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BARBOSA, Antônio Agenor. Paradoxos revisitados. Resenhas Online, São Paulo, ano 02, n. 016.01, Vitruvius, abr. 2003 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.016/3218>.


É inexorável que as cidades, em qualquer tempo ao longo da história, passem por transformações e modificações na sua morfologia geradas por fatores dos mais diversos. Assim, as guerras, terremotos, incêndios, atentados terroristas e outros infortúnios oriundos da natureza, da mão humana e, sobretudo, das tendências culturais vigentes em cada época são capazes de, a um só tempo, destruir e modificar cidades ou partes delas de maneira irreversível.

São célebres algumas destas trágicas ocorrências – naturais ou artificiais – que, inevitavelmente, transformaram em definitivo o aspecto de cidades inteiras desde a Antiguidade aos nossos dias. Na Europa, do grande terremoto que destruiu quase completamente a velha Lisboa em 1755, surgiu uma nova urbanidade apoiada na razão iluminada do Marquês de Pombal. Desta forma, tradição e modernidade foram ali alçadas a um patamar comum. No Novo Mundo, após o trágico incêndio que arrasou Chicago em 1871, uma geração de jovens arquitetos emerge propondo modelos e tipologias arquitetônicas até então inusitadas para uma cidade que, ainda no início do século XX, era mais conhecida pela fama internacional do gângster Al Capone que pela qualidade de sua arquitetura. Esta nova tipologia de edifício, disseminada e construída paulatinamente após o incêndio, é hoje o símbolo (cultural) maior de Chicago e também de outras grandes cidades norte-americanas: o arranha-céu.

Arranha-céu, edifício alto, espigão (sic) e torre são, dentre outras, as denominações mais comuns para aquele tipo de arquitetura que, pela sua espetacular dimensão vertical, parece tangenciar o firmamento. Certamente, ainda freqüentam a nossa memória as impressionantes imagens dos atentados às Torres Gêmeas do complexo WTC – verdadeiros símbolos, “em pedra”, do poder hegemônico dos EUA – no episódio de 11/09/2001. Aos que se impressionam com esta aventura arquitetônica da modernidade, cabe registrar que a intenção dos homens de edificar uma grande torre – ou um protótipo de arranha-céu –, está relatada na Bíblia com a construção (impossível) da Torre de Babel. O castigo celestial, fomentado pela incapacidade dos homens de se comunicarem, foi uma resposta à tamanha pretensão humana: a de igualar suas obras terrenas às criações divinas.

Por estas breves linhas acima o leitor já pode perceber o alto valor simbólico que um arranha-céu, a despeito da qualidade de sua arquitetura, consegue imprimir à paisagem de uma cidade. E este simbolismo, certamente, está calcado nas forças do capital que, dentre outros fatores secundários, dominaram boa parte da produção sócio-espacial dos ambientes urbanos ao longo do século XX. Também não se pode pensar a respeito deste tema sem se levar em conta algumas das novas tecnologias que, juntas, permitiram a excessiva verticalização das edificações na virada do século XIX para o XX: o concreto armado e o elevador.

Ainda que os nossos arranha-céus tropicais não sejam tão imponentes quanto os similares norte-americanos – a despeito de Le Corbusier, provocativamente, tê-los achados baixos quando da sua visita a Nova Iorque em 1935, quatro anos após a inauguração do famoso Empire State – , vejamos o caso do Rio de Janeiro e de toda a sua Área Central, que deita suas raízes no século XVI, e mais especificamente o entorno da atual Praça XV de Novembro outrora denominada de Largo do Carmo. Como foi possível que, nas bordas de um dos berços pioneiros da história urbana carioca, fossem construídos tantos edifícios altos que pouco – ou quase nada – contribuem para a boa integração entre o nosso passado histórico tradicional e o desenvolvimento urbano moderno inerente à sua condição de metrópole?

Pois são reflexões como esta que norteiam o excelente livro “Paradoxos Entrelaçados – As torres para o futuro e a tradição nacional” da Professora Cêça Guimaraens. Arquiteta por formação, Doutora em Planejamento Urbano pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional (IPPUR) e professora da FAU – UFRJ, Guimaraens produziu um livro que deve ser lido obrigatoriamente por todos aqueles agentes (públicos ou privados) que estão envolvidos direta ou indiretamente na produção social do espaço urbano do Rio de Janeiro.

Já nos preâmbulos de sua obra, revela-se a força do seu intento pelos elogiosos comentários de especialistas do porte de Maurício Abreu, Ana Clara Ribeiro e Ruth Verde Zein. Desta forma, a autora construiu uma obra que, pela originalidade da temática abordada, já poderia pertencer ao seleto rol de obras de referência sobre o assunto.

Composto de nove capítulos centrais mais a introdução e conclusão, o livro em questão aborda de maneira instigante conceitos aparentemente análogos mas, na verdade distintos e, paradoxalmente, complementares que são o “Patrimônio e a Memória aplicados ao estudo da área central do Rio de Janeiro”, conforme anuncia o texto introdutório do Professor Maurício Abreu, na contra-capa do livro.

Mais ainda, a autora busca revelar de que maneira homens e instituições que tinham como principal missão a de preservar o nosso patrimônio edificado – em última instância a nossa “tradição nacional” – , permitiram que este patrimônio fosse descaracterizado por conta das inúmeras construções, a partir da segunda metade do século XX, de “torres para o futuro”.

A mais importante destas instituições preservacionistas, de âmbito federal, à qual a autora dedica vários capítulos é o IPHAN: sigla de Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Originalmente denominado SPHAN – com o “S” significando Serviço – , o órgão foi fundado em 1937 por um grupo de intelectuais e artistas liderados por Rodrigo Melo Franco de Andrade que capitaneou o “Serviço” por quase 30 anos. Homem de vasta cultura, educado em Paris na adolescência, jornalista, advogado, poeta e com trânsito livre entre políticos e personalidades da República, Rodrigo era sobrinho do jurista Afonso Arinos, primo do Embaixador Afrânio de Melo Franco e neto do Senador Virgílio de Melo Franco. Tudo isto para que o leitor possa perceber, em breves linhas, conforme nos relata Guimaraens, “a largueza de sua visão no que diz respeito aos termos designativos de bem cultural.

A sede do IPHAN permaneceu, desde a fundação do órgão, no Rio de Janeiro até o início da década de 90 quando, após o Governo Collor, a equipe foi imediatamente transferida para Brasília. Feita esta brevíssima genealogia do IPHAN e de seu principal mentor, a autora tenta fundamentar a hipótese central de que a “idéia de centro urbano dinâmico conduzida pelo IPHAN gerou a inserção de edifícios altos em áreas centrais e flexibilizou as normas de proteção de arquiteturas e paisagens tombadas”. Também faz-se importante reiterar que o desenvolvimento da trajetória profissional da maioria dos jovens personagens iphanianos, ocorreu simultaneamente à “época de intensa modernização das cidades e de suas linguagens” arquitetônicas e urbanas. É pois, com esta tese bastante criativa que Guimaraens tece o complexo caminho para que percebamos os “paradoxos entrelaçados”, à luz da dicotomia tradição e modernidade, que intitulam sua obra.

Aqui cabe registrar que, para aqueles que acompanham os escritos da autora, em seu mais conhecido livro – sobre o Urbanista Lúcio Costa – anteriormente publicado, em 1996, como parte integrante da coleção “Perfis do Rio”, Guimaraens já sinalizava nitidamente nesta direção de tentar entender as instigantes relações estéticas dos arquitetos do modernismo com a dita “tradição nacional”. Naquela obra, ainda nas primeiras páginas, o leitor mais atento fica sabendo que Lúcio Costa, também pioneiro fundador do IPHAN, “construiu a sua singularidade quando entrelaçou (...) incompatibilidades culturais: à tarefa de preservar as arquiteturas antigas adicionou simultaneamente o desejo (...) de construir, gerando os paradoxos conformadores da idéia contemporânea de proteção do patrimônio histórico.” (grifo nosso).

Por fim, cabe mencionar que, se à primeira vista o conceito de tombamento de edifícios e de áreas urbanas antigas parece incompatível com a concessão (ética e estética) da licença iphaniana para a construção de arranha-céus ao redor destas áreas, pelo relato minucioso da autora, fica-se sabendo que este complexo jogo de “pólos opostos” foi, paradoxalmente, unido pelos ideólogos pioneiros do IPHAN e, em última instância, pelo Modernismo.

[leia também, sobre o livro de Cêça Guimaraens: "Tradição e tecnologia: uma convivência harmoniosa", de Anita Regina di Marco e "Paradoxos explicados", de Carlos Kessel]

sobre o autor

Antônio Agenor de Melo Barbosa é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UFRJ , da Universidade Gama Filho e do Centro Universitário Plínio Leite

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