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| A
dúvida de Guedes (1) |
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Ana Luiza Nobre é arquiteta e professsora do Curso de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio. |
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| Joaquim Guedes. Foto de Anna Mariani. Fonte: CAMARGO, Mônica Junqueira de. Joaquim Guedes. São Paulo, Cosac &Naify, 2000. | ||||||||||||||||||||||||||||
“Atribuem-me coragem de dizer certas coisas. Na verdade trabalho no risco e no medo. Discordem, destruam o que eu diga, que seja o nosso método. Espero contribuir, em alguma medida, para o aprimoramento da nossa prática”. Como ocorreu outras vezes, nos últimos quatro anos, recebi inesperadamente o texto por e-mail. Mais uma vez, a mensagem vinha carregada de afeto, mas não deixava de conter uma provocação: “Engano-me, ou você escreveu mesmo que eu não me interessava pela forma? O problema é o que é a forma e como se inventa a forma”. A razão da interpelação era um texto que àquela altura me ocupava sobre a produção contemporânea de arquitetura no Brasil, em que eu atentava para uma certa dificuldade da nossa arquitetura de experimentar a crise do moderno e identificava em Joaquim Guedes uma exceção. A meu ver, isso explicava, ao menos em parte, o fato de que ele não tivesse sido confirmado, nos últimos anos, como um dos protagonistas no quadro da arquitetura no Brasil: “diante da longa celebração dos sucessos dos pioneiros da arquitetura moderna no país e de seus continuadores, Guedes continua a significar a dissonância, o incômodo, o desvio. Por isso é tão problemático definir o lugar que ele ocupa hoje. E por isso também sua arquitetura não encontra facilmente seguidores. É uma obra que vive da descarga do problema que se coloca, o qual se trata menos de resolver que de manter atual. Daí a dificuldade de compreendê-la e assimilá-la. No país de Niemeyer, segue sendo difícil encontrar lugar para uma arquitetura que manifesta tamanha desconfiança em relação à gênese da forma” (2). Sem dúvida estava aí uma questão crucial para Guedes, conforme ele mesmo acusava em seu e-mail. O desafio estaria em definir essa concepção de forma, em seu enfrentamento conseqüente com uma noção de raiz clássica à qual bem ou mal seguimos fundamentalmente apegados. E a partir daí muitas questões haveriam de se desdobrar: que espécie de concepção de projeto liga-se a tal concepção de forma? Como se constitui em forma um procedimento analítico baseado em diagramas? Em que medida o diagrama pode garantir uma prática projetual mais “seca”, porque destituída da carga de emoção que permanece associada ao desenho? Os problemas seguiam se encadeando e se recolocando com intensidade cada vez maior, anunciando uma discussão calorosa, como não poderia deixar de ser. Devo dizer que sempre me encantou em Guedes sua paixão ardente, e talvez doentia, pela discussão. E desconfio que esta fosse também sua maior fraqueza. Havia algo de quase inumano nesse seu relacionamento com o mundo, tão freqüentemente reduzido a mero gosto por polêmica. A mim, no entanto, essa, digamos, intransigência visceral, em todo caso temperada pela mais fina ironia, sempre pareceu acima de tudo a expressão do seu comprometimento em atacar valores cristalizados e impostos como interditos à esfera do pensamento. Guedes buscava ao mesmo tempo a liberdade e o método. Sistemático e intempestivo, vivia em estado de tensão, e não creio que suportasse isso com facilidade. “Cansei-me de ficar irritado quando aqui em São Paulo me dizem que os professores se referem nas escolas ao método de Guedes. Nego, não sei o que seja isso. Mas não adianta. Enquanto isso, também não acho confortável ser marginal ou coisas do gênero”, escreveu-me. Relendo agora seus e-mails, vejo que quase sempre ele transpira: “Escrevo com dificuldade, de maneira intuitiva quero dizer, vou enchendo a tela sem saber como colocar as coisas em ordem, vou apenas arranjando um pouco as coisas até conseguir focá-las mais ou menos, e desisto. Me cansa tanto quanto dá prazer, escrever”. Diante da minha insistência para que ele reúna seus escritos numa coletânea, ele responde: “eu queria escrever melhor, para que as idéias ficassem mais cristalinas. Elas me parecem sempre turvas”. Noutro e-mail, que chega acompanhado de seu prefácio para um livro, ele pergunta: “consegui fazer alguma coisa útil que incita a pensar numa direção que está a exigir carinho?” Boa parte de Guedes, afinal, era isto: um entregar-se contínuo ao “aprimoramento da nossa prática”. Por esse motivo, para além de toda a sua obra projetual, seu maior legado não poderia ser menos que a instauração de uma incômoda mas necessária dimensão dubitativa no meio da arquitetura brasileira, a demandar um rompimento com a sua acomodação, em face dos inúmeros problemas que atravessam a prática contemporânea. Notas 1
Além destes, temos ainda os seguintes artigos disponíveis sobre Joaquim Guedes no Portal Vitruvius:
E do próprio arquiteto Joaquim Guedes temos o seguinte artigo:
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