elevação de R$ 250,00.

Edifício do Setor Bancário Norte; à esquerda, o Teatro Nacional, com obras paralisadas há cinco anos
Foto Aldo Paviani

Conclusão

A última PED DF – de agosto de 2019 – demonstra uma constante, que é a linha ascendente das taxas e dos números absolutos do desemprego: como referido, em agosto de 2018 a taxa total era de 18,1 da PEA; em agosto de 2019, a taxa se manteve em 18,3. O desemprego aberto seguiu essa tendência 16,1% em agosto de 2018 e 16,2 em agosto de 2019. O mesmo se deu com o desemprego oculto, 2,0% em agosto de 2018 e 2,1% em agosto de 2019. Ao longo do ano transcurso de 2018 para 2019, a linha do desemprego total se manteve sempre oscilante, mas superior aos 18,1% do início da série histórica, ficando bem demarcada a concentração das atividades no Plano Piloto.

Por esse motivo, conclui-se que será importante aprofundar as pesquisas para o encontro de outros parâmetros e indicadores da desigualdade socioespacial do Distrito Federal. Das análises feitas, se evidencia a gravidade da má distribuição das oportunidades de trabalho entre o setor privado e o serviço público, entre homens e mulheres e entre não negros e negros. Esses desníveis em tempos de crise se prolongaram por mais de década e estão associados com aumento do número de desempregados – sempre superior a 300 mil pessoas, ou uma cidade de porte médio em qualquer região do Brasil.

Dragão Noel, boneco inflável da Força Sindical representando inflação, desemprego e juros altos, diante do Congresso Nacional
Foto Marcelo Camargo [Agência Brasil]

notas

NA – Atualizado de publicações divulgadas no Correio Braziliense, edições de 2018 e 2019.

1
Sobre a delimitação da Área Metropolitana de Brasília – AMB ver: Companhia De Planejamento Do Distrito Federal– Codeplan. Nota Técnica 1/2014. Delimitação do Espaço Metropolitano de Brasília (Área Metropolitana de Brasília). Brasília, 2014 <https://bit.ly/2pzXLtC>

2
Sob o ponto de vista geopolítico o Distrito Federal é a unidade da Federação com equivalência aos demais Estados da Federação, enquanto Brasília é o único município abrigado pelo Distrito Federal, com alta taxa de urbanização. Por isso, o Distrito Federal abriga a cidade de Brasília e são utilizados como referência socioespacial.

3
A Área Metropolitana de Brasília é composta pelo município de Brasília e os doze municípios goianos adjacentes ao Distrito Federal, mas necessita ser formalizada e reconhecida legalmente.

4
As PEDs/DF, aqui analisadas são realizadas mensalmente pelos Dieese/Codeplan/Setrab-GDF.

5
Em fins de setembro de 2019, a PED de agosto foi divulgada junto com o anúncio de que faltam recursos para dar continuidade a PED DF. Provavelmente nova licitação será feita em dezembro próximo.

6
0 Grupo 1 só tem resultados semestrais, por questões metodológicas. De março a agosto de 2019 chegou a 8,2%, um pouco inferior ao semestre anterior, acima referido.

sobre o autor

Aldo Paviani é geógrafo, professor emérito da Universidade de Brasília – UnB e membro do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares – Neur / Ceam e da UnB. Membro do Núcleo do Futuro e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais, ambos do CEAM/UnB.

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