| O
classicismo arquitetônico no Recife imperial *
resenha
de rafael moreira
A arquitetura
civil não tem sido das áreas mais bem trabalhadas pela história
da arte brasileira. Após os estudos pioneiros, nos anos 30 e 40,
de Thedim Barreto, Luís Saia e Robert Smith, já era tempo de uma
nova geração voltar a se ocupar do tema, agora na luz de uma problemática
do nosso tempo. Só São Paulo parecia não ter esquecido a tradição,
com os livros notáveis de Carlos Lemos.
Por isso,
lemos com alegria o último trabalho do arquiteto Alberto Sousa.
Afinal, não é uma nova, é uma novíssima geração que desponta,
com uma maturidade e segurança de método e de informação que parecem
tornar o laureado brazilianist Smith envelhecido de um
século.
O autor se
vira desta vez para “a mais classicista das grandes urbes brasileiras”:
o Recife. De l830 a l870, nada menos de quatro das dez melhores
obras construídas no país, nesse estilo do classicismo imperial
, para usar a sua terminologia convincente, foram feitas
no Recife. Não é uma opinião de gosto, mas uma constatação de
fato, que comprova pelo estudo exaustivo de meia centena de exemplares
(com pontos altos no Teatro Santa Isabel, Casa de Detenção, Academia
Pernambucana de Letras e no caso ímpar da Assembléia Legislativa,
obras-primas em qualquer lugar do mundo), que impressionam tanto
pela qualidade dos espaços e volumes na definição da imagem da
cidade, como pelo rigor da análise.
Alberto recua
aos modelos eruditos europeus e aos primórdios em solo brasileiro
(Salvador e o Rio) ; mas não para mostrar o foco recifense como
continuação, e sim para fazer ressaltar sua radical originalidade
e os valores geométricos de desenho, os efeitos de massa, o uso
inventivo do vocabulário clássico, a adaptação ao clima, funções
e ideologia da sociedade que nascia. Os nomes de Vauthier e Tibúrcio
de Magalhães não podem, a partir de agora, ser nota de rodapé
na historiografia brasileira.
Uma arquitetura
de engenheiros, é claro – e um contributo essencial ao papel do
Nordeste na arte brasileira, que não há mais desculpas para ignorar.
Estão de parabéns os editores por terem posto à disposição da
comunidade científica e ao leitor em geral esta obra de leitura
obrigatória para quem quer saber onde vive.
Rafael Moreira
é Professor Associado do Departamento de História da Arte da Universidade
Nova de Lisboa. Autor de vários livros, proferiu palestras em
várias partes do mundo (Paris, Nova Iorque, Goa, Rio de Janeiro,
etc.) e publicou artigos no seu país, na França, Itália e Espanha.
© Resenha
publicada originalmente na Revista AU, nº 90, junho-julho 2000.
Reprodução proibida.
Leia
também "As
duas tradições no ensino de arquitetura no Brasil",
de José Lamas, sobre outro livro de Alberto Souza |