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PORTAL VITRUVIUS. Prêmio Prestes Maia de Urbanismo / 2006. Projetos, São Paulo, ano 06, n. 067.02, Vitruvius, jul. 2006 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/06.067/2689>.


Parangolé Urbano

Parangolé designa, genericamente, os desdobramentos do programa ambiental (...) Para essa posição experimental convergem as ‘ordens’ anteriores, sintetizadas como estruturas-extensões do corpo. O Parangolé é mais do que a última ordem do ambiental: é a invenção de uma nova forma de expressão: uma poética do instante e do gesto; do precário e do efêmero”. (FAVARETTO, Celso. A Invenção de Helio Oiticica. São Paulo: Edusp, 2000, p.104-105)

Da rejeição ao desmonte

Esta proposta ampara-se na opção pela manutenção do elevado, e não em seu desmonte. Parte-se do reconhecimento de que o Minhocão é um elemento marcante da evolução urbana de São Paulo, assinalando de forma significativa a sua paisagem e definindo importantes momentos de configuração espacial no tecido urbano. Da falta de regulamentação ou de uma continuidade que marcam as políticas públicas, e que resultam no próprio elevado como solução contestável do ponto de vista tanto viário quanto ambiental têm-se como resultado situações urbanas caóticas: a complexidade e a desordem do mundo emergem a tona como inspiração. Trata-se do desafio de enfrentar situações urbanas extremas em uma metrópole como São Paulo.

 Se o minhocão hoje representa uma cicatriz, deteriorando seu entorno imediato, ele também é capaz de mexer com o imaginário. Do lixo pode-se vislumbrar o luxo, e é a partir dele que se deve operar, não através de sua remoção, mas potencializando-se situações interessantes que ele já encerra. Da intersecção do elemento linear com a riqueza das situações urbanas busca-se uma costura. Explora-se tanto a horizontalidade sob a projeção do Elevado, quanto sua verticalidade na relação com os andares dos edifícios do entorno e da própria cidade, marcada por uma topografia acidentada – cidade de múltiplos térreos. O acidentado de sua paisagem é muitas vezes dificilmente desvelado.

Através de seu percurso, revelam-se visuais, morfologias, momentos de experiência da cidade que evidenciam essas situações: quando “nasce” na Avenida Francisco Matarazzo; ao se sobrepor à Avenida Pacaembu tal qual um mirante; ao percorrer sucessivamente bairros como a Barra Funda, Higienópolis e Santa Cecília (Zona Oeste); ao ser “atravessado” em nível pelo Largo do Arouche convidando o transeunte a desfrutar de uma paisagem que remete a uma outra época; e finalmente ao ser “engolido” pela Praça Roosevelt - praça dos teatros, rumo à parte Leste.

Portanto, o tema deste trabalho não é o elevado tomado como um objeto em si, mas sim colocado em relação com a cidade. Parte do pressuposto de que o que valem são as relações que podem se desdobrar a partir desta nova proposta, do sobre e do sob, como quintal, como abrigo, como passagem, como viário existente irradiando para o entorno imediato. Trata-se da exploração de um ambiente urbano peculiar.

A decadência desse espaço lateja aos olhos daqueles que sonham com as possibilidades que esta paisagem urbana poderia oferecer: a realização de uma vida mais rica e mais completa como num Parangolé (Helio Oiticica, 1964).  “Seria pois o Parangolé um buscar, antes de mais nada estrutural, básico na constituição do mundo dos objetos, a procura das raízes da gênese objetiva da obra, a plasmação direta perceptiva da mesma [...] Nessa procura de uma fundação objetiva, de um novo espaço e um  novo tempo da obra no espaço ambiental, almeja esse sentido construtivo do Parangolé a uma ‘arte ambiental’ por excelência. [...] Trata-se da procura de ‘totalidades ambientais’ que seriam criadas e exploradas em todas as suas ordens.” (OITICICA in FAVARETTO, 1964: 106).

Caracterização dos eixos

Uma leitura inicial do eixo do Elevado Costa e Silva e de seu papel na cidade identifica três eixos predominantes, que cortam a metrópole, e definem eixos de características particulares em toda sua extensão. Essa leitura se dá numa macro-escala.

O significado dos lugares e das localidades redefine-se na escala local a partir de um esquema de deslocamento (existentes e desejáveis). Esses deslocamentos são predominantemente perpendiculares aos ‘eixos’. O cruzamento de fluxos entre eixos e deslocamentos perpendiculares a ele dá novo significado a locais que passam a ter função estratégica dentro da cidade, numa dinâmica de intervenções pontuais.

Uma terceira trama, de capilaridades locais, é responsável pela concretização da idéia de malha que torna a cidade permeável em todas as suas escalas e direções, valorizando a mobilidade como elemento primeiro dentro das dinâmicas da metrópole: as calçadas, os miolos de quadra e passagens, a necessidade de percursos cobertos e apropriação de andares.

A partir da acessibilidade e organização de parâmetros claros de deslocamento, intimamente ligados a padrões de organização e ocupação do território, ricamente mesclados em toda a cidade, define-se uma possibilidade de reorganização do espaço. Não uma imposta sobre o território concretizado, mas aquela que, reconhecendo as particularidades da evolução urbana conformada, propõe formas de valorizá-la, explorando-a como matéria para a organização de uma malha comprometida com a questão das escalas.

Lê-se nos nós de transporte áreas em potencial para a implantação de infra-estrutura. Essa malha legitima tais pontos focais como verdadeiras oportunidades de conversão e renovação urbana: vê-se nos eixos a forma de costura entre esses pontos e as realidades existentes.

Os eixos da cidade

As hierarquias de deslocamento e predominância dos fluxos são os elementos principais que determinam aqui eixos estruturadores e intervenções focais. Esse tipo de leitura reconhece a importância de elementos metropolitanos de conexão física e simbólica, gerando legibilidade de uso do espaço, referências para a cidade e uma organização clara espacial capaz de instruir e permitir a experiência plena do território metropolitano e de toda a gama de possibilidades que ele oferece.

O eixo das águas
percurso da água - transporte hidroviário e parque fluvial

O eixo verde
parque de equipamentos junto à linha férrea - lazer e infra-estrutura ao longo da orla ferroviária: o trem

O eixo adensado de infra-estrutura e serviços
costura urbana: o metrô e os corredores de deslocamento

A identificação dos eixos traz a tona a discussão do transporte público na cidade e sua importância para a melhoria da qualidade de vida, seja através da diminuição do tempo das viagens e aumento da acessibilidade para todos, seja pelo potencial que esse tipo de viagem pode encerrar em uma metrópole de tais dimensões (como forma de valorizar o percurso urbano e usufruir dos equipamentos da cidade nesse percurso).

Conexão entre eixos

Identifica-se no sistema viário deslocamentos principais perpendiculares aos eixos apresentados. Um sistema de bonde /micro-ônibus organizado nessas vias poderia representar uma solução complementar de transporte público mais adaptado à escala do bairro e garantindo qualidade de deslocamento.

Da intersecção dos eixos surgem os pontos nodais – pontos de intercruzamento das escalas local e metropolitana – pontos-alvo para projetos de reconversão urbana.

Eixos e pontos criam legibilidade no território e permitem o uso de um sistema integrado com coerência no reconhecimento do tecido urbano.

Esse sistema apóia-se sobre os equipamentos existentes no território, propondo costura urbana, a experiência das paisagens predominantes na cidade (a partir dos eixos) e o uso e desfrute de todos esses equipamentos.

Eixo do Minhocão

O eixo do minhocão, diferente dos outros dois, atravessa uma região densamente construída, porém não densamente ocupada: ela é degradada do ponto de vista de seu uso – imóveis esvaziados e especulação imobiliária – e de sua manutenção. Trata-se de uma linha de sentido Leste-Oeste, que atravessa os seguintes bairros, sucessivamente: Água Branca/Perdizes; Barra Funda; Santa Cecília; Higienópolis; adentrando na Região Central. Finalmente, atravessa a Avenida Consolação, sob a Praça Roosevelt, rumo à Zona Leste, transformando-se então em Viaduto do Café e Ligação Leste-Oeste, consecutivamente.

Estes bairros apresentam características peculiares, do ponto de vista de seu uso e vocação, bem como da infra-estrutura da qual são dotados. O eixo em questão coincide com a Linha 3 do Metrô (vermelha / Leste-Oeste), já que duas de suas estações situam-se à Avenida Amaral Gurgel: a estação Marechal Deodoro (Barra Funda / Higienópolis) e a estação Santa Cecília. Neste sentido, caracteriza-se como uma região bem dotada de infra-estrutura – o que não significa que a mesma esteja adequada no que concerne à sua manutenção e às suas potencialidades, como já mencionado.

Povoar o Minhocão – a pré-fabricação nos elementos de construçãoDa natureza da intervenção

A proposta é montada, portanto, sobre esta leitura. Se o elevado, mantido, é um elemento único que atravessa estes endereços tal qual um eixo, a proposta deve se desdobrar em uma solução compatível do ponto de vista da técnica e da escala de intervenção ao mesmo tempo em que apresenta a versatilidade condizente com as peculiaridades de cada endereço, reforçando as suas características, podendo se desdobrar em uma gama de situações.

A implantação de um elemento único, que caracteriza a intervenção em todo o eixo reconhece sua vocação metropolitana. A existência de projetos locais específicos caracteriza os lugares urbanos. A proposta consiste na definição de três “camadas” (layers), organizando diferentes funções e acessos, com as características descritas a seguir:

Passeio coberto

Térreo: propõe-se “intervir no construído”.

  • Passeio coberto com serviços: proposição de novos equipamentos e provisão de melhores condições àqueles que já existem (iluminação, mobiliário urbano, estímulos fiscais aos proprietários para sua manutenção);
  • Ampliação da largura das calçadas e arborização de pequeno porte;
  • Viário: manutenção de duas faixas, uma destinada ao corredor de ônibus e a outra ao tráfego local;
  • Passeio coberto nas calçadas à Avenida Amaral Gurgel: proposta de recuo nas demais edificações (estimular através da legislação);
  • Propõe-se diretrizes de ocupação com a possibilidade de apropriação de térreos e pavimentos do patrimônio construído, em grande parte ocioso (muito em função do atual estado de degradação),à exemplo da própria estação de metrô Marechal Deodoro, que tem como uma das saídas o térreo de um edifício privado.

Diretrizes

  • Manutenção das atividades já realizadas (comércio específico de mobiliário, antiguidades, bares, “sex shops”, teatro, ambulantes) através da melhoria de suas condições (iluminação, mobiliário urbano);
  • Posposição de centros de reciclagem – para os catadores de papel ou atividades que incorporem a diversidade populacional que se quer manter ali, e que já existe.
  • Proposta de incentivos fiscais aos proprietários, podendo-se por exemplo conceder parte do espaço sob o passeio coberto para ampliação de vitrines do comércio de antiguidades, ou mesmo de espaços expositivos para difusão da produção das demais instituições culturais e de ensino ali reunidas (IAB, Faculdade de Medicina Santa Casa, Escola da Cidade, Mackenzie, USP Maria Antônia)
  • Incentivos fiscais aos proprietários de imóveis para recuo dos térreos dos edifícios com a definição de um passeio coberto.
  • Criação de uma linguagem única para mobiliário urbano com o cuidado inerente ao conceito mesmo de design (produção em escala)
  • Apropriação de térreos ou mesmo pavimentos de edifícios ociosos (à exemplo da Estação de metrô Marechal Deodoro) ocupados com a ampliação da rede de infra-estrutura (telecentros, casas de cultura, bibliotecas).

Manutenção da pista elevada – Viário existente

Pista elevada: O projeto consiste na proposição de um “envelope acústico” (paredes e tetos feitos de painéis acústicos ou construídos em camadas no local) como uma cobertura à pista elevada, que portanto é mantida:

  • isola-se acusticamente;
  • promove-se a ventilação através de sheds protegidos acusticamente;
  • abriga-se saídas de emergência a cada 50-100m junto às caixas de escadas e acessos contíguos à nova estrutura;
  • apresentam-se verdadeiros “rasgos”, definindo os enquadramentos que interessam na paisagem para os motoristas com a identificação e valorização de um significativo patrimônio edificado que ali está reunido, e que encerra uma paisagem característica, uma “cortina” de edifícios.

A casca representa assim, para além de uma solução à problemática acústica - um dos principais motivos de degradação do entorno imediato - também uma valorização do percurso ao motorista assim como aos demais usuários. Ela deve ser detalhada de modo a se enquadrar nos parâmetros definidos pela NBR 14313 – “Barreiras acústicas para vias de tráfego”, aplicada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Esta Norma estabelece as condições exigíveis para os materiais e para a instalação de barreiras acústicas em vias de tráfego. As barreiras acústicas, de acordo com esta mesma, são aplicáveis ao longo de vias de tráfego a serem construídas, ou já existentes, evitando a necessidade de adoção de medidas de proteção nas edificações contíguas às rotas em questão.

Promenade urbana

A casca descrita anteriormente acaba por abrigar uma outra função: a de promenade urbana, que define um novo nível e uma nova topografia, podendo inclusive se articular a alguns andares de edifícios contíguos – destinados a abrigar novas funções, como serviços ou mesmo equipamentos públicos, de modo que a rede de bibliotecas, telecentros ou mesmo centros de capacitação possa ser expandida ocupando parte dos imóveis ociosos da região em questão. 

Redefinem-se assim novos “térreos” e novas relações entre os elementos que compõem a paisagem urbana, tanto os novos quanto os propostos. É não somente um equipamento de escala metropolitana, mas também a definição de uma espécie de “quintal” para os moradores. A identificação com esse local ocorre a partir das diversas possibilidades de uso.

Cria-se um outro patamar que abriga um passeio para pedestres, uma ciclovia – uma alternativa de transporte como diretriz para toda a cidade - e espaços de estar e, através desses, novas conexões de percurso dentro da cidade.

Intenciona-se explorar os demais níveis da cidade, definindo-se novas conexões, costuras urbanas que se expandem nos planos horizontal e vertical.

Modulação e léxico de materiais e elementos

A utilização da idéia de modulação e de pré-fabricação para desenho dos elementos que povoam o elevado em toda sua extensão dá o tom da conversa. Trata-se de adensar a partir do reconhecimento e valorização das estruturas existentes. Para tanto se utiliza um vocabulário claro que evidencia o dado e valoriza-o a partir de um elemento único em toda a extensão.

Define-se um léxico limitado de elementos, de componentes e técnicas construtivas e de materiais, que podem ser combinados de formas as mais diversas:

Elementos horizontais

Térreo
A partir de um módulo – matriz única, a abrigar diferentes programas: ponto de ônibus, banca de jornal, novas vitrines, info-box, serviços (chaveiro, café, restaurante, loja).

Pista elevada
Treliça metálica principal (eixo longitudinal) 50m x 5m
Treliças metálicas transversais (5 tipologias)Revestimento Acústico (módulos triangulados): materiais diversos que constituem a promenade urbana (madeira, grama, painéis metálicos, pedra)

Elementos verticais

  • Caixas de escada e elevadores (metálicos): descidas rápidas – uma por quadra (100m) conexão intima com o térreo original
  • Rampas para bicicletas
  • Passarelas metálicas

Mobiliário urbano

  • Paisagismo
  • Novo projeto de iluminação: Luz lanterna para a cidade (usos noturno/diurno) eixo como referencial geográfico tal qual uma praia urbana
  • Bancos

Os módulos pré-fabricados permitem uma intervenção mais barata, limpa e pertinente ao tempo de mudanças previsto para a reconversão urbana em sua totalidade. Ao mesmo tempo, geram qualidade espacial e revitalizam áreas específicas, permitindo participação e identidade social com o projeto – essencial a seu êxito.

Os módulos povoam todo o minhocão e sua área de intervenção. Vão se espalhando, ao longo do tempo, estrategicamente, adequando-se à gama de situações presentes em toda sua extensão. Ganham significado local e conformam um todo diferenciado por suas inúmeras formas de implantação, que redescobrem cada modulo constantemente.

O minhocão torna-se objeto-alvo de intervenção, de povoação. Recebe elementos novos que re-qualificam seu valor urbano e redefinem seu papel na cidade, de corte-cicatriz a um elemento de costura urbana, realizado na escala mais próxima do pedestre e da vivência humana, cuja qualidade torna-se alvo de projeto: entender o valor das ações urbanas no território (nos domínios públicos e privados) e transformá-los em base para projetar a cidade. Viver na metrópole e experimentá-la como tal.

Da forma

A forma resultante da proposta a partir de cinco treliças que encerram diferentes combinações, e conseqüentemente, geram uma topografia acidentada definem um percurso lúdico: mexe com o imaginário coletivo, definindo nova identidade do elemento na cidade, que vai “penetrando” com os novos elementos propostos ruas, andares, cruzamentos. Um novo “chão” que vira espreguiçadeira, novos mirantes, novo desfrute através da bicicleta, do alto, os “quintos pavimentos” dos edifícios viram térreos e ganham um novo quintal.

“O Parangolé não era, assim, uma coisa para ser posta no corpo, para ser exibida. A experiência da pessoa que veste, para a pessoa que está fora, vendo a outra se vestir, ou das que vestem simultaneamente as coisas, são experiências simultâneas, são multiexperiências. Não se trata, assim, do corpo como suporte da obra; pelo contrário, é a total ‘in(corpo)ração’. É a incorporação do corpo na obra e da obra no corpo. Eu chamo de ‘in-corporação’” (OITICICA in FAVARETTO, 1979: 107). Assim, para além de se propor aqui uma solução aos problemas – e potencialidades  - definidos pelo “Minhocão”, trata-se da oportunidade de discutir a cidade através de um de seus elementos. Tal qual o parangolé, trata-se não somente da obra da cidade, mas principalmente, da cidade na obra.

ficha técnica

Autores
Marcos Rosa (Arquiteto e Urbanista)
Vanessa Grossman (Arquiteta e Urbanista)

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Equipe premiada
São Paulo SP Brasil

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067.02 Prêmio
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original: português

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Comissão Organizadora
São Paulo SP Brasil

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067

067.01 Concurso

1° International Competition Global House 2005 for Young Architects

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