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PORTAL VITRUVIUS. Concurso de Idéias para projeto de tratamento acústico e paisagístico do Elevado da Perimetral. Projetos, São Paulo, ano 05, n. 049.01, Vitruvius, jan. 2005 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/05.049/2442>.


A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, na figura do Prefeito César Maia, e o Instituto Pereira Passos promoveram um concurso de Tratamento acústico e Paisagístico do Elevado da Perimetral. No dia 27 de outubro foi divulgado o resultado da premiação e, segundo o Secretário Municipal de Urbanismo Alfredo Sirkis, a obra terá início no primeiro semestre de 2006 e será dividida em três fases. As obras começarão pela Praça Mauá, próximo ao Mosteiro de São Bento, em seguida Praça XV e finalizando na altura da Cidade do Samba. Este projeto faz parte do plano de revitalização da Zona Portuária do Município do Rio de Janeiro

A equipe vencedora coordenada pelos arquitetos Ricardo Kawamoto (33 anos), Elaine Condor (29 anos) e Márcio Leite (31 anos) foi composta por 09 profissionais de diversas áreas, como paisagistas, iluminador, profissional de acústica e calculista. O projeto prevê a criação de uma nova roupagem clara e limpa para o Elevado, utilizando painéis metálicos para recobrir a estrutura, substituindo visualmente a grande massa de aço e concreto aparente e escondendo o fundo e as laterais, as vigas e os pilares do viaduto.

História

Resultado das sucessivas transformações urbanas ocorridas no centro histórico do Rio de Janeiro, o Elevado da Perimetral, construído nas décadas de 1960 e 1970, provocou grandes mudanças na paisagem da orla marítima da cidade evidenciando uma bruta ruptura do tecido urbano ao longo de toda a zona portuária.

Contexto urbano

A história da cidade se faz presente em todo o percurso do Elevado da Perimetral onde marcos significativos do seu passado histórico são percebidos, mas não valorizados. O aspecto atual do viaduto elevado ignora sua vizinhança subvertendo a hierarquia entre os elementos urbanos existentes.

Edificações de grande significado em nossa história que foram concebidas originalmente à beira-mar hoje se encontram cercadas pela via expressa recebendo, além de um elevado ruído sonoro do tráfego viário, seu impacto visual.

Conceito

O partido arquitetônico proposto remete a uma costura do tecido urbano hoje rompido, com o objeto de intervenção conectando a cidade e a orla marítima através de sua forma. Para criar essa sensação o Elevado terá num primeiro momento um tratamento arquitetônico uniforme, sendo percebido como um único elemento. Apesar de sua extensão, de percorrer diversos bairros e de ser formado por diversas soluções estruturais ele passa a ter uma mesma identidade.

Num segundo momento o desenho reforça sua horizontalidade evitando reduzir a visibilidade entre os lados do Elevado e a competição com marcos urbanos de valor histórico consagrado, respeitando assim o caráter simbólico das áreas nas quais está inserido.

Foi descartada a possibilidade do tratamento acústico cobrir ou formar um túnel sobre o Elevado. O conceito arquitetônico defendido privilegia o pedestre que já tem sua visão bloqueada pelo Elevado atualmente e a execução de uma cobertura agravaria o impacto visual.

Por fim os cheios e vazios urbanos produzem o ritmo dos elementos arquitetônicos ao longo de todo o percurso. A forma proposta se abre e se fecha como reflexo de sua vizinhança, valorizando a percepção das edificações históricas e do mar. O movimento alcançado retira a imagem pesada e estática atual do Elevado a tornando dinâmica e integrada ao seu contexto urbano. Optou-se por utilizar barreiras acústicas apenas nas laterais do Elevado com os ruídos sendo parcialmente absorvidos e parcialmente refletidos em direção ao céu e ao mar até se dissipar. Essa solução atende aos dois objetivos: resulta em uma satisfatória redução do nível de pressão sonora sem reduzir a visibilidade dos pedestres.

Uso

A área coberta pelo Elevado, após a intervenção, se transforma em um grande passeio destinado à circulação, ao uso recreativo e de atividades e manifestações sociais, artísticas e culturais de caráter eventual. Com a nova iluminação e a redução do nível de pressão sonora o espaço sob o Elevado atinge o nível de conforto ambiental adequado para a espontânea atração da população para seu uso e permanência.

O trecho próximo à Praça XV, que já é utilizado como feira de antiguidades e afins, ganha um ambiente mais confortável aos expositores e atrativo aos freqüentadores. Já o trecho próximo à Praça Mauá e Avenida Rodrigues Alves, conjuntamente com algumas intervenções estabelecidas pelo Plano de Recuperação e Revitalização da Região Portuária do Rio de Janeiro, se transforma em uma área com vocação para o uso recreativo da população local e de encontros para os futuros freqüentadores das diversas edificações comerciais e institucionais ali previstas. Neste trecho são projetados, pensando no futuro desenvolvimento e revitalização da região, quiosques em forma de containeres espaçados entre os pilares podendo assumir diversas funções conforme o interesse e a necessidade local: informações turísticas, lanchonete, jornaleiro, floricultura etc.

Assim a área de projeção do viaduto deixa de ser vista como um lugar inóspito para ser vista de forma acolhedora como uma área de sombra, de abrigo, como uma grande marquise à beira-mar.

Arquitetura

Com o objetivo de substituir visualmente a grande massa em aço e concreto aparente por uma nova roupagem clara e limpa, painéis metálicos recobrem toda a superestrutura do Elevado, escondendo o fundo e as laterais do tabuleiro, as vigas e os pilares, assim como os elementos de tratamento acústico e luminotécnico.

Ao nível do pedestre uma subcobertura composta por painéis metálicos modulados, em chapas perfurada e lisa na cor branca, reveste e esconde a superestrutura do Elevado. Os painéis formam, no sentido transversal ao Elevado, planos curvos em seqüência unindo os dois lados do viaduto compondo um suave movimento de ondas lembrando a tão próxima presença do mar. A subcobertura é concebida na forma convexa para evitar o acúmulo e retenção de poluição atmosférica além de visualmente tornar o viaduto mais leve.

No sentido longitudinal os painéis modulados são dispostos em diagonal, levemente sobrepostos em forma de escama, indicando a continuidade do percurso sob o Elevado. Essa subcobertura após esconder a projeção do tabuleiro recebe um tubo metálico nos dois lados do Elevado que visualmente funciona como uma rótula. Ele determina o eixo de rotação de painéis laterais metálicos curvos, em chapa perfurada cor branca, que se estende ao longo do Elevado, sendo posicionados em função de sua vizinhança. Os tubos metálicos assim como os painéis laterais são fixos mas transmitem a sensação de movimento. A partir desse eixo os painéis terão a posição vertical quando houver edificações próximas (Prédio da Praça XV n°2, Mosteiro de São Bento, Prédio da Antiga Imprensa Nacional, Armazéns, etc.) e horizontal quando houver espaço urbano vazio (Praça XV, Praça Mauá, futura praça na Rua Silvino Montenegro, orla marítima, etc.).

A transição da posição vertical (noventa graus em relação ao plano horizontal) para a posição horizontal (dez graus em relação ao plano horizontal) será feita de forma suave, com cada módulo de painel sendo gradativamente girado em torno do eixo (cinco graus cada módulo).

Quando os painéis laterais da subcobertura se posicionam na horizontal a lateral do Elevado aparece e recebe o revestimento de painéis metálicos verticais, em chapa lisa na cor cobre, do fundo do tabuleiro até o guarda-rodas sendo fixados na própria estrutura do viaduto.

Os pilares nos trechos em que são localizados ao centro do Elevado (Praça XV e Praça Mauá) recebem pintura na cor branca para ressaltar a iluminação noturna sendo envolvidos por painéis e perfis estruturais metálicos, em chapa perfurada cor prata. Os demais pilares (Avenida Rodrigues Alves, 1° Distrito Naval, etc.) são mantidos em sua forma e cor naturais.

O emprego de painéis e perfis estruturais metálicos em seu revestimento transmitem à via expressa uma aparência mais leve e moderna incorporando uma imagem contemporânea à sua arquitetura.

Paisagismo

Na Praça XV o desenho do piso atual, de forma radial, serve de referência à intervenção. O trecho em que os painéis laterais mudam da posição vertical para horizontal tem o seu eixo central alinhado com o centro do desenho do piso mantendo uma unidade visual.

Na Avenida Rodrigues Alves o piso sob o Elevado tem seu desenho em pedra portuguesa formando faixas sinuosas em cores e larguras diferenciadas indicando o percurso do passeio. Esse tratamento de piso pode ser estendido ao 1° Distrito Naval. Junto aos armazéns piso em granito, delimitando uma área onde podem ser distribuídas mesas das futuras instalações comerciais previstas ali. Entre os armazéns e o Elevado piso em paralelos e granito com arborização de médio porte faz a transição entre os dois ambientes. A arborização do local foi planejada com espécies nativas com copas não densas permitindo a passagem do sol, procurando diminuir poluição e a pressão acústica procurando minimizar a aridez da paisagem.

No trecho em que é retirada a rampa de acesso na Avenida Rodrigues Alves, jardineiras suspensas são dispostas sobre postes de luminárias com painéis publicitários, compondo o vazio entre as duas pistas reconfigurando a paisagem e permitindo a passagem de iluminação natural.

Estrutura manutenção

Antes que qualquer intervenção seja iniciada uma vistoria fina deve ser executada corrigindo eventuais falhas já existentes tanto na estrutura quanto nas instalações de águas pluviais do Elevado.

Todos os elementos que compõe a intervenção acústica e paisagística proposta são fixados em pontos da estrutura do Elevado sem comprometer seu desempenho pois o acréscimo de carga é ínfimo em relação ao seu peso próprio.

O emprego de materiais metálicos confere à intervenção um sistema construtivo de grande resistência e durabilidade e de fácil limpeza. Todos os painéis e perfis estruturais são galvanizados para resistir à ação das intempéries.

A subcobertura do Elevado é composta por painéis modulados metálicos removíveis garantindo o acesso à superestrutura nos serviços de vistoria e manutenção. Da mesma forma os painéis metálicos que cercam os pilares permitem o acesso à superestrutura. Todos os painéis são modulados visando reduzir o custo, facilitar a execução e tornar sua manutenção econômica e de fácil reposição.

O tubo que conecta a subcobertura aos painéis laterais não permite a rotação desses módulos, apenas visualmente transmite a sensação de movimento. Os painéis laterais devem ter em sua estrutura superfície com dimensionamento suficiente para o engaste na superestrutura do Elevado, devendo ser calculado para resistir à incidência da carga de ventos.

A utilização de painéis metálicos em chapa perfurada agrega fatores favoráveis ao projeto além do aspecto estético. Permitem a passagem de iluminação indireta, reduzem a superfície refletora de ruído aumentando a superfície de absorção sonora e não retem as águas pluviais permitindo seu livre escoamento.

Tratamento acústico

Como a parte inferior do painel lateral está mais próxima da fonte de ruído urbano ela recebe um tratamento de absorção sonora. Os painéis são formados por um conjunto composto de duas chapas perfuradas com lãs minerais de grande resistência à intempérie entre ambas, com a propriedade de absorver os ruídos do tráfego viário.

A parte superior do painel lateral precisa garantir a visibilidade às edificações e aos carros sem deixar de reduzir o nível de ruído, recebendo um tratamento de atenuação sonora. Os painéis são formados por um conjunto composto por uma placa acrílica de metilo extrudido, apresentando resistência ao impacto, ao envelhecimento e à corrosão, além de uma elevada transmissão luminosa.

Quando a visada de edificações e a percepção de espaços urbanos significativos forem desejadas os painéis laterais se posicionam na horizontal. Nesse caso o tratamento acústico é formado por uma barreira vertical em acrílico transparente, com cerca de 2,50m de altura a partir do nível do piso do Elevado, junto ao guarda-rodas refletindo e reduzindo a intensidade dos ruídos em direção aos espaços urbanos (Praça Mauá, Praça XV, Rua Silvino Montenegro, etc.).

Entre as duas pistas um painel de 1,00m de altura formado por um conjunto de duas chapas perfuradas que incorpora em seu interior material de isolamento acústico composto por lãs minerais de grande resistência à intempérie, com elevado coeficiente de absorção, reduzindo os ruídos que cruzam as vias.

Tratamento luminotécnico

Com o objetivo de transformar um elemento extremamente agressivo quando observado da perspectiva da escala humana em uma forma mais leve e luminosa, tornando agradável estar sob a mesma, a iluminação cria efeitos que, observados à distância, marcam a presença do viaduto como uma linha contínua luminosa que, em pontos onde as laterais se abrem, a luz apresenta uma coloração saturada.

Um aspecto interessante na iluminação urbana é o resultado onírico e poético do uso da luz. Não basta atender aos requisitos básicos de iluminamento, luminância, controle de ofuscamento, economia de energia, facilidade de manutenção e outros tantos que devem ser agregados ao escopo do projeto. Estamos visualizando a transformação do viaduto e de seu espaço de influência física em elementos de interesse e até mesmo encantamento.

Três linhas mestras norteiam, interagem e se complementam, tendo no conforto visual e no controle de ofuscamento suas qualidades mais evidentes à primeira vista:

a) Iluminação das vias motorizadas sobre o viaduto

Um sistema de postes a luz secundária, que trabalham por reflexão em painéis com microespelhos, com projetores com lâmpadas a multivapores metálicos de tonalidade fria, garantem um iluminamento médio de 40 lux e uniformidade acima de 0,4. Este sistema é adotado internacionalmente por diversos fabricantes agregando além do valor estético, a facilidade de manutenção, controle de ofuscamento e economia de energia.

b) Iluminação decorativa do viaduto  o apelo poético do projeto

Entre os painéis laterais em chapa perfurada e a barreira acústica acrílica são inseridas luminárias herméticas fluorescentes com ótica para emissão em fachos fechados, que receberiam filtros coloridos em pontos específicos. Elas são colocadas sobre o tubo metálico de rotação dos painéis laterais, direcionadas para a barreira acrílica. Atualmente existem luminárias com lâmpadas fluorescentes nas cores padrões RGB que podem ser alteradas por computador. Assim as laterais do viaduto são realçadas com luz, criando uma silhueta luminosa quando vista de longe.

c) Iluminação sob o viaduto  a serviço do pedestre

O Elevado funciona como um grande rebatedor de projetores colocados na base dos pilares, protegidos por um encamisamento em chapa perfurada. A chapa permite o vazamento da luz interna e ao centro dos pilares são dispostos projetores de longo alcance direcionados para o revestimento em chapa metálica lisa sob o tabuleiro. As luzes, que imaterializam os pilares, podem ser coloridas. Já as luzes de longo alcance são brancas, com lâmpadas a vapores metálicos, por interferirem na visibilidade do local e das pessoas.

Nos pontos onde os painéis laterais se abrem, alguns projetores embutidos no piso (com proteção antivandalismo) são direcionados para elas, complementando a luz colorida interna. Nos pontos mais afastados do Elevado, são utilizados postes a emissão indireta, com rebatedores em forma de asas, que além de iluminar sem ofuscar, criam um desenho de luz urbana, em conjunto com elementos de paisagismo iluminantes. Iluminamento médio de 25 lux, com uniformidade mínima de 0,3, como valores de base.

A forma proposta se abre e se fecha como reflexo da sua vizinhança, valorizando a percepção das Atenciosamente,

ficha técnica

Arquitetura
Arquitetos Ricardo Kawamoto, Elaine Condor e Márcio Leite

Acústica
Lourdes Zunino

Orçamentista
Wagner Dias

Cálculo Estrutural
José Carlos Filizola

Paisagismo
Fernanda Souza

Luminotécnica
Ana Moraes

Computação gráfica – 3D
Raphael Garcia

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Equipe premiada
Rio de Janeiro RJ Brasil

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Organização
Rio de Janeiro RJ Brasil

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