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O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto é o poema que marca a entrada de Pernambuco na poética cabralina, surgiu impressão que lhe causou a notícia, lida, à época, de que a expectativa de vida no Recife era de 28 anos e na Índia, 29.

how to quote

LORDELLO, Eliane. Viagem ao Recife de "O cão sem plumas". Resenhas Online, São Paulo, ano 12, n. 135.01, Vitruvius, mar. 2013 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/12.135/4694>.


Datado do período compreendido entre 1949-1950, O cão sem plumas marca a entrada de Pernambuco na obra de João Cabral de Melo Neto (Recife, 1920 – Rio de Janeiro, 2000). O poeta admitiu, em entrevista (1), que compôs este poema sob o impacto da forte impressão a ele causada pela leitura da notícia de que a expectativa de vida no Recife era de 28 anos, e, na Índia, de 29. Nessa época, o poeta residia em Barcelona, sendo o poema escrito à distância do rio, não obstante, bem próximo dele na sua memória.

Como em toda a obra de João Cabral, em O cão sem plumas, a poética prima pelo uso de palavras concretas, dando exatidão e visibilidade ao rio, sua “espessura”, sua “consistência” e relevância. São características inerentes à criação desse poeta que admitia querer dar a ver com sua poesia, por ele definida um esforço de “presentificação”, de “coisificação” da memória.(2)

Este artigo faz uma leitura de o cão sem plumas buscando revelar a cidade do Recife pela lente do rio Capibaribe – o cão do qual ninguém cuida, o cão de rua sem enfeites, sem plumas. O trabalho se inicia por reproduzir integralmente o poema e segue por analisá-lo segundo o encadeamento das partes de sua estrutura. Tais partes são definidas previamente pelo recurso às rubricas sinópticas, iniciando pela “Paisagem do Capibaribe”. Eis o roteiro de viagem, resta agora convidar a todos para conhecer o Recife de O cão sem plumas.

 

O cão sem plumas

(Paisagem do Capibaribe)

A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.

O Rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.

Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.

Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.

Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.

Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.

Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.

E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.

Em silêncio se dá:
em capas de terra negra.
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.

Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.

Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.

Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.

(É nelas,
mas de costas para o rio,
que “as grandes famílias espirituais” da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa.)

Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?

Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?

II

(Paisagem do Capibaribe)

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira do cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados 
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

III

(Fábula do Capibaribe)

A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.

No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.

(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
– ou do mastro – do rio.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.

Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.

O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria.)

O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.

Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.

Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.

Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.

Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.

(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:

A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
– trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada – .

Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres.)

IV

(Discurso do Capibaribe)

Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.

Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.

O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.

Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.

Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.

E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geleias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.

Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.

Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).(3)

 

Na primeira parte, o rio surge como paisagem móvel, sempre de passagem, seguindo seu inexorável destino de descer ao mar. Trata-se de um rio que por onde passou jamais conheceu com propriedade o frescor da água. Conhece, entretanto, a sensualidade peculiar ao meio aquoso, que tudo envolve, de modo completo, fácil, macio e lânguido. O rio não apresenta a desesperada inquietude dos peixes recém-pescados que, aos estertores, tentam escapar ao seu fado laminar; à sina do corte à faca, lâmina de aço, sendo, como a água do rio, matéria mineral. No entanto, o rio é mineral vivo, em movimento; enquanto a faca é mineral morto e, para os peixes, mortífero.

Dentre a paisagem humana, o rio abre-se em sua realidade diária, da cotidiana lida com a gente, que como ele, rio, é crispada, fustigada pela luta do dia-a-dia. Apesar dela, prenhe de vida, ele se dilata e se expande sem rompantes estentóreos. Assim se desenvolve o rio, sem o crescimento inflado dos pães, sem sua explícita vitalidade, mas cresce. Nesse crescimento silencioso é que amanha seus alimentos, para os pés e as mãos que avidamente buscam os caranguejos, mariscos, a nutrição que o rio provê.

Embora vivo, esse rio tem seus momentos de estagnação; neles, antes igualado ao cão, passa a ser comparável à cobra, por seu lento e coleante movimento. Na pele da cobra, em situação prandial, inerte, o rio faz assomar imagens de reclusão – a força do rio – detida, encarcerada em si mesma, traz a imagem da detenção, da prisão. A violência do rio, que tudo arrasta, concerne somente a ele, e não às margens que o oprimem. No poema, as margens são encarnadas pelas poderosas famílias dos senhores de engenho, que enxundiosa e edulcoradamente enriquecem, cegando-se ao rio que, histórica e maduramente, é subsidiário da manutenção de suas existências. Entrevê-se aí até mesmo uma crítica ao comportamento de um estrato social do qual participou o poeta, educado que foi em engenhos. Não tem assim, o rio, as razões alegres que movem os folguedos, as saltitantes águas que jorram das fontes; sem bulhas em seu fluir resignado, não canoro em seu arrastar aberto ao vento. Silencioso, o rio é uma imagem de mutismo. Sem essas expressões de vigor, o rio contrasta então com o concentrado azul com que figura em mapas, como se fossem esses, o crisol onde se apura aquilo que, na realidade, não é o rio.           

É possível concluir, dessa primeira parte, que o rio se mostra geograficamente como meio natural que corta e atravessa a cidade. Expressa, assim, a conotação daquilo que a visita e nela estabelece um sendeiro, como um cachorro que por ela vagasse, mas também como um instrumento que a corta e abre desproporcionalmente, tal como uma espada faz a uma simples fruta. Em seu desenvolvimento pela cidade, o rio assume ares de mansidão, abrindo-se em formas curvas como as de um ventre, ou em poças sujas, lembrando a tristeza do olhar marejado de um cão.

É em essência um rio triste, posto que por ninguém é cuidado, sequer recende à vida que é atribuída à água, aos peixes saudáveis, à brisa. Por outro lado, há nele a vida que faz brotar os mangues de “folhas duras e crespas” como as gentes que às suas margens vivem. Dessa forma, como a daquelas gentes, aí a fecundidade do rio é sofrida – no que se pode discernir o rio transfigurando a crítica social do que acontece às suas margens. Por fim, na primeira parte, no rio escorrem as mazelas que nada condizem com a coloração azul que lhe conferem os mapas.

Na segunda parte, esse rio que flui cortando a paisagem é o companheiro que aos seus vizinhos, coirmãos de sofrimento e expropriação, segue fraternalmente. A tristeza do rio cão é comparada à da arvore que sequer ressona ao vento, que tampouco abriga pássaros; ao contrário, anuncia o rio toda a expropriação que sofre. Por ela, o rio se irmana aos homens, espoliados, destituídos, e às merencórias vidas que às suas ribeiras vivem. Todavia também conheça o rio, as anchas ribeiras de amplos horizontes onde a gasolina é armazenada em portentosos tonéis, lembrança permanente do dourado fausto desse líquido.

Assim como o vira-lata de rua, dervixe flâneur, o rio percorre as contradições sociais que a economia fez erigir na paisagem. Mais ainda, por tudo percorrer, o rio pode cernir o essencial e ser companheiro dos “homens sem pluma”, e de suas vidas constituídas por ausências, perdas; suas existências paralíticas como a lama onde se perdem até, como elas, tornar-se inerme. Tão imiscuído está o rio nessa paisagem, que com ela se mimetiza, de tal forma que se torna difícil visualizar suas origens, distingui-las das origens dos homens, da lama que os amalgama, da água que amolenta ou alquebra sua verve humana.

Enfim, na parte II, surge o rio em seu viés funcional, em sua participação na manutenção do funcionamento econômico da cidade. O rio se mostra tão conhecedor da pobreza dos que trabalham às suas margens, quanto da riqueza que deveria advir de sua abertura portuária, de seus galpões que recendem à gasolina. É o rio que sabe dos homens, pontes e sobrados “ossudos”, corpos humanos e edilícios moldados pelo pesado labor. Trata-se do rio onde se perdem os destinos desses corpos maltratados e sem plumas. O rio onde as origens dos homens, da lama e da terra se confundem. O poeta finalmente se questiona se aqueles homens já não se deixaram esmorecer, tal como as rochas se deixam amolecer pela contínua lida com a água. Aqui o rio se configura como a paisagem humana e social por excelência.

A terceira parte mostra o rio que, cortando a paisagem, lastradamente a fecunda, até encontrar seu postimeiro lugar, seu derradeiro destino – o mar. Este, por sua vez, surge como antítese do rio, em alva e espraiada faixa de areia, na qual o mar, na amplidão de suas marés, desenha uma miríade de silhuetas – como se fora a areia um eternal palimpsesto, perenemente raspado pelo mar.

Em seu flamejante movimento, o mar é comparado a uma bandeira, porém dentada, que, como o poeta, esmerila aquelas silhuetas;  ou como um roedor ou polícia prepara laboriosamente seus esqueletos: o mar visto em sua dicotomia, seus atributos de bondade e maldade. O mar mordaz que, em seu eviterno movimento, transforma a paisagem e a si mesmo, até que, por reiteração, alcance o silêncio – termo de sua pureza. A pureza por que o mar laboriosamente se esforça ao lapidar a paisagem de forma límpida, imaculada. Essa vastidão, essa movimentação extensiva, a princípio melindra as águas do rio; por outro lado, em seu quase sensual jogo de avanços e recuos, o mar parece desejar derramar-se nas águas do rio. Este, com a sua índole contida, busca os afluentes, confluindo as suas águas com as deles em lagunas, terrenos regados de fertilidade. Paroxismo da fertilidade fluvial, onde os mangues, mesmo mutilados, se reproduzem, a laguna é a paisagem que rememora a vitalidade da fonte, sendo precisamente nela onde se fortalece o rio para o encontro com o mar.

Concluindo, na parte III, a “Fábula”, o rio é confrontado com o mar, que é o seu postremo, onde rio deságua e se estende, se amplia. A relação do rio com o mar é exposta de maneira conflituosa. Ora o contido, o ensimesmado, teme a saída de seu próprio recolhimento para encontrar a expansão, ora é o expansivo que se tranca àquela pobreza de que está eivado o transido. Noutro momento, pode o mar invadir o rio e elidir aquela miséria. Desta feita, o mar é aquilo que infirma o rio. Entretanto, em sua detenção anterior à desembocadura, o rio se caldeia com outros, se amalgama com a terra e forma lagunas onde se reforça para seu derradeiro encontro com o mar. São as lagunas habitadas pela vida, a que persiste nas frutas, mesmo depois de cortadas. São as lagunas o ambiente onde aflora a vida marinha, como aflora o açúcar das frutas. Eis porque nelas se fortalece o rio para o seu derradeiro encontro com o mar.

A fábula se caracteriza por uma narrativa curta e de estrutura dramática, comumente protagonizada por animais ou pela atribuição de elementos a seres que não os possuem, podendo conter moral implícita ou explícita. Assim, o rio-cão, o mar-bandeira e a laguna-fruta são os protagonistas dessa fábula contida dentro do poema. Cada um encerrando uma alusão às idiossincrasias humanas, deixando entrever uma moral: tal como os humanos, que isolados não se bastam, sozinhos, nem o transido rio, nem o expansivo mar, nem as frutificantes lagunas, bastam-se na sanha em que estão envolvidos. Ao tomar elementos formadores da paisagem por alusão às idiossincrasias humanas, essa  fábula consagra a interdependência desses elementos.

Na quarta parte, “O Discurso”, nota-se como o rio diz sempre da vida, eis porque vive na memória. Nela vive como uma paisagem fluida, corrente, que em si mesma contém a vida, por sua matéria aquosa, líquido sempiterno para a manutenção da vida. Além disso,  porque vivo, o rio aporta os conflitos, as lutas diárias, as contradições inerentes à vida. Carreando em sua materialidade a água – que irriga a terra, que produz o alimento, que nutre o sangue – o rio é sintetizado em sua essência: água, alimento da vida. Assim sendo, o rio é real como ela, e se perpetua num crescendo, pelo cotidiano conquistar de mais vida.

Em suma, a parte IV mostra o rio ao mesmo tempo dolente e forte; em repouso e em movimento; estagnado e vivo; é, portanto, um rio sujeito a vários oxímoros, percorrido primordialmente pela dualidade, movimentando-se entre contrários. Dessa forma, o rio tem a espessura da vida, posto que é próprio das vidas movimentarem-se entre opostos, serem duais e, por vezes, contraditórias. O paroxismo dessa característica se encontra na comparação: “como é mais espesso/ o sangue de um homem/ do que o sonho de um homem”. Ademais, é ele mesmo um produtor de realidade, posto que fluindo entre geleias de terra, para ilhas negras, segue sucessivamente aprimorando a vida “(como uma ave/ que vai cada segundo/ conquistando seu vôo.)”.(4)

Por tudo saber da paisagem, dos lugares e suas gentes, das residentes e das errantes, por carrear corajosamente os dons e os atributos que concernem à vida e, mesmo em meio a tantas dificuldades, instilar a inspiração do vôo, é que o Capibaribe sagra-se o como genius loci (5) do Recife. Neste caso, na dupla condição de gênio do lugar e de gênio protetor dele. Conhecer o Recife que está sob a guarda deste gênio é apenas um dos bons motivos para viajar ao Recife de O cão sem plumas.

notas

NA
Para meus pais, João e Marisa, com incalculável gratidão.

1
MELO NETO, João Cabral de. Considerações do poeta em vigília. Cadernos de Literatura Brasileira, Rio de Janeiro, n. 1, p. 21-31, mar. 1996. Entrevista concedida a Rinaldo Gama.

2
MELO NETO, op.cit., nota 2.

3
MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999, p. 105-116.

4
MELO NETO, op cit., p. 105-116.

5
Para o conceito de genius loci ver: NORBERG-SCHULZ, Christian. Genius Loci: towards a phenomenology of architecture. London: Academy Editions, 1977;  BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas III: Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1994.

sobre a autora

Eliane Lordello é Arquiteta e Urbanista (UFES, 1991), Mestre em Arquitetura (UFRJ, 2003) na área de Teoria e Projeto, Doutora em Desenvolvimento Urbano (UFPE, 2008), na área de Conservação Urbana. Pesquisa, sobretudo, os seguintes campos: Memória e Patrimônio Urbanos; Representações Sociais de Arquitetura e Cidade; Poéticas Visuais de Arquitetura e Cidade. É fortemente interessada em literatura, cinema e música clássica, e possui publicações também nestes campos, inclusive neste Vitruvius.

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O cão sem plumas

O cão sem plumas

João Cabral de Melo Neto

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