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my city ISSN 1982-9922

abstracts

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Álvaro Rodrigues dos Santos, morador do Crusp quando estudante de geologia, comenta o processo de decadência do conjunto habitacional estudantil da Universidade de São Paulo, projeto de Eduardo Kneese de Mello, Joel Ramalho Júnior e Sidney de Oliveira.

how to quote

SANTOS, Álvaro Rodrigues dos. O assassinato arquitetônico do Crusp. Um histórico do conjunto habitacional projetado pelos arquitetos Eduardo Kneese de Mello, Joel Ramalho Júnior e Sidney de Oliveira. Minha Cidade, São Paulo, ano 20, n. 232.03, Vitruvius, nov. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/20.232/7537>.



O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – Crusp situa-se no Campus da Cidade Universitária, Bairro do Butantã, na capital paulista.

Representou, desde sua concepção arquitetônica original (1), a mais ousada e inspirada experiência de oferecimento de moradia a estudantes que dela necessitasse por sua condição econômica e social e por seu distanciamento de sua cidade de origem.

Abrigando cerca de dois mil estudantes em seus diversos blocos o Crusp propiciou, em especial durante seu período inicial, entre 1963 e 17 de dezembro de 1968, data da invasão militar que culminou na triste e definitiva diáspora dos cruspianos, uma pioneira, única e riquíssima experiência existencial a seus moradores e freqüentadores.

Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo – Crusp, arquitetos Eduardo Kneese de Mello, Joel Ramalho Júnior e Sidney de Oliveira
Foto Gaf.arq [Wikimedia Commons]

Estudantes dos mais diversos cursos universitários, dos mais diversos locais de origem (no país e no exterior), das mais diversas visões de mundo, valores individuais e culturas familiares, expressando o verdadeiro espírito “universitário”, integraram-se fraternalmente conformando uma nova cultura de vivência coletiva, criando hábitos, costumes, inovando permanentemente em formas de rica coexistência, superando dificuldades e carências logísticas e materiais, tendo como fator unificador a percepção do Crusp como seu novo lar e o espírito de apoio mútuo, de profundo sentido comunitário, como elemento comum em suas inter-relações.

Plantas originais de área de estar e do apartamento do Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
Imagem divulgação [Acrópole, nº 303, p 93-101, fev 1964]

O Crusp em sua faze inicial, 1963-1968, marcou profundamente a vida pessoal e profissional de seus moradores e freqüentadores. Mesmo entre aqueles que hoje optam por diferentes opiniões sobre os mais diversos assuntos, há algo maior que os une, e esse algo maior foi a maravilhosa experiência existencial vivida enquanto cruspianos. Do ponto de vista profissional o fato dessa vivência ter proporcionado a proximidade de uma enorme diversidade de especializações, juntando em um mesmo convívio estudantes de engenharia, direito, geologia, geografia, história, ciências humanas, economia, arquitetura, biologia, medicina, odontologia, etc., revelou em uma rica prática os incríveis ganhos trazidos por uma visão interdisciplinar das questões profissionais colocadas a cada um no exercício de suas carreiras.

O Crusp em 1963, com amplos espaços entre-blocos destinados à convivência entre moradores
Imagem divulgação [Acervo do Grupo de ex-moradores do Crusp]

Bem, toda essa riqueza existencial foi em grande parte induzida pela concepção arquitetônica original do Crusp, marcada pela amplidão dos espaços, pela profusão de espaços de convivência, pelo desenho dos apartamentos; enfim, pelo sentido de amplidão/liberdade e vida colaborativa a que o projeto original se propôs.

O projeto arquitetônico original do Crusp

O projeto arquitetônico do Crusp foi desenvolvido em 1961 pelos arquitetos Eduardo Kneese de Mello, Joel Ramalho Júnior e Sidney de Oliveira, em atendimento de encomenda do Fundo de Construção da Cidade Universitária. Foram pensados doze blocos de seis pavimentos, com dez apartamentos por pavimento, cada apartamento sendo ocupado por três estudantes.

Térreos vazados entre pilotis proporciona amplidão espacial, redesenho dos blocos originais
Desenho de Roberto Alves de Lima Montenegro Filho [tese de doutorado]

Como pode-se ver pelas imagens a seguir os blocos tinham seu térreo em pilotis e eram separados por recuos de 80 metros. Assim os arquitetos pretenderam prover os futuros ocupantes de ampla permeabilidade visual e áreas de lazer e congraçamento. Sobre esses espaços assim se expressou o arquiteto Eduardo Kneese:

“Aqui deveria haver bancos lugar para estar um jogo de voleibol, por exemplo, caberia perfeitamente aqui, jogos pequenos, de modo que o estudante vivesse isto aqui, e os outros seus colegas, das suas janelas, dos seus balcões, pudessem assistir tudo isso. […] A nossa ideia de desencontrar os prédios, embora paralelos, mas invés de fazer um ao lado do outro, defasados, […] é de criar um ambiente maior, livre aqui, uma área de estar, de lazer, de descanso dos estudantes” (2).

Referindo-se ao projeto do Crusp, a arquiteta Aline Nassaralla Regino registra em sua dissertação de mestrado, versada sobre habitações coletivas:

“Neste projeto, os princípios difundidos pelo Movimento Moderno, principalmente por Le Corbusier e pela Carta de Atenas (1933), estavam presentes. Destaca-se o uso de pilotis, responsável pela liberação do pavimento térreo e integração deste com a área de lazer criada através dos amplos recuos entre os edifícios” (3).

O eminente arquiteto Eduardo Kneese, conhecido por seus projetos de moradias coletivas, estabeleceu uma relação especial com o projeto do Crusp, a qual pode-se deduzir desse outro depoimento seu:

“O projeto que me deu mais satisfação porque foi uma experiência, uma experiência nova, foi realmente o Crusp da Cidade Universitária. E eu achei que era a oportunidade de se fazer uma experiência em pré-fabricação. Porque pré-fabricar uma casinha não interessa, a pré-fabricação só interessa quando existe repetição do elemento. E lá, nós tínhamos uma viga, por exemplo, que era repetida cerca de mil vezes. Então, havia todos os indícios de uma experiência válida, mas como não existia nenhuma fábrica montada pra pré-fabricação aqui, eu consegui com muito esforço, com muita briga que eles autorizassem um dos concorrentes a apresentar uma segunda proposta em pré-fabricação. E essa proposta foi a que ganhou a concorrência” (4).

Em harmonia com a filosofia arquitetônica adotada, não havia apartamentos individuais, eram apartamentos que abrigavam três moradores, sendo sua ocupação orientada sempre a receber estudantes de diferentes cursos da Universidade.

Plantas originais de área de estar e do apartamento do Crusp, Cidade Universitária, São Paulo, 1961, arquitetos Eduardo Knesse de Mello, Joel Ramalho Jr. e Sidney de Oliveira
Imagem divulgação [Acrópole, nº 303, p 93-101, fev 1964]

Os apartamentos eram compostos por dormitório com três camas e respectivos armários embutidos; sala de estudos com estantes de livros e mesa para três alunos; sanitário e banheiros.

A construção do Crusp iniciou-se em 1962, sendo acelerada de forma a poder abrigar, ainda em 1963, as delegações estrangeiras participantes dos Jogos Pan-americanos. Foi assim inaugurado em maio de 1963. Findos os jogos, e com a reitoria retardando a destinação dos blocos aos estudantes, já no início de 1964 tiveram curso uma série de ocupações espontâneas por parte dos estudantes, processo que culminou com a inauguração oficial do conjunto ainda no ano de 1964.

O desfiguramento arquitetônico do Crusp e o conjunto hoje

A partir de dezembro de 1968, data da forçada diáspora dos cruspianos, decorrência de uma das mais imediatas aplicações do AI 5, o Crusp permaneceu desocupado por praticamente 10 anos. Livres, manu militari, das resistências de moradores, os reitores que se sucederam ao longo desse período, Luís Antônio da Gama e Silva, Miguel Reale, Orlando Marques de Paiva, aproveitaram a presenteada ocasião para impor uma série de reformas e novas utilizações do espaço cruspiano, alterações essas que romperam radicalmente com os princípios universalizantes e libertários implícitos no projeto original do arquiteto Eduardo Kneese. Os térreos em pilotis foram todos fechados e os espaços de convivência que existiam entre blocos ocupados por novas construções totalmente alheias ao objetivo habitacional e vivencial do Crusp.

Situação atual do Crusp, com ocupação dos espaços entre-blocos por construções alheias ao programa habitacional
Foto divulgação [imagem Google 2019]

Como registra a arquiteta Aline Nassaralla Regino em sua Dissertação de Mestrado, “O conjunto foi desfigurado e a sua integridade foi destruída: um dos edifícios originais foi demolido pelo Reitor Gama e Silva, posteriormente ministro do governo militar e signatário do AI-5. O fez porque entendia que a disposição original dos edifícios colocava a reitoria (antiga) fora da perspectiva central da entrada da Cidade Universitária”.

Situação atual do Crusp, com os térreos fechados com o pretexto da necessidade de mais espaços funcionais
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

Não cabe outra interpretação sobre esse crime arquitetônico e funcional, ou por ato falho, ou, mais provavelmente, por deliberada intencionalidade dos reitores referidos, foram eliminados os elementos do projeto original que propiciassem o encontro e a vivência entre os estudantes moradores (5), que lhes inspirasse o sentido de amplidão e liberdade via os amplos espaços existentes, e com isso lhes inspirasse também o espírito de um mundo mais solidário e comunitário. Como afirmou-me um atual morador: “hoje todos ficam em seus apartamentos, não há lugares de encontro e convivência”.

Térreos “obturados” do Crusp
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

Uma iniciativa esperançosa, porém adormecida

Em 2009, sendo reitora Suely Vilela, a Coordenadoria do Espaço Físico – Coesf da USP, sendo seu coordenador João Cyro André, um ex-cruspiano, elaborou um extenso documento intitulado A recuperação do Crusp. Esse documento faz um retrospecto da criação do Crusp, expõe os conceitos básicos do projeto de Eduardo Kneese, detalha as várias intervenções modificadoras ocorridas ao longo das décadas de 1970, 1980, 1990 e 2000 e, em seu capítulo final, elenca uma série de propostas que em seu conjunto cumpririam o objetivo de recuperação dos conceitos básicos da arquitetura original do Crusp.

Situação atual do Crusp, com os térreos de todos os blocos fechados
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

Na abertura desse capítulo há uma definição conceitual do que o Coesf entende por uma “recuperação do Crusp”:

“A Coordenadoria do Espaço Físico da USP propõe que o Crusp seja recuperado em sua proposta original (anos 1960), mas adequando-o às mudanças que a sociedade brasileira e a Universidade de São Paulo apresentaram desde então.

Recuperar o Crusp em sua configuração original significa liberar os pavimentos térreos dos blocos e demolir os edifícios de usos diversos construídos na área verde entre blocos” (6).

Ocupação do entre-blocos por construções alheias ao objetivo habitacional do Crusp, inviabilizando a convivência entre moradores
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

Assim se refere o documento à década de 1970: “Esta década foi a da ruptura com a concepção original de alojamento estudantil do Crusp; o conjunto – edifícios e espaço entre blocos – passa a ser percebido como uma oportunidade para instalação de usos administrativos e transitórios” (7).

Concluindo e propondo

O crime cometido contra a memória representada pela experiência vivencial ocorrida na primeira fase cruspiana, e em desrespeito a uma das principais obras referenciais da arquitetura brasileira e mundial no que diz respeito a habitações coletivas, tem as dimensões de uma traição covarde cometida por autoridades de baixo valor humano que se aproveitaram das facilidades de um período ditatorial que eliminou, por força militar, a possibilidade de qualquer resistência às suas absurdas decisões.

Ocupação do entre-blocos por construções alheias ao objetivo habitacional do Crusp, inviabilizando a convivência entre moradores
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

É uma responsabilidade da Universidade de São Paulo, do meio arquitetônico nacional e de todos que se relacionaram como moradores ou frequentadores do Crusp tornar viável uma ação voltada à recuperação de seu admirável desenho original.

As propostas expressas no documento produzido pelo Coesf em 2009 podem não ser consensuais e sugerir alterações, mas devem ser consideradas como um bom ponto de partida para a concepção e execução de um Projeto de Recuperação Arquitetônica do Crusp.

Espaços entre-blocos eliminados e hoje ocupados por novas construções
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

Um passo inicial nesse sentido seria a decisão de se constituir um Comitê de arquitetos indicados pela FAU USP e pela FAU Mackenzie, e pela própria Reitoria, que tivesse como missão o estudo da questão colocada e a elaboração de um Projeto Básico de Recuperação Arquitetônica do Crusp.

Por certo os antigos moradores da faze inicial e das fazes posteriores cumpririam um virtuoso e importante papel de apoio e interlocução junto ao Comitê.

Comentário de um novo morador: “hoje todos ficam em seus apartamentos, não há entre nós o hábito do encontro e da convivência”
Foto Álvaro Rodrigues dos Santos

notas

1
Sobre os aspectos arquitetônicos do projeto, ver: REGINO, Aline Nassaralla. Eduardo Kneese de Mello – arquiteto. Análise de sua contribuição à habitação coletiva em São Paulo. Orientador Rafael Antonio Cunha Perrone. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU Mackenzie, 2006; MONTENEGRO FILHO, Roberto Alves de Lima. A pré-fabricação na trajetória de Eduardo Kneese de Mello. Orientadora Monica Junqueira de Camargo. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2012.

2
KNEESE DE MELLO, Eduardo. Depoimento. In: REGINO, Aline Nassaralla. Op. cit., anexo 4, p. 280.

3
REGINO, Aline Nassaralla. Eduardo Kneese de Mello – arquiteto. Análise de sua contribuição à habitação coletiva em São Paulo. Orientador Rafael Antonio Cunha Perrone. Dissertação de mestrado. São Paulo, FAU Mackenzie, 2006, p. 238.

4
KNEESE DE MELLO, Eduardo. Depoimento (op. cit.), p. 279.

5
Ver website: Grupo de ex-moradores do Crusp <https://crusp68.org.br>.

6
CABRAL, Neyde A. Joppert. A recuperação do Crusp. Coordenação João Cyro André. Reitora Suely Vilela. São Paulo, Coesf USP, 2009, p. 15 <https://bit.ly/357Z3f2>.

7
Idem, ibidem, p. 9.

sobre o autor

Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo, foi morador do apartamento 602-E do Crusp durante o período que vai do final de 1964 ao final de 1968.

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