Arquiteturas
e dinâmicas urbanas na interpretação sobre a construção metropolitana
resenha de rodrigo faria
“Não há como
pesquisar a arquitetura metropolitana à distância. É preciso abordá-la
submersa na congestão urbana, inscrita em relações dinâmicas,
mensurada com escalas que se modulam em quantidade, extensão e
qualidade de variáveis múltiplas. A realidade da arquitetura metropolitana
só pode ser percebida em um mergulho. É necessário tornarmo-nos
mais um elemento interferente nessa complexidade congestionada”
(1). Este breve fragmento textual pinçado no livro Arquiteturas
metropolitanas não é somente explicitação metodológica de
construção da pesquisa acadêmica realizada por Denise Xavier,
mas fundamentalmente um processo inerente e consubstanciado na
própria trajetória profissional da autora. Neste sentido, os processos
de interpretação e pensamento sobre a arquitetura não são descolados
ou indistintos dos processos de produção da sua própria arquitetura.
Em ambos processos, Denise Xavier empreende um mergulho comprometido
com dimensões do mundo social, que estão absolutamente associados
aos denominados idealistas e ingênuos: a dimensão ética, a dimensão
estética e a dimensão política.
No mergulho
que cada leitor realizar pelas páginas do livro “Arquitetura Metropolitana”,
certamente encontrará o comprometimento da autora com as premissas
de um ofício profissional que está na base da estruturação física
das cidades: a arquitetura, ou, como em alguns momentos surge
no livro, arquiteturas. Uma estruturação determinante das
relações simbólicas e de identidades que são constitutivas da
vida em sociedade, da vida pública, da vida que deveria se manter
repleta de urbanidade: em tudo que esta vida nas cidades aglutina
de diferenças e divergências. As arquiteturas selecionadas
pela autora para a compreensão do processo de construção da identidade
metropolitana da cidade de São Paulo, a partir da década de 1950,
estavam absolutamente integradas nesta construção.
O edifício
do jornal O Estado de São Paulo, o Copan, o edifício Itália
e o Conjunto Nacional são realizações que não somente exploram
qualitativamente as possibilidades formais, estruturais e espaciais
específicas a cada empreendimento, mas também permitem, proporcionam
e ampliam os espaços da vida pública. São arquiteturas
cujas concepções não renegaram as dinâmicas urbanas, as relações
entre os ambientes públicos e privados, as interações entre os
sistemas de áreas livres e as áreas passíveis de edificação. A
compreensão destes aspectos é o ponto nevrálgico do trabalho realizado
por Denise Xavier em Arquiteturas metropolitanas : entender
que as arquiteturas não estão desconectadas da cidade,
que para pensar arquitetura é preciso pensar a produção da cidade
– condição ainda pouco enunciada e enfrentada na historiografia
da arquitetura no Brasil.
A estrutura
organizacional do livro evidencia este entendimento entre a interpretação
da produção arquitetônica e a produção da cidade. Nos dois primeiros
capítulos, que em verdade entendo como sendo um único, pela problemática
central que os amalgama, qual seja, a da construção da metrópole
ao longo do século XX, a autora apresenta as bases urbanísticas,
econômicas e políticas desta construção. São Paulo metropolitana
tem suas origens instituídas na concepção de cidade pensada
por Prestes Maia e Ulhoa Cintra em artigos escritos para o Boletim
do Instituto de Engenharia, no ano de 1924. A década de 1950
entra no texto como recorte temporal privilegiado, ápice do processo
contínuo de mudanças, sobreposições, apagamentos que reflui da
dinâmica de uma cidade em movimento. Para a autora, a cidade se
reconhece como metrópole, centro econômico propulsor e condensador
das ações que instituem o novo, uma nova ordem urbana e uma nova
ordem arquitetônica revelada especialmente nos aspecto vertical
das arquiteturas analisadas no livro.
Entretanto,
capítulo(s) que pouco ainda reverbera(m) a sensibilidade do olhar
objetual-arquitetônico-formal da autora, em sua aguda e instigante
capacidade de análise das arquiteturas selecionadas, ou
melhor, de qualquer outra arquitetura. Este olhar será enunciado
no capítulo dedicado à leitura dos projetos. Leitura e não análise,
como está proposto na estrutura do livro. Leitura, pois, no mais
puro sentido da palavra, aquele em que se lê decifrando significados
construtivos e formais de cada palavra em um texto escrito. Portanto,
significados construtivos e formais de cada arquitetura desde
a sua concepção-representação (aquela delineada cuidadosamente
no papel vegetal à tinta nanquim), até sua instauração como elemento
constitutivo das dinâmicas da metrópole em construção. No capítulo
dedicado ao estudo dos projetos existe uma articulação entre cada
uma das arquiteturas, cuja especificidade torna evidente
o entendimento das suas relações com a cidade: a articulação pelos
sistemas de circulação que articulam a cidade ao edifício em questão.
Sobretudo em uma metrópole capitalista efervescente da década
de 1950, os indícios de deslocamento, de movimento, estão impregnados
em todos os elementos que perfazem a cidade: nos trens, nos carros,
nos relógios, nas pessoas, nas ruas, nas avenidas, na infra-estrutura
urbana. Os arquitetos autores dos projetos souberam compreender
esta informação, esta transformação, esta incorporação no cotidiano
da metrópole. Denise Xavier soube realizar uma leitura atenta
à interface dos objetos com os sistemas de circulação vertical
e horizontal, respectivamente, o sistema que articula as esferas
privadas dedicadas ao trabalho, à moradia, ao lazer, à alimentação,
com o sistema que agrega aos edifícios uma importante dimensão
urbana.
O primeiro
sistema estava intimamente relacionado às novas tecnologias construtivas
e mecânicas, atuava e atua como elemento estruturante no processo
de verticalização das cidades por possibilitar o deslocamento
vertical: o elevador – elemento cuja espacialidade e produção
industrializada não apresentava maiores distinções nos edifícios.
O segundo sistema, por outro lado, está associado aos aspectos
instituídos de positividade que a vida urbana representava. É
distinto formal-espacialmente para cada arquitetura, empreende
relações particularizadas e articuladas aos edifícios em estudo
com a cidade, e estrutura a inquestionável associação do objeto
aos espaços livres: são passagens internas, galerias e verdadeiras
ruas que adentram, intercambiam, articulam cidade e arquitetura.
Talvez em menor intensidade no edifício do jornal O Estado
de São Paulo, nos outros edifícios a dinâmica urbana adentra
sem barreiras, sem receios os espaços de uso coletivo dos edifícios,
os “espaços urbanos das edificações”, do urbano arquitetônico.
O olhar sensível da autora para a leitura da arquitetura, associado
ao procedimento metodológico enunciado naquele texto pinçado do
livro – que integra a parte do livro escrita em parceria com Kazuo
Nakano –, especialmente quando afirma que “não há como pesquisar
a arquitetura metropolitana à distância. É preciso abordá-la submersa
na congestão urbana, inscrita em relações dinâmicas, mensurada
com escalas que se modulam em quantidade, extensão e qualidade
de variáveis múltiplas”, fazem desse capítulo de estudo dos edifícios
o eixo convergente e central de todo livro, de toda a narrativa.
Uma narrativa
encerrada num texto em que a autora propôs pensar o contínuo do
movimento de metropolização pela contraposição destas arquiteturas
analisados com edificações que representam o absoluto esvaziamento
da vida urbana, da vida pública, da urbanidade: edificações destituídas
de uma essência de lugar, espaços controlados, vigiados, consensuais
e homogeneizados em sua abstração estéril. A própria narrativa
enuncia a distinção pela oposição das experiências possíveis em
cada situação. De um lado a cidade em suas diferenças, seus agentes,
suas arquiteturas, seus símbolos, cheiros, luzes, sons, ou seja,
a dinâmica que perfaz a vida urbana. Uma cidade que ainda hoje
não consubstancia níveis mínimos de qualidade de vida para uma
grande maioria dos que nela habita. Entretanto, uma cidade que
não esconde as indesejadas diferenças, pois nela estão a perscrutar
suas vidas por todos os lugares, sejam praças, viadutos, calçadas,
ruas, marquises e favelas.
Por outro
lado, espaços que pouca apreensão permitiram aos seus interlocutores
na tentativa de mergulhar em suas especificidades. Conjunturas
construtivas envidraçadas, muradas e climatizadas que enunciam
os novos interesses do capital na metrópole. Para estas conjunturas
as cidades são vazios de interligação entre pontos de concentração
financeira internacional, circundadas por um conjunto de equipamentos
complementares: condomínios fechados, shoppings e aeroportos.
A crítica a estas conjunturas é sensivelmente enunciada pela insensibilidade
que delas emana. Preocupante é a constatação da transformação
e adequação daquelas “arquiteturas metropolitanas” aos preceitos
que processam a indiferença e a exclusão com os indesejados que
habitam a cidade.
Opor-se a
estes processos é parte daquelas três dimensões que perfazem a
trajetória profissional de Denise Xavier: a dimensão ética, a
dimensão estética e a dimensão política. Seu livro não é algo
isolado na ação desenvolvida como arquiteta e urbanista, mas consubstancia
e amplia sua inserção crítica na metrópole paulistana em contínua
construção. Nesse sentido, seu livro não é sobre um conjunto de
edifícios importantes para a história da arquitetura no Brasil,
especialmente para a arquitetura paulista. Seu livro é sobre a
construção da cidade, sobre a construção da cidade de São Paulo
como metrópole. Sua importante particularidade passa pela compreensão
de que a arquitetura é parte da cidade, integra todo o conjunto
de dinâmicas com as quais a sociedade se mantém ativa e em transformação.
Seu livro
é sobre a necessidade de retomarmos a consciência de que o esvaziamento
da cidade, a negação da cidade é a negação da própria sociedade
como agente transformador. Ao arquiteto cabe a responsabilidade,
ou melhor, deveria caber a responsabilidade pela produção de arquiteturas
comprometidas com a vida urbana em todas as suas diferenças e
antagonismos. Porém, em Arquiteturas metropolitanas constatamos
que os processos contemporâneos de construção da cidade estão
exclusivamente pautados pelos interesses do capital na (re)produção
dos espaços homogêneos e consensuais cuja valorização ocorre pela
indiferença ao entorno, à paisagem, à dinâmica da cidade. Uma
constatação que deve gerar uma indagação autocrítica que passa
primeiramente pela formação dos quadros profissionais no país:
qual arquiteto estamos formando, qual arquiteto queremos formar?
Certamente a despolitização do processo de formação pautado exclusivamente
por sistemas técnico-informacionais contribui intensamente com
o esvaziamento dos significados sociais, culturais e políticos
da profissão de arquiteto e urbanista, da própria arquitetura.
Como afirmara
Christian Topalov, “as ciências da racionalização urbana e das
finalidades sociais são radicalmente colocadas em questão pelas
ciências da celebração do mercado e da ‘revolução liberar’. Os
especialistas de umas e de outras não são do mesmo mundo. Nosso
saber está, aberta ou secretamente, a serviço do Estado, o deles
está, sem complexos, a serviço da empresa. Quaisquer que sejam
nossas inclinações políticas, nossas definições disciplinares
ou nossas preferências teóricas, temos talvez algo em comum: os
adversários” (2). Em Arquiteturas metropolitanas Denise
Xavier não se esquivou da necessária crítica aos “adversários”
que ela bem sabe quais são. Convém, no entanto, enunciar uma discordância
com Denise Xavier, quando afirma que “não há como pesquisar a
arquitetura metropolitana à distância”. Não há como pesquisar
qualquer arquitetura à distância, pois, como parte integrante
da cidade, seria como pesquisar a cidade estando distante dela,
estando deslocado dela. Aliás, o distanciamento é um dos principais
instrumento utilizados pelos nossos “adversários” na desconstrução
das cidades, na desconstrução da vida urbana, seja ela metropolitana
ou não.
Notas
1
XAVIER, Denise. Arquitetura metropolitana. São Paulo, Annablume/Fapesp,
2007, p. 146-147.
2
TOPALOV, Christian. “Os saberes sobre a cidade: tempos de crise?”.
Espaço & Debates, Revista de Estudos Regionais e Urbanos,
Ano XI, n. 34, 1991, p. 37.
Rodrigo
Faria, arquiteto e urbanista, mestre e doutor em História pelo
Departamento de História do IFCH-UNICAMP, Pesquisador do Centro
Interdisciplinar de Estudos da Cidade do IFCH-UNICAMP, Becário
Fundación Carolina/Universidad Politécnica de Madrid.
Leia
também "São
Paulo metrópole. A arquitetura e seus habitantes",
de Fernanda Fernandes sobre o livro de Denise Xavier
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