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PIZA, João. Vida e obra de Giancarlo de Carlo. Resenhas Online, São Paulo, ano 02, n. 022.01, Vitruvius, out. 2003 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.022/3205>.


O livro é de particular interesse, por apresentar o arquiteto através de outros temas que não a arquitetura. A editora Eleuthera, de cunho fortemente pacifista e anarquista, e o entrevistador, Franco Buncuga, também um simpatizante das idéias anarquistas, já nos revelam o foco da entrevista: a relação de De Carlo com o movimento anarquista, abordando sua vida, a política, a sociedade, e a arquitetura.

Giancarlo De Carlo nasceu em Gênova, em 12 de dezembro de 1919. Filho de Carlo De Carlo, (engenheiro naval nascido em Túnis de pais sicilianos) e de Dora Migliar (nascida em Santiago do Chile de pais piemonteses). Giancarlo cresceu com o pai, entre Gênova, Túnis, Livorno e Trieste.

Inscrito no curso de Engenharia do Politécnico de Milão em 1939, foi graduado antecipadamente em 1942, devido à convocação militar. Não queria ir para a guerra, já havia tomado contato com as idéias anti-fascistas. Conhecera egressos da Guerra Civil Espanhola que lhe relataram o comportamento do Exército Italiano ali, e isso lhe causara simultaneamente interesse pelas idéias anarquistas e desejo de mudar seu país.

“Eu não queria fazer a guerra, mas naquele momento era difícil não fazer a guerra”, disse, e assim serviu na marinha Italiana, na Grécia, por quatro meses, e foi posteriormente transferido para Milão. Logo que chega à cidade adere à resistência, tornando-se uma das principais lideranças partigianas da Lombardia. São tempos muito difíceis, em que molda suas visões de arquitetura e de política. No mesmo período, casa-se com Giuliana Baracco, companheira da resistência partigiana.

O convívio com o arquiteto Giuseppe Pagano, durante a guerra (foram companheiros na resistência partigiana), o aproximou da pesquisa sobre arquitetura vernacular. Pessoa de raciocínio ágil e polemista, Pagano ganha outras cores na fala de De Carlo, que conta algumas passagens cômicas de suas andanças partigianas pelas montanhas e povoados da Lombardia. Pagano era ainda um referencial intelectual e sobretudo ético. As circunstâncias de sua morte marcam De Carlo: Pagano foi preso em uma patrulha, e posteriormente enviado a um campo de concentração na Alemanha, onde foi executado. Outra visão sobre Giuseppe Pagano pode ser encontrada no texto “Valor de uma polêmica” de Giulio Carlo Argan (no livro Projeto e destino, Ática, São Paulo, 2001).

Durante a guerra, estuda Le Corbusier profundamente, publicando logo após o fim dos combates o livro Le Corbusier: antologia crítica degli scriti (Milão, 1945, editora Rosa e Ballo). Sobre Corbusier, De Carlo afirma que admira profundamente sua obra, mas que é preciso ponderá-la. E acusa os seguidores de Corbusier de seguirem ao pé da letra suas teorias, perdendo a essência de suas propostas e perdendo a evolução daquelas reflexões. Para De Carlo a guinada que Corbusier dá após a segunda guerra é fundamental para a compreensão de sua obra, pois dá outro significado, muito menos dogmático, a tudo aquilo que escreveu antes. Cita uma entrevista de Corbusier em que, indagado sobre o que pensava sobre seus planos de remodelação para Paris não terem sido aplicados, responde “tudo bem, eu amo Paris com todas as rugas”.

O conceito embutido nesta declaração sintetiza o que De Carlo busca em Corbusier: um outro homem, que construiu o personagem Corbusier com a deliberada intenção de provocar a reflexão e estimular a criatividade, aquecendo o debate. De Carlo encontrou outros fragmentos deste outro Corbusier em Marselha: enquanto De Carlo construía um navio no porto da cidade, foi visitar a pensão onde Corbusier passava a temporada. E lá estavam nas paredes fotos de Corbusier junto dos pescadores locais, em trajes informais, conversando muito a vontade e rindo. A dona da pensão afirmou que o hóspede era muito bem humorado, mas que não tinha disciplina com os horários, trabalhava loucamente em alguns períodos e depois dormia longamente... tudo ao contrário da lenda que se criara.

De Carlo prosseguiu pesquisando a arquitetura vernacular, paralelamente à pesquisa sobre Frank Lloyd Wright e Willian Morris. Ainda no imediato pós guerra, mantém laços estreitos com o movimento anarquista italiano, participando dos primeiros congressos. As dificuldades narradas de se viajar pela Itália arrasada pela guerra dão uma dimensão humana do que eram os últimos anos da década de quarenta ali. Em 1949 conclui o curso de arquitetura no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza, e passa a trabalhar no estúdio de Franco Albini, colaborando na elaboração do Plano Regional de Reggio Emília. Somado ao seu interesse sobre a obra de Patrick Geddes, (botânico e urbanista anarquista escocês), este trabalho tornou De Carlo uma das principais vozes na Itália em defesa da relação entre o planejamento da cidade e o planejamento da região. Em 1951 De Carlo organiza a Mostra de Arquitetura Espontânea na IX Trienal de Milão, que é de certa forma o coroamento de suas reflexões durante uma década.

Apesar de discordar de sua visão de arquitetura, De Carlo mantém uma ligação estreita com Ernesto Nathan Rogers, e ambos cultivavam suas discordâncias em um ambiente de respeito e admiração mútua. Rogers, mais velho, convida De Carlo a escrever na revista Casabella. Pouco tempo depois, De Carlo se desliga da revista por não concordar com a linha editorial. Rogers o indica então para integrar o grupo italiano nos CIAM’s, em 1952. De Carlo vai, e mantém uma postura crítica diante do International style que o aproxima dos Smithsons, de Van Eyck e outros arquitetos, que formariam o TEAM X e poriam fim aos CIAM’s em Otterlo, em 1959.

O TEAM X, em sua maneira de se reunir e debater, compartilha muitos pontos dos ideais anarquistas, e é para De Carlo uma peça importante para a construção de uma racionalidade dialógica sobre sua arquitetura. “Éramos apenas um grupo de arquitetos que buscavam fazer o que falávamos, e o debate era muito importante para detectar possíveis incoerências”. A contraposição aos CIAMs, com sua rígida hierarquia, e suas deliberações dogmáticas, fica evidente. O TEAM X nunca emitiu cartas com determinações, conclusões ou dogmas, por não acreditar na validade, nem na representatividade deste tipo de instrumento. Para De Carlo, os CIAMs usaram deste artifício como forma de conquistar espaço de propaganda para as idéias do grupo hegemônico.

Urbino, a cidade natal de Rafael, entra na vida de De Carlo de forma definitiva em 1951, quando faz sua primeira visita à cidade, convidado pelo reitor Carlo Bo, da universidade local, para projetar os alojamentos de estudantes. Foi o início de uma relação intensa de idéias e projetos, que resultou em diversas obras construídas e na ordenação do crescimento da cidade. De 1958 a 1965 elabora o Plano Diretor de Urbino, onde busca sistematizar o estudo mais “humano” do espaço, mapeando as visuais, os tipos de piso, as declividades das vias, a dinâmica cotidiana da cidade, conversando com a população, e, sobretudo, expondo as propostas à crítica pública. Depois, viriam ainda outras obras para a universidade e para a municipalidade. Até hoje, De Carlo segue trabalhando sobre Urbino, agora, com a transformação do “Orto dell’abbondanza”, em um “Observatório da Cidade”, um local onde se possa saber e participar dos projetos de transformação da cidade.

O contato com Urbino foi aberto por Elio Vittorini, escritor siciliano, comunista, companheiro na resistência partigiana, vizinho, e companheiro de férias, junto de Ítalo Calvino. De Carlo, Vittorini e Calvino passavam as férias em Boca di Magra, e deste convívio nasceu uma influência mútua. O livro Le cittá del mondo, de Vittorini, é considerado indispensável para a compreensão da obra de De Carlo.

Em 1966 é convidado como professor visitante pela escola de arquitetura de Yale. Nos anos seguintes, volta para lecionar no MIT, (que publica o Plano de Urbino em formato de livro), na Universidade da Califórnia, e na Universidade de Cornell. A passagem pelos Estados Unidos renova seus laços com os pensadores anarquistas e o projeto participativo, que procura trabalhar de maneira mais elaborada no projeto para o Bairro Matteotti, em Terni (1968-1974) e no Plano Detalhado para Rimini (1970-1972). De 1956 a 1983 é professor do Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. Nos movimentos estudantis do final dos anos 60, é um dos poucos professores de sua geração a se posicionar publicamente a favor dos estudantes. Mas analisa o processo criticamente: se de um lado via um fantástico impulso criativo e renovador no movimento, de outro, assistiu tristemente os burocráticos e dogmáticos assumirem a liderança dos acontecimentos em “discursos intermináveis sem sentido e cheios de palavras de ordem”. No fim dos anos 70, cria dois espaços fundamentais para sua reflexão sobre a arquitetura: o Laboratório Internacional de Arquitetura e Desenho Urbano (ILAUD) em 1976, e a revista Spazio e Societá em 1978.

Ao longo dos anos 80, De Carlo desenvolve o projeto de moradias para pescadores em Mazzorbo, uma ilha da Laguna Vêneta, vizinha a Borano, a ilha das rendas bordadas. Ao mesmo tempo em que desenvolve um projeto participativo, De Carlo aprofunda sua reflexão espacial. Se diz “depurado das tendências puristas de um lado, e das neo-realistas por outro”, iniciando assim uma nova fase de projetos. Trata-se de uma fase de menor investigação dialógica, e maior reflexão sobre o desenho, sobre a forma. O arquiteto associa isso à idade: declara que o projeto participativo demanda uma energia que já não possui, e assim, se recolhe para a reflexão solitária. É o caso da Torre de Siena (1988-89, não executada), dos portais de San Marino (1994-99), e do edifício da Faculdade de Economia, em Urbino (1999-2001).

De Carlo vê a participação como uma luta pela construção de uma racionalidade dialógica na arquitetura. Uma racionalidade construída não a partir dos anseios e conceitos dos arquitetos, mas sim, da coletividade. Porém não concorda com o advocacy planning, pois considera que esta postura tira do arquiteto o impulso criativo, reduzindo-o a um tradutor dos anseios coletivos. Insiste que o arquiteto deve trazer a inovação, enriquecendo o debate participativo, superando o repertório existente daquela coletividade.

O fortalecimento das pequenas comunidades, longe de nostálgico, é um passo rumo a uma sociedade mais cosmopolita, onde a consciência de cada um quanto ao seu papel na coletividade seja maior e, portanto, sejam os homens mais livres. É a mensagem que fica na arquitetura de Giancarlo De Carlo: arquitetura é a arte de se construir espaços para se viver... junto.

sobre o autor

João Piza é arquiteto, sócio do escritório INGÀ Arquitetura e Urbanismo, e trabalha atualmente na INTEGRA Cooperativa de Trabalho Interdisciplinar, na construção da Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST.

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