São
Paulo metrópole. A arquitetura e seus habitantes
resenha
de fernanda fernandes
Inicialmente
proposta como dissertação de mestrado, Arquitetura metropolitana,
de Denise Xavier, ganha agora formato de livro, tornando-se acessível
a um número maior de leitores e não apenas aos que já se encontraram
com seu conteúdo nos exemplares bastante manuseados de nossas
bibliotecas, a indicar o interesse dessas páginas.
A apresentação,
feita pelo professor Carlos Martins, é passagem imperdível, pois
esclarece a dimensão acadêmica do trabalho e, ao mesmo tempo,
sugere desdobramentos de leitura. E essa leitura tem como eixo
a análise de quatro edifícios da São Paulo de 1950. Eles constituem
o mote da narrativa e o texto fluente da autora nos oferece a
possibilidade de refletir, por essa via, sobre o papel da arquitetura
na ordenação dos centros urbanos e na vida coletiva, que é a forma
de sociabilidade das cidades.
A autora analisa
com rigor os quatro edifícios escolhidos como principal objeto
de estudo: o edifício do jornal O Estado de S. Paulo, os
edifícios Itália e Copan e o Conjunto Nacional são apresentados
como os protagonistas da cidade que se faz metrópole, para tanto
exigindo novos equipamentos e estimulando mudanças no modo de
vida e nas relações sociais dos habitantes.
Embora analisados
separadamente, os quatro projetos estabelecem vínculos entre si.
Todos se caracterizam pelo uso misto e dialogam com a situação
metropolitana, propondo espaços voltados para a vida coletiva.
Dois deles nascem do traço de um mesmo arquiteto, dois são obra
de um único empreendedor, outros dois se situam em esquinas, três
são planejados para uso também hoteleiro – ainda que apenas
um deles alcance esse objetivo – e, por fim, todos aspiram
a ter seu nível térreo compartilhado pela cidade e seus habitantes,
desejo concretizado com êxito.
A proposta
de observar o objeto arquitetônico integrado ao contexto urbano
é explorada pela autora a partir de diversos vetores, que buscam
dar conta da complexidade da trama urbana. O mais evidente, estabelece
a relação entre os edifícios e o plano de avenidas projetado por
Prestes Maia que, com seus traçados e anéis concêntricos, busca
imprimir direções de expansão à cidade, na tentativa de ordenar
seu crescimento. A arquitetura margeia esses traçados e se resolve
em altura, com arranha-céus que exibem a modernidade da nova década
à medida que concretizam a verticalização da área central da cidade.
Mas a análise
não se detém na grande angular. Denise Xavier nos convida a acionar
a lente de aproximação ao permitir que observemos como os edifícios
se comportam até mesmo diante de um cruzamento de ruas de trânsito
intenso. Permite também observar a materialidade dos elementos
construtivos e das novas técnicas que empregam para exprimir a
feição metropolitana, esmiuçar a vida que abrigam, em programas
que evocam a pluralidade de funções urbanas, contendo em escala
reduzida o que é próprio da metrópole, e ainda examinar atentamente
os espaços públicos do nível térreo, que se abrem aos fluxos e
aos ritmos da cidade. Estas são formas que a autora encontra de
analisar a “arquitetura metropolitana” em sua especificidade,
sem descuidar-se da vida coletiva que aí se desenvolve, insuflada
pelo crescimento.
A abordagem
do edifício do jornal O Estado de S. Paulo é um bom exemplo
do procedimento. O estudo indica que o projeto do arquiteto Franz
Heep ganha sua solução formal na confluência das ruas que o margeiam,
abrigando um jornal, uma rádio e um hotel, funções assinaladas
na superfície contínua de seus brise soleil , que constituem,
a um só tempo, as feições de uma arquitetura e de uma cidade.
O jornal, núcleo atuante da então nascente cultura de massa, ganha
espaço cada vez maior na metrópole e é secundado pelo rádio, que
difunde informação e lazer. No térreo, a transparência do vidro
desvenda os mecanismos da fatura do jornal, calcada em eficiente
tecnologia e na produção em série, técnica que espelha a da própria
construção, característica dos tempos modernos. Além do mais,
sua solução de ângulo funciona como fecho da Avenida São Luís,
uma das mais importantes na São Paulo dos anos 1950.
No extremo
oposto da mesma avenida, a autora focaliza a imponente torre do
Círculo Italiano, também projetada por Franz Heep, que se coloca
como emblema da presença dos italianos em São Paulo, assinalando
a mescla de culturas da metrópole. O edifício desvenda, com sua
forma elíptica, as várias direções em que a cidade se espraia,
visualidade que se abre no mirante da cobertura, de onde se pode
observar a nova paisagem urbana. Ocupado por escritórios, não
por acaso chega ao térreo em área que também é da cidade.
A análise
do Copan e do Conjunto Nacional, realizada a partir de acurada
documentação gráfica, permite que a autora empreenda uma leitura
detalhada dos projetos, e apresente os novos modos de morar na
metrópole. O Copan, projeto do arquiteto Oscar Niemeyer, contém
em seu volume sinuoso diversos tipos de apartamentos, que propõem
a convivência de diferentes estratos sociais. No nível térreo
serpenteia pelo tecido urbano, indicando atalhos ao caminhante
da cidade de fluxos intensos e ritmo acelerado. Também o Conjunto
Nacional, projetado por David Libeskind, realiza sua límpida lâmina
vertical com diferentes tipos de apartamentos, depois reduzidos
a um único bloco, sendo a área restante destinada a escritórios.
No térreo, o volume ocupa o perímetro de toda a quadra, possibilitando
ligações entre as ruas que a definem e criando permeabilidades
e variáveis de percurso, além de sugerir uma ocupação arejada
da Avenida Paulista, abastecida por equipamentos culturais e de
serviço.
É curioso
observar que, a princípio, os dois projetos pretendiam ser também
hotéis, considerados indispensáveis às comemorações do IV Centenário
de São Paulo. Naqueles anos de discurso ufanista, como ainda hoje,
a cidade se colocava como pólo de atração para as outras regiões
do país, além de aspirar a uma posição de destaque no plano internacional.
Contudo, por motivos diversos, nenhum dos dois projetos logrou
atingir a meta inicial. No Copan, devido a problemas ocorridos
na construção, o local projetado para hotelaria foi destinado
a uma agência bancária. Já no Conjunto Nacional, o impedimento
partiu da legislação do período, que não permitia a instalação
de hotéis na Avenida Paulista.
Uma sede de
jornal, um prédio destinado a estrangeiros, uma habitação coletiva,
uma torre vertical para uma grande avenida. Por meio da leitura
que Denise Xavier empreende dos quatro edifícios, vai se configurando
a transformação sofrida pela cidade de São Paulo em sua passagem
para metrópole. Além disso, a autora também consegue nos apresentar
uma cidade ocupada, pois trabalha com uma arquitetura povoada
pelo sujeito metropolitano, objeto constante de sua atenção. As
vicissitudes e as mudanças sofridas pelo habitante da metrópole
são analisadas a partir de Zimmel, que reflete sobre as novas
sensibilidades e as mudanças de percepção sofridas pelo homem,
na tentativa de conviver com os estímulos gerados por uma situação
urbana marcada pela velocidade e por relações impessoais, características
do anonimato dos grandes centros.
A análise
dos edifícios concretiza a intenção nuclear da autora, que é de
articular a arquitetura e a cidade, esclarecendo o papel da primeira
na constituição do tecido urbano e revelando a proposta de cidade
que a ela subjaz. O sabor do estudo nos faz mergulhar na São Paulo
da década de 1950, recuperando o espírito e os desejos daquele
momento e iluminando uma proposta arquitetônica que inclui o espaço
público e funciona como mediadora dos fluxos do quotidiano.
O trabalho
se conclui em texto orquestrado a quatro mãos por Denise Xavier
e Kazuo Nakano, que direciona a reflexão dos anos 1950 para São
Paulo atual, assinalando as transformações sofridas pela cidade
nos últimos cinqüenta anos. As regiões anteriormente estudadas
são revisitadas com a sensibilidade do habitante imerso em sua
cidade funcionando como instrumento de observação e sondagem da
cidade contemporânea. O resultado assim obtido vai além de indicar
o estado atual dos edifícios, pois os localiza na multidão que
se desloca por calçadas esburacadas, permitindo que a cidade ganhe
densidade, odores, vitalidade e possa emergir do estudo na inteireza
de seus problemas quotidianos. A condição urbana contemporânea
fica assim colocada como objeto para futuras reflexões, fazendo
ecoar a pergunta de como a arquitetura pode participar da vida
das cidades.
Fernanda
Fernandes é professora doutora do Departamento de História da
Arquitetura e Estética do Projeto da FAUUSP.
Leia
também "Arquiteturas
e dinâmicas urbanas na interpretação sobre a
construção metropolitana", de Rodrigo Faria
sobre o livro de Denise Xavier
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