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português
A exposição “Verger e Carybé: entre as duas margens do Atlântico”, demonstra a importância do olhar destes estrangeiros em um país cuja história é marcada por inúmeras tentativas de apagamento dos indícios da cultura africana.

english
The exhibition “Verger e Carybé: entre as duas margens do Atlântico” demonstrates the importance of the eyes of these foreigners in a country whose history is marked by countless attempts to erase evidence of African culture.

español
La exposición "Verger e Carybé: entre as duas margens do Atlântico" demuestra la importancia de los ojos de estos extranjeros en un país cuya historia está marcada por innumerables intentos de borrar la evidencia de la cultura africana.

how to quote

CARVALHO, Luiz Gustavo. Verger e Carybé. Entre as duas margens do Atlântico. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 212.05, Vitruvius, ago. 2019 <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/18.212/7456>.


Festa da Ribeira, Salvador, Brasil
Foto Pierre Verger [Fundação Pierre Verger]

Em 1549, quando Tomé de Sousa fundou a cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos, em um Brasil dominado pela escravidão indígena, ele não poderia imaginar que ela viria a se tornar a maior urbe negra fora do continente africano. Porto estratégico do ambicioso projeto ultramarino português, Salvador seria conhecida como a Roma Negra graças ao seu crisol de raças e credos, uma experiência civilizacional aquecida pelos calores de uma mestiçagem tantas vezes violenta e que produziria uma experiência extraordinária de sincretismo cultural. A presente exposição trata de dois olhares que se mostraram altamente sensíveis a tais fenômenos e dedicaram-se sistematicamente a fixar sua irrepetível idiossincrasia: o do fotógrafo e antropólogo Pierre Verger e o do artista plástico Carybé.

A substituição da mão de obra indígena pela importação de africanos apresados em suas terras inaugurou um dos maiores holocaustos da história humana: a diáspora transatlântica. O Brasil seria o destino de praticamente cinco milhões de negros escravizados que, durante mais de três séculos, trabalhariam duramente nos canaviais, nas minas e nas plantações de café, cacau e algodão em condições desumanas, impostas por uma sociedade escravista, cuja estrutura perdura até os nossos dias. Como assevera Verger, “do tráfico de escravos resultou, no Novo Mundo, uma multidão de cativos que não falava a mesma língua, possuindo hábitos de vida diferentes e religiões distintas. Em comum, não tinham senão a infelicidade de estar, todos eles, reduzidos à escravidão, longe das suas terras de origem”. Mas isso jamais ocorreu sem variadas formas de resistência. A conservação de línguas, genealogias, ritos religiosos, sementes, costumes e crenças inaugurou uma batalha tão importante como aquela pela própria liberdade: a luta pela preservação de identidades estilhaçadas por poderosas forças desagregadoras. É assim que o camoniano mar português dos navegadores torna-se a Kalunga Grande dos africanos capturados nos porões dos navios negreiros, espécie de limiar ou portal de passagem para um mundo espiritual habitado pelos mortos.

Se os primeiros escravos trazidos foram os africanos de origem bantu, do Congo e de Angola, os nagôs foram os últimos a se estabelecer no Brasil, em fins do século 18 e início do século 19. Embarcados nos portos de Ouidah (Ajuda) e em Cotonu, trouxeram consigo um panteão de divindades locais que, reunidas na Bahia, cobririam diversos aspectos da vida humana: da agricultura à caça, da justiça ao amor, da guerra à fitoterapia, dos ventos aos mares. Organizava-se assim, e fora da África, o notável mundo dos Orixás como um autêntico sistema de representações da vida humana dotado de complexas cosmologias e profusos mitos transmitidos oralmente pelos odús e consultáveis pelos sacerdotes de Ifá, os babalaôs da tradição jeje-nagô.

Em um país cuja história é marcada por inúmeras tentativas de apagamento dos indícios da cultura africana e afrodescendente, qual é a importância do olhar destes dois estrangeiros, cada qual fascinante e fascinado a seu modo, Héctor Julio Páride Bernabó (Carybé) e Pierre Edouard Leopold Verger, que juntamente contribuiriam para a fixação testemunhal e a circulação do imaginário desta que representa hoje 60% da população brasileira, alcançando a concentração de 80% em Salvador e no Recôncavo Baiano?

De países e origens distintas, com temperamento muitas vezes antagônico, Verger e Carybé tinham em comum o gosto pela simplicidade e o olhar perspicaz sobre a vida. Chegaram à Bahia já maduros, viajados e gozando de um reconhecimento pelos seus trabalhos artísticos. Foram imediatamente seduzidos pelo “mistério que escorre sobre esta cidade”.

Se o espaço geográfico da África genitora e seus elementos culturais são, na diáspora, transplantados e restituídos nos “terreiros”, os traços desta religião, na Bahia, estendem-se e influenciam até mesmo as atividades mais profanas desta população, criando uma cultura muito particular. Rapidamente a cultura baiana, e sobretudo aquela ligada ao candomblé, inspiraria Verger e Carybé com uma força irresistível. O contato com o seu aspecto cultural e religioso alimentaria nos dois a busca por uma estética que iria revitalizar a arte brasileira feita fora do eixo Rio-São Paulo, projetando nacional e internacionalmente uma “Bahia de todos os santos e orixás” atualizada pelos influxos da pintura moderna e da grande tradição da fotografia humanista francesa.

Contudo, esse foi também um movimento geracional. Entre outros protagonistas de primeira grandeza, Carybé e Verger somavam-se a Mario Cravo, Jorge Amado e Dorival Caymmi, entre outros. E todo este grupo de intelectuais teve a sua principal referência religiosa no Ilê Axé Opô Afonjá e na figura de sua ialorixá, Mãe Senhora, que conduziu a casa entre 1942 e 1967 e provocou mudanças significativas na vida e obra de ambos os artistas.

O contato mantido com o candomblé da Bahia foi o grande estímulo para que Pierre Verger, consciente da impossibilidade de entender o Brasil sem que se compreenda a África, cruzasse o Atlântico, em 1948, para iniciar uma pesquisa pelas comunidades étnicas da Nigéria e do Daomé (atual Benin). Tal investigação resultaria na publicação do seminal Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Baía de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX e do livro Orixás, deuses iorubas na África e no Novo Mundo, entre diversas obras cujos temas abrangem desde os costumes da Salvador colonial até a fitoterapia iorubana.

Já Carybé, através da inserção de elementos da cosmologia e cosmogonia do candomblé nas suas obras, contribuiu para uma redefinição estilística da herança afro-brasileira no cenário artístico. Do entalhe à cenografia, com especial atenção à pintura e ao desenho, é impossível não associar a representação artística do candomblé aos traços memorizados com precisão e retratados com virtuosismo pelo artista.

De uma margem à outra deste Atlântico Negro, a presente exposição incita a uma leitura não (só) linear, retratando visualmente uma parte dessa circulação existente entre a África e a Bahia, assim como o fértil diálogo contrapontístico estabelecido entre as fotografias de Pierre Verger e os desenhos e aquarelas de Carybé.

Alabês, obra de Carybé
Imagem divulgação

As imagens de Verger, realizadas entre as duas margens do Atlântico, constituem também um documento etnográfico, além de artístico, sobre as crenças e tradições iorubás. Carybé, nas aquarelas pintadas entre 1950 e 1980 para a Iconografia dos deuses africanos no Candomblé da Bahia, realizou um trabalho quase debretiano que, no entanto, assim como as fotografias de Verger, é marcado por um conhecimento “de dentro”. Para além da mera representação tematizante, como iniciados nos cultos afro-brasileiros, ambos produziram obras que também se integraram como parte valiosa do patrimônio desse universo mítico, alcançando, por vezes, até mesmo um aspecto totêmico. Este lado mítico da obra de Verger e Carybé é, certamente, resultado da própria posição dos artistas, que circulavam entre estes dois universos, o artístico e o religioso, sem segmentá-los, mas, ao contrário, tornando-os convergentes.

Carybé e Verger cultivaram durante toda a vida uma estreita amizade permeada pela arte e a religião. Até o final dos anos 1980, Verger tornou-se uma espécie de mensageiro entre o Brasil e a África, dividindo seu tempo e sua atenção entre estes dois continentes. Em duas ocasiões, em 1969 e 1987, Carybé rendeu-lhe visitas no Benin.

Com frequência, o traço ágil do artista plástico confere animação às fotografias que Verger realizava no mesmo período em que Carybé trabalhava nas aquarelas do candomblé, as quais, por vezes, poderiam pleitear o status de fotografias pintadas. Essa fabulosa articulação logrou plasmar o modo de vida baiano como uma sinfonia de figuras humanas, paisagens e forças da natureza. Do Orum dos orixás ao Aiê dos homens, do sagrado ao profano, estamos diante de dois olhares que contribuíram de modo categórico para o registro de uma das maiores experiências politeístas das Américas, ocorrida em pleno coração de um mundo fundado pelo cristianismo.

No candomblé, costuma-se dizer que um iniciado é uma “pessoa que foi pintada”. Talvez seja este o maior axé da arte de Verger e Carybé, a maestria com que souberam pintar a sacralidade e dignidade deste universo para a posteridade. E em uma sociedade onde a ignorância dessa preciosa singularidade do legado africano ainda encontra vergonhoso arrimo em preconceitos do passado colonial, as obras de Pierre Fatumbi Verger e de Carybé argumentam com a grandeza da arte e do convívio plural contra os obscurantismos do preconceito e da indiferença.

Resistência
Sofrimento alegre
Apagamento

Ancestralidade
Deslocamento
Crença

Lembrança
Perseguição
Apropriação

Corpo
Calor

nota

NE – Texto curatorial da exposição “Verger e Carybé: entre as duas margens do Atlântico”, curadoria de Luiz Gustavo Carvalho. Sesi Campinas Amoreira, 2 de agosto a 28 de setembro de 2019.

sobre o autor

Luiz Gustavo Carvalho é curador.

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