Antigamente,
imóveis...
resenha de francisco de oliveira
Depois de
Parceiros da Exclusão, seu livro de estréia
na bibliografia urbanístico-sociológica, Mariana
Fix oferece agora o resultado de suas investigações
sobre o “elo” financeiro dos empreendimentos imobiliários
na cidade “global”. O resultado não é
menos surpreendente ou menos revelador. Se, no primeiro estudo,
a simbiose quase funcional entre os empreendimentos no estilo
da Berrini – provavelmente a avenida-símbolo da especulação
imobiliária subsidiada pelos fundos públicos em
São Paulo e viabilizada pelas obras públicas malufistas
et pour cause sustentada na miséria obscena das
favelas que a cercam e lhe servem de retaguarda de mão-de-obra
superexplorada – saltava à vista, neste é
o mito da cidade-global que se estilhaça.
Competitividade,
flexibilidade, cidade-empreendimento são termos quase folclóricos
para disfarçar o processo de transformação
da cidade em mercadoria, que, desde o Barão Haussmann,
segue uma linha ascensional tão inexorável quanto
a periferização dos pobres. O velho bordão
medieval de que “o ar das cidades faz os homens livres”
diz agora que os faz escravos, ou quase, para não ser muito
radical, que as agências de amparo à pesquisa não
gostam...
Na novilíngua
– obrigado Orwell –, imóvel é agora
seu contrário, e este milagre é o velho, bom e conhecido
dinheiro quem o faz. Não é coincidência que
o antigo objeto de estudo de Mariana, a avenida Berrini, reapareça
agora com centralidade: ela é o próprio espaço
transformado em valor. Mas como uma economia periférica
poderá sustentar o luxo dos imóveis – pois
sim, eles continuam lá! – desocupados?
O fundo público
sustenta: os fundos das estatais que, por esquecimento –
será? – do legislador são de propriedade privada,
embora constituídos e formados por dinheiro público.
Pois no capitalismo periférico eles servem para isso mesmo:
para viabilizar empreendimentos que o lucro particular não
sustenta. Próprio do capitalismo contemporâneo, dirão
alguns, no que o Brasil uma vez mais se adianta ou se iguala aos
mais desenvolvidos. A resposta, no entanto, é: à
custa da formidável concentração da renda
que constrói simultaneamente Berrinis e Bolsa-família
(termo da novilíngua para o que a Igreja Católica
dava mais dignidade semântica ao chamar de “esmola”),
e de uma nova casta de usurpadores-trabalhadores. Fecha-se a equação,
só o que não fecha é a distância cada
vez maior entre os mais ricos e os mais pobres, matéria
aliás de que se alimenta esse insaciável ornitorrinco.
Ô bichinho feio!
Mariana ajuda
a desvendar a estrutura dessa evolução não-resolvida,
desse verdadeiro “beco sem saída” – o
rinoceronte provavelmente é mais feio que o bichinho, mas
é uma evolução bem resolvida – que
coube aos trabalhadores brasileiros alimentar em seu parasitismo.
Por isso, os imóveis agora são mais que móveis,
são títulos mobiliários, e sobretudo as cidades
com “vocação global” são financeirizadas.
Uma pequena
nota de pé de página a essa evolução
truncada: a Câmara Municipal de São Paulo, por iniciativa
do antigo vereador pedetista Eliseu Gabriel, votou uma lei dando
à avenida Águas Espraiadas o nome de Getúlio
Vargas, arquiteto da liderança industrial de São
Paulo, cujo nome não consta nesta cidade esquizofrênica.
A então prefeita Marta Suplicy vetou a lei e substituiu
o nome de Vargas pelo excelso Roberto Marinho, cuja contribuição
à história de São Paulo parece superar tudo...
Isso se deve
à história reinventada pelo Estadão,
que estigmatizou Vargas como antipaulista, sem contar que na verdade
Armando de Salles Oliveira, ícone do clã Mesquita,
foi o primeiro interventor pós-Revolução
de Trinta. Quando houve o rompimento, Armando exilou-se em Portugal
– veja-se onde! – e Vargas, em uma de suas arbitrárias
intervenções, fechou o Estadão e,
para marcar a ferro e fogo a nova ordem federal, nomeou o pernambucano
João Alberto Lins de Barros interventor em São Paulo.
A vingança veio no estigma, que os paulistas nunca foram
capaz de rever, contaminando mesmo a mídia que não
tinha importância à época, como a Folha
de S.Paulo e a Rede Globo, e a própria avaliação
hegemônica nos estudos acadêmicos. O rancor contra
o verdadeiro herói burguês de São Paulo transformou-se
em item obrigatório da identidade paulista, caso único
no Brasil. A Folha recolheu, agora, o resultado dessa
farsa: Vargas foi considerado o maior brasileiro de todos os tempos.
Assim se fazem os ornitorrincos, as Berrinis e a história
oficial.
Francisco
de Oliveira é doutor pela USP, professor titular de sociologia
do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP e ex-presidente do
Cebrap-SP (1993-95).
Leia
também "A
nuvem financeira e o skyline", de Guilherme Wisnik, sobre
o livro de Mariana Fix
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