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BONDUKI, Nabil. A poética da economia. O pensamento e a obra de três importantes arquitetos brasileiros dos anos 70. Resenhas Online, São Paulo, ano 03, n. 028.02, Vitruvius, abr. 2004 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/03.028/3192>.


Todos os que estudaram nas escolas de arquitetura nos anos 70 viram-se envolvidos, voluntária ou involuntariamente, em um debate fortemente polarizado e maniqueísta entre duas correntes de pensamento cujos protagonistas principais estavam ausentes. Vivíamos os anos de chumbo da ditadura militar e alguns dos mais expressivos arquitetos e professores da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, como Vilanova Artigas, Paulo Mendes, Jon Maitrejean, Sérgio Ferro e Rodrigo Lefèvre, estavam afastados da escola, "aposentados", presos ou exilados pelos dispositivos autoritários.

Numa FAU "desorientada e dividida", como qualificou o professor Carlos Martins no prefácio deste cuidadoso livro, as correntes se expressavam por meio de revistas: "Desenho" representava a posição dos "artiguistas", identificada com o PCB e defensora do papel transformador do projeto, e "OU" expressaria a posição dos "ferristas", nas quais se alojavam as correntes de esquerda que tinham rompido com o Partidão, por eles considerado reformista, buscando mais na organização política do que na prancheta as alternativas para o futuro da profissão e do país. Embora tanto na política como na profissão os objetivos de ambas as vertentes fossem os mesmos, democratizar o país e ampliar o engajamento social da arquitetura, os métodos e a linguagem as separavam em polarização radicalizada.

A ausência dos mestres, a simplificação e o esquematismo das posições em disputa, a falta de liberdades e a existência de partidos clandestinos, que se camuflaram em correntes estudantis, fizeram com que esse debate se centrasse mais na política do que na reflexão sobre os rumos da arquitetura brasileira pós-Brasília, questão que estava na origem da prática e da teoria dos "ferristas". Estes ficaram, durante um bom tempo, injustamente identificados como se negassem o projeto arquitetônico ou, até mesmo, a própria profissão.

A dissertação de mestrado de Ana Paula Koury, agora transformada em livro, tem o grande mérito de resgatar e desvendar, de forma inédita, o pensamento e a obra do trio de arquitetos Sergio Ferro, Rodrigo Lefèvre e Flávio Império, mostrando sua relevante contribuição para a arquitetura, cultura e debate intelectual brasileiros.

Discípulos de Artigas, no sentido de absorver e reelaborar a linguagem e a perspectiva política do mestre da arquitetura paulista, os três compartilharam, durante os anos 1960, um escritório onde colocaram em prática em seus projetos, sobretudo de residências de classe média, o que eles mesmos definiram como "poética da economia": o agenciamento racional de experiências construtivas relativamente simples, cuja otimização dos procedimentos tinha como objetivo aumentar o desempenho de produção e o acesso à arquitetura.

Alienação

Abóbadas autoportantes, materiais em bruto e sem revestimento, caixilhos produzidos no canteiro surgem no âmbito de uma forte preocupação em criar um processo produtivo voltado para reduzir o custo da obra, objetivando sua socialização, e romper a alienação entre os trabalhadores e o produto de seu trabalho, tanto do ponto de vista material como intelectual.

Koury mostra como a concepção do trio se insere no fervilhante debate cultural e político dos anos 1960, estabelecendo uma interlocução criativa com propostas como o cinema novo, a pedagogia de Paulo Freire, o tropicalismo e o teatro Oficina, onde, aliás, Império realizou alguns dos seus muitos projetos cenográficos premiados. A autora, no seu esforço interpretativo firmemente lastreado em farta documentação, buscou mostrar a existência de uma identidade e um "programa" no conjunto da obra dos três arquitetos. Nesta perspectiva, caracteriza-os como um grupo Grupo Arquitetura Nova, expressão tomada do título do famoso artigo de Ferro que marcou, em 1967, uma espécie de manifesto de rompimento com Artigas, a arquitetura paulista e suas relações com o projeto nacional desenvolvimentista.

Trata-se de uma ousadia de interpretação muito bem-vinda, pois lança a hipótese, rica em possibilidades, que a concepção de Ferro e companheiros não foi interrompida nos anos 70, mas tem uma linha de continuidade, gerando uma vertente na prática e no pensamento arquitetônico que, em novos contextos políticos, produziu e pode ainda produzir horizontes mais democráticos para a arquitetura brasileira.

No início dos anos 70, com a prisão de Ferro e Lefèvre e o exílio do primeiro na França, o grupo se desfez e cada um seguiu carreira própria, dando continuidade em diferentes áreas de atuação (Império na cenografia, Ferro na pintura e Lefèvre na arquitetura) a um processo de criação intelectual. A atuação de Lefèvre e Império no ensino de arquitetura até meados dos anos 80, quando morreram em acidentes de percurso, e os textos fecundos de Ferro, com destaque para o Canteiro e o desenho, deixaram marcas fortes em um amplo grupo de "discípulos".

A ligação entre a concepção do Grupo Arquitetura Nova e novas propostas surgidas a partir dos anos 80, como no processo de produção habitacional baseado no mutirão e autogestão desenvolvido em gestões do Partido dos Trabalhadores onde se recoloca a questão da estética da separação, tão cara a Sergio Ferro é um campo de reflexão para novas pesquisas, como a que vem sendo desenvolvida por Pedro Arantes.

Com um elegante projeto gráfico de Carlito Carvalhosa e Mayumi Okuyama, a análise de Koury valoriza a produção do Grupo, reunindo, com um rigoroso redesenho, os projetos mais importantes. Permite, assim, que outros pesquisadores possam aprofundar aspectos específicos desta obra.

[resenha publicada originalmente no jornal Folha de S. Paulo, Jornal de Resenhas, 14 fev. 2004, p. 3]

sobre o autor

Nabil Bonduki é professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, vereador em São Paulo e autor de "Origens da Habitação Social no Brasil" (Estação Liberdade).

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