| Arquitetura
e judaísmo: Mendelsohn
resenha de vittorio corinaldi
Bruno
Zevi – arquiteto, crítico e historiador – faleceu em Roma há cerca
de dois anos. Seu
nome representa um marco fundamental na formação de gerações de
arquitetos, a partir da segunda guerra mundial e continuando até
hoje.
Ao
dizer isto, posso me referir a minha modesta experiência pessoal:
“descobri” Zevi praticamente sem qualquer introdução prévia ou
indicação bibliográfica por parte do establishment: acadêmico
curricular. Foi na biblioteca da Faculdade de Arquitetura da USP,
que freqüentava assiduamente e com interesse e curiosidade maiores
do que aqueles despertados por certas cadeiras pouco atraentes
do curso, nos anos da primeira metade da década de 50.
Nessa
época, eu me encontrava em meio a dilemas ideológicos e de consciência,
provenientes de um lado de minha inclinação para o mundo da arquitetura,
e de outro, da solicitação para a problemática do pós-guerra,
seja no terreno político-social genérico, seja no campo específico
da realidade judaica emergente da catástrofe do Holocausto.
E
em todos os anos de estudante na FAU estive oscilante entre os
dois pólos, que me absorviam e apaixonavam em igual medida: os
estudos de arquitetura e a filiação a um movimento de juventude
sionista-socialista.
Nestas
circunstâncias, foi um achado revelador a leitura de Zevi: não
só nas obras essenciais já publicadas naquela época (como Saper
vedere l’architettura, Verso un’architettura organica,
Storia dell’Architettura Moderna), como no periódico Metron,
que Zevi editava então, antes de passar a dirigir a revista L’Architettura:
literaturas em que sobressaíam, para além de seu agudo espírito
crítico e original interpretação da arquitetura, também uma corajosa
combatividade por justiça, bem-estar social, dignidade humana,
liberdade de pensamento, aversão a toda sorte de despotismo e
coerção.
Minha
curiosidade saiu do ponto de partida de um fundo familiar italiano,
mas foi rapidamente canalizada para o pensamento de Zevi, no qual
encontrei – ainda antes de saber de sua origem judaica e de sua
formação liberal e socialista – uma expressão de síntese e de
equilíbrio para os dilemas a que me referi.
Esta
afinidade foi se fortalecendo à medida que alarguei meu contacto
com seus escritos em anos posteriores. E transformou-se em identificação
quase incondicional quando, já estabelecido em Israel, tive ocasião
de ouvi-lo em várias de suas empolgantes apresentações públicas,
de conhecê-lo pessoalmente e de verificar suas claras e expressas
posições de judeu e de sionista convicto.
É
este aspecto de sua personalidade que acho importante pôr em evidência:
porque infelizmente assistimos hoje a manifestações pouco edificantes
de intelectuais judeus, que num esforço de se fazerem notar como
portadores de idéias pseudo-humanitárias e progressistas, abraçam
equívocos movimentos cujo verdadeiro teor é simplesmente anti-semita,
mesmo quando este anti-semitismo procura se apresentar atrás de
uma fachada de anti-sionismo (numa evidente deturpação tendenciosa
do caráter desse grande movimento de renascimento nacional judaico).
Bruno
Zevi nunca escondeu seu judaísmo. Como homem de esquerda não escravizado
pelos convencionalismos de opinião que caracterizaram grande parte
das esquerdas antes e depois do desmantelamento da União Soviética,
sempre defendeu o Judaísmo perante as arbitrariedades que o atacavam:
arbitrariedades do Estado, da Igreja, das ideologias servis, da
superstição e do preconceito. E nunca negou seu apoio ao Sionismo,
declarando aberta e entusiasticamente sua admiração pelos feitos
e realizações de Israel, por sua cultura nascente, por seus sucessos
científicos e tecnológicos ou sociais e humanos.
Um
aspecto original desta sua característica são os estudos que fez
ao redor da contribuição judaica para a arte (e em especial a
arquitetura) do século XX. Aqui ele demonstra mais uma vez sua
extraordinária vitalidade de observação e de pensamento, identificando
fatores eminentemente judaicos na produção de artistas cujo impacto
sobre a cultura ocidental moderna é poderoso e importante.
E
diferenciando-se da atitude clássica ou da tradição helenística
do legado ocidental, ele sublinha o aspecto antiestático, dinâmico
e contestador desses fatores. Ou então sua colocação em esferas
de inspiração mística, extraterrena (conforme convém a uma cultura
errante, alheia a divindades ancoradas em lugares e ordens hierárquicas
definidas e absolutas, tanto no plano físico-visual como no teórico-espiritual).
Daí
o enfoque especial que Zevi dá ao expressionismo ou a manifestações
de marcado teor judaico na colocação figurativa e na caracterização
do espaço arquitetônico.
Zevi
enxerga então um contraste de valores entre, por exemplo, os arquitetos
do Racionalismo europeu como Gropius, Mies Van der Rohe e outros
de sua linha, e Erich Mendelsohn, expoente máximo do expressionismo
na arquitetura. Zevi, que foi o grande propagador da arquitetura
de Frank Lloyd Wright, considera Mendelsohn como um paralelo europeu
do gênio americano – sacrificado e não de todo realizado em sua
criatividade apenas devido às vicissitudes de judeu, que o impeliram
a buscar campo de atividade em 3 continentes, sem chegar a lançar
raízes profundas em nenhum dos três: na Europa, onde figura como
um pioneiro solitário e sui generis do Movimento Moderno;
em Israel (então Palestina mandatária) onde suas obras são até
hoje um documento de visão autêntica e não comprometida por modismos,
do projeto no ambiente físico local; e na América, onde realiza
obras para a comunidade judaica, sem conseguir a mesma penetração
na esfera do trabalho profissional, nem o mesmo grau de intensidade
expressiva das duas experiências anteriores.
Bruno
Zevi, na riqueza e exuberância de sua argumentação sensível e
erudita, leva suas concepções filosóficas e estéticas a posições
que podem confundir o observador menos familiarizado com sua linguagem,
deixando-lhe a impressão que seu juízo sobre arte e arquitetura
seja às vezes unilateral e dogmático: é o caso de sua contrariedade
de princípio a todo tipo de simetria, que considera um símbolo
de absolutismo e opressão; é o caso de sua entusiástica ampla
subscrição da atual tendência do deconstrutivismo – que no seu
entender encerra “por definição” as qualidades de anseio de liberdade
e negação de monolitismo próprias do judaísmo: tanto assim que
aponta toda uma série de arquitetos judeus contemporâneos como
os portadores da única mensagem válida para a arquitetura de hoje:
Frank Gehry, Daniel Libeskind, Zvi Hecker.
Mas
na verdade trata-se de colocações extremas que – buscando encontrar
formulações atualizadas para o significado do espaço arquitetônico
– recusam-se a aceitar a avalanche de má arquitetura rotulada
sob toda sorte de “ismos” que caracteriza a produção de hoje.
Pessoalmente,
acho desnecessário catalogar os nomes citados dentro de uma única
definição específica e prefiro examinar suas obras segundo critérios
de avaliação intrínseca. E acredito que Zevi, embora destacando
a centralidade da idéia contida na forma, não despreza também
a importância de outros fatores menos “poéticos”, como se pode
deduzir de sua constante aberta defesa de causas sociais, políticas
e humanas.
Tudo
o acima dito resulta das impressões tiradas da leitura do livro
de Zevi, Arquitetura e judaísmo: Mendelsohn, aparecido
agora em sua edição brasileira a cargo da Editora Perspectiva.
A
tradução, compilação e apresentação da obra se deve a Anat Falbel,
pesquisadora que apresenta a seu crédito já diversos estudos no
terreno da historiografia da arquitetura, e especificamente no
da arquitetura judaica no Brasil. Ela levou a cabo a tarefa (inclusive
mantendo correspondência com o autor até seu desaparecimento)
com a seriedade e a meticulosidade que lhe são próprias, enriquecendo
o volume com grande quantidade de citações e chamadas bibliográficas,
com ilustrações abundantes e esclarecedoras.
O
livro constitui leitura obrigatória para completar um panorama
histórico-crítico objetivo da arquitetura de nosso século. Mas
igualmente ele vem preencher um vazio e afastar ignorâncias casuais
ou propositais quanto à contribuição judaica neste setor e no
acervo cultural do Ocidente: no que cabe uma dívida de reconhecimento
à excepcional figura de Bruno Zevi e um voto de louvor a Anat
Falbel, por ter tornado essa obra acessível ao público de língua
portuguesa.
Vittorio
Corinaldi é arquiteto formado na FAU USP e correspondente Vitruvius
em Israel
Leia
também, sobre
o livro de Bruno Zevi:
"Zevi
e Rykwert: messianismo, misticismo e paixão arquitetônica",
de Roberto Segre
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