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português
Análise fenomenológica do protagonismo do público nas experiências de imersão e interação ao longo do percurso de visitação da mostra “Disruptiva” no Festival File (CCBB-RJ, Rio de Janeiro, 13 de abril a 04 de junho de 2018).

english
Phenomenological analisys of the visitors importante role within the experiences of imersion and interaction during the visitation of the “Disruptive” exhibition during the File Festival (CCBB-RJ, Rio de Janeiro, 13 de abril a 04 de junho de 2018).

español
Análisis fenomenológico del protagonismo del público en la experiencia de inmersión e interacción durante la visita de la muestra “Disruptiva” durante el Festival File (CCBB-RJ, Rio de Janeiro, 13 de abril a 04 de junho de 2018).

how to quote

RIBEIRO, Suzane. Disruptiva, imersiva, interativa. Sobre a exposição File Rio de Janeiro 2018. Resenhas Online, São Paulo, ano 17, n. 198.03, Vitruvius, jun. 2018 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/17.198/7016>.


Mas afinal o que significa File? Mesmo depois de 18 anos de edições consecutivas, o nome do festival que acaba de inaugurar a mais nova exposição em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, trata-se de um acrônimo, ou seja uma palavra formada pela junção das primeiras letras de um grupo de palavras, que nesse caso específico são: Festival Internacional de Linguagem Eletrônica, ou seja File. Não por acaso em inglês file significa arquivo e é em inglês que convencionou-se sua pronunciação pelo público brasileiro. O que claro, tem a liberdade cultural e poética de muitas vezes não acontecer.

Desde 2000 o File leva a sério o importante papel que cumpre eficientemente em ser no Brasil um importante núcleo de divulgação e reverberação do que há de mais atual e expressivo no panorama da arte eletrônica nacional e internacional, através das inúmeras montagens realizadas ao longo de 18 anos em vários estados brasileiros. O File trouxe ao Rio esse ano, depois de passar pelos CCBB de Brasília e Belo Horizonte, a nova mostra chamada “Disruptiva” que tem a curadoria de Paula Perissinotto e Ricardo Barreto. A mostra foi distribuída desde o térreo do CCBB, incluindo o hall de entrada e a rotunda, até o primeiro andar. Desde sua inauguração em 13 de abril de 2018, tornou-se alvo de grande curiosidade e atraiiu o interesse da população que forma diariamente longas filas para ter acesso as mais diversas propostas de instalações interativas (1).

A mostra “Disruptiva” veio de fato para romper com a tradicional convenção de ação contemplativa do público em centros culturais. Quem foi ao CCBB por esses dias em busca de uma visitação passiva e contemplativa se surpreendeu profundamente com a sucessão de convites à interação com as obras, algo ainda inusitado no cotidiano da maioria das pessoas, mas já intensamente explorado no âmbito das infinitas possibilidades tecnológicas.

O mais curioso, no entanto, é que mesmo já em pleno século 21, as obras mais disputadas e que exercem grande encantamento e maior impacto no público em geral são exatamente as obras menos tecnológicas e mais mecânicas. São quatro as obras de maior destaque por acolherem os corpos dos visitantes de maneiras inusitadas os tirando materialmente de sua zona de conforto, desfazendo suas referências e equilíbrio. As obras de maior destaque da mostra são quatro: “Nemo Observatorium” e “Shrink” de Lawrence Malstaf (Bélgica), “Swing” de Christin Marczinzik & Thi Binh Minh Nguyen (Alemanha) e “The Physical Mind” de Teun Vonk (Holanda).

 

Em cada uma dessas obras, a proposta mais disruptiva que é possível experimentar é a simbiose que se estabelece entre o corpo do visitante e a própria obra, provocada pela necessidade que cada instalação tem de ser ocupada para ganhar sentido e finalmente acontecer. São verdadeiras obras-acontecimento nas quais o público vira por um instante a própria obra resultando em um momento transformador, um corte no tempo e espaço cotidianos para quem se entregou, imergiu e interagiu a cada proposta, efeito que transborda e afeta também a quem assiste.

A exposição tem início a partir da sugestão de que a entrada seja feita pela obra cinética “Túnel” de Rejane Cantoni & Leonardo Crescenti (Brasil), que se apresenta à primeira vista como um túnel retangular prateado aparentemente simples composto. Ao longo do percurso o túnel responde a cada passo dos visitantes ao se desconstruir em fatias retangulares que se movimentam lateralmente. A interação mecânica a partir do caminhar do visitante, já anuncia o quanto tudo ao redor não só tem potência de ser alterado, mas que deve ser sim, alterado pela presença humana. Ali o público já começa a constatar o quão disruptiva é a mostra e que naturalmente não se trata de uma exposição de arte hermética ou contemplativa, mas sim inclusiva e interativa.

Nemo Observatorium, de Lawrence Malstaf. Exposição “Disruptiva”, File Rio de Janeiro 2018
Foto Lawrence Malstaf [Tallieu Art Office]

Já na rotunda vemos um grande cilindro em estrutura preta e fechamento transparente que é o local que abriga a obra “Nemo Observatorium” de Lawrence Malstaf (Bélgica). A ideia é que o participante se sente na cadeira situada ao centro da instalação e ele mesmo tem acesso ao botão vermelho de controle liga e desliga do mecanismo de acionamento das poderosas ventoinhas que fazem as pequenas esferas de isopor rodopiarem a sua volta. As pequenas esferas brancas não seriam exatamente necessárias, mas estão ali para cumprirem a tarefa de tornarem o vento visível ampliando a percepção da experiência. Ao se posicionar no centro, o visitante se encontra no único lugar do cilindro onde o potente vento circular não o afeta, o que contrasta com a ventania circular visível de esferas brancas ao seu redor. O que descobrimos é que o olho do tornado é o lugar mais tranquilo de se estar, ou seja, algo que pode ser encarado como uma metáfora para lidar com as turbulências da vida.

Shrink, de Lawrence Malstaf (detalhe)
Foto Lawrence Malstaf [Tallieu Art Office]

Na sequência nos deparamos com a obra “Shrink”, também de Lawrence Malstaf (Bélgica). Trata-se de uma estrutura tubular de ferro muito simples, sem nenhum tipo de pintura, que estrutura duas folhas de plástico maleável e transparente unidos nas pontas por velcros brancos. Do lado direito, no chão um motor preto e do lado esquerdo uma escada também preta de acesso a parte interna do plástico transparente. Entre os plásticos encontram-se dois tubos que o visitante ao entrar deve segurar em posições específicas para garantir sua possibilidade de respiração ao ser... embalado à vácuo! É extremamente surpreendente a proposta, pois afinal quando no cotidiano, seria possível ser embalados à vácuo, em público e em pleno centro cultural? A sensação inicialmente é um tanto angustiante, mas bem administrável, a duração é de no máximo dois minutos, e uma vez estabilizado o estranhamento, chega-se a ter uma sensação de conforto, o que nos possibilita ir mais profundamente na experiência, ao nos entendermos em uma situação em que todas as partes do corpo estão sendo levemente pressionadas, o que proporciona uma percepção plena dos limites da matéria que constitui o corpo e seu contorno como um todo. Na proposta original a indicação é que o visitante se movimente dentro da embalagem buscando diferentes posições, o que amplia ainda mais as possibilidades de percepção.

Já na entrada do primeiro andar, o visitante é convidado a viajar no tempo e no espaço. Extremamente lúdica, a obra “Swing” de Christin Marczinzik & Thi Binh Minh Nguyen (Alemanha) é não somente a primeira instalação imersiva digital a qual o visitante tem acesso, como talvez seja a que apresenta o maior potencial de imersão em toda a mostra. Nela o espaço materializado encontra o espaço virtual e a realidade para o visitante ganha novas dimensões. A obra materialmente é composta por uma estrutura preta enxuta, simples, na qual podemos ver a passagem dos fios e todo o mecanismo de funcionamento. Ao sentarmos, recebemos os óculos de realidade virtual e ao nos balançarmos damos início a experiência digital para qual a nossa mente é conduzida, assim como toda a realidade por instantes. Nesse momento a percepção do virtual torna-se extremamente real e proporciona uma viagem visual através de imagens que emulam a subjetividade. O visitante entra na realidade virtual e se sente provocado e encorajado a se desfazer de qualquer medo e balançar cada vez mais forte e mais alto para intensificar a experiência de voo.

“A palavra virtual vem do latim medieval virtualis, derivado por sua vez de virtus, força, potência. Na filosofia escolástica, é virtual o que existe em potência e não em ato. O virtual tende a atualizar-se, sem ter passado no entanto a concretização efetiva ou formal. A árvore está virtualmente presente na semente. Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõe ao real mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferentes” (2).

A obra “Swing” se destaca em seu potencial imersivo, uma vez que ao se balançar, o visitante não só sai da sua postura usual ereta, como perde os referenciais físicos e tem acionada a sua memória corporal de infância enraizada em sua matéria a partir de todas as vezes em que teve a oportunidade de se balançar em cada parquinho visitado.

Depois desse primeiro impacto o visitante terá contato com o passeio virtual criado pelo Oculus Story Studio, “Dear Angelica” (Estados Unidos), também através de óculos VR. Na sequência surgem as lupas polarizadas da instalação “Simulacra” de Karina Smigla-Bobinski (Alemanha) que é tão simples quanto surpreendente, a partir da interação das lupas com as TVs de LED, revelando sombras de uma presença preda no cubo de LED e que não pode ser vista a olho nu, resultado em uma experiência extremamente inquietante.

A partir daí percorre-se outras obras até que se chega na área onde está a instalação inflável criada por Teun Vonk, “The Physical Mind” (Holanda). Esse é um dos ápices das experiências mais inusitadas que a mostra proporciona. De novo, estruturas simples de ferro pintadas de preto que apresentam plásticos brancos no piso e pendurados em seu interior. Somos orientados a nos deitar no chão em cima do plástico que está no piso, de acordo com as marcações cuidadosamente instaladas para que possamos aproveitar a experiência de maneira segura. Uma vez que estamos posicionados, potentes ventiladores são acionados e lentamente os plásticos começam a ser inflados. Aos poucos nosso corpo sobe impulsionado pelo inflável inferior ao mesmo tempo em que o inflável superior vai ganhando forma, até que chega o momento em que o inflável superior começa a encostar em nosso corpo e fazer uma leve pressão. De repente, de maneira suave nos percebemos literalmente flutuando, deitados como se estivéssemos realizando aquele antigo sonho de habitar as nuvens. O inflável embaixo nos sustenta como se estivéssemos suspensos no ar, enquanto o inflável de cima nos dá conforto e segurança. Nos sentimos extremamente leves que se soma a uma sensação suave de tranquilidade e fragilidade reforçada pela delicada iluminação interna dos infláveis que cria uma atmosfera poética ao redor da experiência.

Não passa despercebida a instalação “Be Boy Be Girl” de Frederik Duerinck, (Holanda). No canto de uma sala, vemos piso e parede brancos, uma mesa com um computador, uma espreguiçadeira de plástico branco, um ventilador e um artefato de calefação suspenso por um tripé, além de uma taça de plástico transparente ao lado da espreguiçadeira. De novo uma ambientação extremamente técnica, enxuta e simples. Somos orientados a nos deitarmos na espreguiçadeira, pegar a taça e antes de colocarmos os óculos VR e os fones de ouvido, o monitor nos pergunta se queremos vivenciar aquela experiência como homens ou mulheres. O ponto alto dessa instalação é justamente escolher o sexo oposto. E é assim que por alguns minutos nos encontramos em uma praia deserta paradisíaca, deitados em uma espreguiçadeira, sentindo a brisa na beira do mar, o calor do sol e podemos ver no lugar do nosso corpo material, nosso novo corpo digital. Para completar a imersão, também somos envolvidos por perspectivas sonoras que mudam ao virarmos nossa cabeça para observar ao redor. Trata-se de uma experiência de uma poderosa imersão virtual, porém estática, uma vez que em que não há sensores espalhados pelo nosso corpo para ampliar a interatividade, mas vale e muito a experiência.

A partir dessa instalação seguimos na sequência por diversas experiências interativas, vídeos, projeções, games e sensores de presença. É uma provocação atrás da outra até chegarmos ao final da exposição quando somos recebidos em uma grande sala massivamente ocupada por uma instalação de grandes dimensões composta por inúmeras fitas de LED que apresentam 18.000 pontos de luz branca em um movimento ininterrupto nas mais variadas direções. Essa instalação espaço-temporal que simula sinapses mentais, apresenta de maneira simples o desenvolvimento de uma narrativa que ilustra a experiência cognitiva vivenciada pelos visitantes através do conjunto cadenciado de experiências surpreendentes pelas quais acabam de passar. Aos poucos a velocidade dos pontos de luz branca se intensifica até que os pontinhos vão ganhando pouco a pouco cores que a cada momento se diversificam mais e mais até que toda a instalação se ilumina. Trata-se de uma montagem irretocável, arrebatadora e de grande sensibilidade para finalizar o percurso da experiência em grande estilo. Sendo puramente contemplativa, a instalação “Hardwired” do coletivo Polymorf composto por Marcel Van Brakel & Frederik Duerinck (Holanda), nos convida finalmente a uma pausa para reflexão.

Visualmente a montagem de todas as instalações são sempre muito simples com todos os seus mecanismos e equipamentos aparentes. Não há a preocupação em esconder as formas de funcionamento de nada, sendo um convite a experimentação do novo, mas sem nenhum tipo de ilusão. A estética da exposição é assumir os bastidores de cada instalação, que só se constitui em palco quando há a participação do visitante. Tudo o que é vivenciado ali parece extremante palpável e acessível, sem truques ou subterfúgios, fica claro que não se trata de um parque de diversões. É entretenimento sem distanciamento. Não deixei de me surpreender diversas vezes ao notar que eram visíveis, os cabos de energia acoplados às tomadas nas paredes sem constrangimento algum.

A mostra é composta por um grande número de instalações individuais que em conjunto constituem uma poderosa intervenção no CCBB que parece ter-se transformado pela exposição em um ser vivo. A mostra é disruptiva para além do nome em todos os sentidos e apresenta um longo e imensurável poder de alcance, como ato ou efeito de romper em larga escala, uma vez que ao se perceberam protagonistas das experiências, os visitantes tem constantemente compartilhado suas experiências nas redes sociais.

A exposição é encantadora por expressar de maneira tão simples e palpável obras de seres humanos para seres humanos, a partir de recursos tecnológicos ou mecânicos complexos. Com o intuito de aproximação do público de novas ou nem tão novas assim, mas sempre surpreendentes e variadas, conquistas tecnológicas e investigações acerca das diversas possibilidades de interação. O funcionamento das coisas em nosso cotidiano tende a cada vez mais se apresentar como uma caixa preta lacrada e inacessível. O Festival File numa belíssima contramão revê e transborda o conceito de acessibilidade para o campo cognitivo. A arte digital surge e se populariza como uma arte não exclusiva, mas sim, como uma forma inclusiva de expressão cultural. O File se reafirma a cada nova mostra como um convite generoso de aproximação de todo o tipo de público ao universo da tecnologia e as mudanças no jeito de nos relacionamos com as coisas do nosso tempo, ou seja com a produção cultural contemporânea.

notas

1
Exposição File Rio de Janeiro 2018. Disruptiva – a arte eletrônica na época disruptiva. Curadoria de Paula Perissinotto e Ricardo Barreto. Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB-RJ, Rio de Janeiro, 13 de abril a 04 de junho de 2018.

2
LEVY, Pierre. O que é o Virtual? São Paulo Editora 34, 2011, p. 15.

sobre a autora

Suzane de Queiroz Ribeiro é arquiteta (UFRJ, 1996) e atua como cenógrafa. Seu trabalho obteve reconhecimento em premiações nacionais, como o Prêmio IDEA Brazil, Prêmio Caio e Prêmio Colunistas. Atualmente é mestranda em Design na PUC-Rio, e atua como professora na graduação de Arquitetura na PUC-Rio, na Pós-graduação em Cenografia da Universidade Veiga de Almeida e é coordenadora do curso Master Profissional Design do Entretenimento no IEDRio.

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