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architexts ISSN 1809-6298


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DE OLIVEIRA, Olivia; BUTIKOFER, Serge. Uma viagem pela arquitetura brasileira. Arquitextos, São Paulo, ano 06, n. 064.01, Vitruvius, set. 2005 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/06.064/421>.

Ao pensarmos na “arquitetura brasileira”, incontornavelmente nos vêm em mente uma certa arquitetura moderna, datada dos anos 40 e início dos anos 50, cujas características lhe imprimiram uma espécie de “estilo”. Por sua riqueza formal, liberdade plástica e sua vital relação com a natureza, esta arquitetura foi particularmente exaltada em publicações estrangeiras, levando-a à glória e, mais tarde, também ao esquecimento.

O presente número, realizado em colaboração com a revista brasileira de arquitetura Vitruvius e seu editor Abílio Guerra, é fruto de uma recente viagem ao Brasil organizada pelo Grupo de Arquitetos da SIA-Vd. Além das figuras conhecidas de Niemeyer, Lina Bo Bardi ou Paulo Mendes da Rocha, o número se detém em arquiteturas antigas ou recentes menos evidenciadas pela historiografia. Obras que, para além dos aspectos puramente visuais, procuram responder aos grandes desafios sociais do país.

A Faculdade Nacional de Arquitetura do Rio de Janeiro

Entre as dezenas de obras visitadas nas quatro cidades percorridas, São Paulo, Brasilia, Salvador e Rio de Janeiro, uma tocou-nos particularmente por sua beleza e valor simbólico: a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro – FAU-UFRJ (2). Entretanto, apesar de suas indiscutíveis qualidades técnicas, arquitetônicas e paisagísticas, este edifício se encontra em um lastimável estado de conservação e com ele todo um conjunto de importantes exemplares da arquitetura moderna brasileira situados na Ilha do Fundão (3).

Este estado de abandono é, de certa forma, simbólico. Ele nos recorda que o sonho da modernidade acabou – de uma maneira particularmente brutal no Brasil, como demonstra o impressionante conjunto de obras construídas neste país –, mas também nos leva a refletir sobre os desafios atuais da profissão. Acreditamos que muitas das reflexões tratadas alí podem nos ajudar a pensar uma arquitetura hoje, aliada à construção de um outro mundo possível. Pois hoje, mais do que nunca, o ato de pensar a arquitetura no âmbito local não pode estar dissociado de pensá-la no âmbito global.

Em sua origem, o projeto foi concebido para abrigar mil alunos no que seria a Faculdade Nacional de Arquitetura, isto é, um centro maior de formação de profissionais arquitetos que atuariam depois em todo o país como “líderes nacionais”, propagando os ensinamentos ali aprendidos. Um sonho megalômano, sim, e perfeitamente coerente com os ideais radiantes modernos. Mas este edifício é grandioso, sobretudo porque generoso. Generoso em seus espaços de convívio e de trabalho (cada ateliê teria entre sete a dez alunos, e cada aluno sua própria prancheta), em sua relação com os espaços abertos, halls, circulações e com o entorno. Esta generosidade é também sinônimo de luxo, mas de um luxo que nada tem à ver com ostensivo nem com uma deplorável exibição de gestos ou de materiais, um luxo onde o mínimo e o racional não são sinônimos de espaços exíguos e banais. E esta generosidade é o que dá requinte e qualidade à este edifício. Infelizmente a generosidade dos espaços foi utilizada em detrimento do projeto inicial, submetendo o programa à uma compressão, afim de incorporar outras instituições hoje ali instaladas.

Grandioso também no sentido de nobre. Não é casual que, no mesmo ano de sua construção, esta obra tenha recebido o primeiro prêmio na categoria de edifícios públicos na Exposição Internacional de Arquitetura da IV Bienal Internacional de São Paulo.

O edifício é inteiramente concebido com medidas múltiplas, que vão desde a dimensão das cerâmicas de revestimento de piso ao ritmo da estrutura. Daí a precisão dos detalhes e acabamentos, a harmonia e a composição impecável do conjunto: um bloco vertical sobrepõe-se a um bloco horizontal numa volumetria muito próxima ao projeto não realizado de Le Corbusier para a sede do Ministério de Educação e Saúde na av. Beira Mar, uma evidente homenagem do arquiteto Jorge Machado Moreira ao mestre. Um terceiro bloco independente mas não construído, abrigaria o Museu de arquitetura comparada. O bloco vertical, construído sobre pilotis duplos, é destinado aos ateliês e salas para ensino teórico. Cada um dos seus seis andares corresponderia a um ano do ensino da graduação, sendo o último destinado ao curso de pós–graduação. O bloco horizontal, desenvolvido em dois níveis, abrigaria a biblioteca, administração, auditórios, oficinas, laboratórios e o museu técnico. Todos espaços de articulação, halls, pilotis, galerias e pátios são extremamente generosos, abertos ao horizonte, permitindo ao olhar cruzar o espaço e voar ao longe, dando uma qualidade pública ao edifício.

Une-se à isto uma excepcional mestria da iluminação natural, controlada através de uma sucessão de eventos que ocorrem, podemos dizer, em sentido decrescente desde o exterior verso o interior ou desde os espaços mais públicos aos espaços mais privativos. A começar pelo espaço sobre pilotis com pé-direito duplo, situado na entrada do edifício, passando pelo hall principal envidraçado, galerias de distribuição transparentes, pátios de diferentes dimensões até os corredores com combogós. Estes tamizam a luz e acostumam a retina, fazendo a transição de acesso aos recintos onde se exige maior atenção e concentração: tal como o museu técnico (hoje atelier de pintura da Escola de Belas Artes), a biblioteca e os laboratórios, iluminados zenitalmente, com sheds e clarabóias.

Tais espaços, conectados à pátios e jardins respondem à condições climáticas específicas, demonstrando a preocupação do arquiteto com critérios hoje considerados fundamentais e perseguidos desde uma ótica do desenvolvimento durável: qualidade do ar e da luz, conforto térmico e espacial, economia de meios e energia, criação de espaços verdes vitais, flexibilidade. Estas questões funcionais ou racionais não se desligam de questões humanas ou espirituais : aqui a noção de conforto é associada ao belo natural, à um mundo generoso natural e vital. Vale lembrar que o edifício foi concebido junto à magníficos jardins de Burle Marx e a presença destes jardins hoje é fundamental para consolidar o caráter nobre, público, generoso e durável deste edifício.

A Ilha do Fundão ontem e hoje

O edifício da Faculdade de Arquitetura da UFRJ, assim como as circunstâncias em que ele foi construído, traduzem a atitude de uma época, onde o arquiteto assumia uma missão humanista frente à sociedade, e onde se acreditava no poder de transformação da arquitetura. Hoje é o poder empresarial quem invade a ilha. Um enorme programa de urbanização vem sendo incentivado para levar empresas à ocuparem os terrenos “livres” da ilha, afim de transformá-la em um “Parque Tecnológico”, ou em termos mais explícitos, “em um condomínio de empresas” (4). Em quinze anos espera-se atrair mais de 200 empresas para a Ilha do Fundão.

Se o que se pretende é transformar a Ilha do Fundão em um centro de pesquisa tecnológico de alta qualidade, a qualidade de suas novas e antigas edificações não deveria ser relegada a um segundo plano. Ao contrário, este projeto poderia aproveitar desta concentração geográfica de recursos para construir uma outra imagem da Ilha do Fundão, que não seja aquela de um banal “condomínio de empresas”, mas de um pólo tecnológico de referência, respeituoso de um desenvolvimento sustentável, apoiando, naturalmente, aquele documento que nesta mesma cidade foi aprovado em 1992, mundialmente conhecido como a “Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento”.

O novo não deveria consumir o existente. Esta é uma problemática particularmente importante em países sujeitos a um forte e acelerado crescimento, como o Brasil. E o patrimônio moderno não deveria estar fadado ao paradigma produtivista ocidental, onde “a concepção imposta pelo produtivismo define que tudo que não seja produtivo é sem valor, menosprezando todas aquelas expressões humanas e da natureza que não podem ser medidas nem valorizadas quantativamente ou monetariamente” (5). Mas lembremos que “há coisas que desaparecem para sempre e que não têm preço” (6).

Este edifício, assim como tudo o que ele representa – historicamente, conceitualmente, qualitativamente – constitui um símbolo da potência da arquitetura. Neste sentido, ele pode inspirar conceitualmente a planificação do importante investimento que se quer levar à cabo na Ilha. Longe de qualquer saudosismo, trata-se aqui de realizar uma reflexão lógica e racional desde a especificidade e a diversidade local, compreendendo o desenvolvimento durável num sentido amplo e global. O que se pretende é promover o equilíbrio entre os diversos meios implicados – econômico, ecológico, funcional e urbano – assim como a participação solidária dos seus atores. Um projeto é conforme ao desenvolvimento durável somente se encontra um equilíbrio entre estes quatro domínios. Isto implica definir critérios de intervenção. Critérios que visem construções duráveis, com uma intervenção mesurada sobre o equilíbrio natural do lugar. Neste sentido, o plano geral da UFRJ e os cinco edifícios construídos entre 1949 e 1962 pelo Escritório Técnico da Universidade do Brasil, liderado então por Machado Moreira, apresentam-se como uma experiência coerente.

Escolas-jardins

O projeto para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo encontra sintonia com outros projetos escolares, desenvolvidos contemporaneamente por arquitetos como Diógenes Rebouças e Hélio Duarte em Salvador e em São Paulo. Estes dois arquitetos construiram escolas-parques públicas concebidas em sintonia à uma política pedagógica socializante, então desenvolvida pelo educador Anísio Teixeira. Teixeira era consciente de que nada adiantaria executar belos prédios escolares sem que ao mesmo tempo não se renovasse a pedagogia (7) , mas acreditava na capacidade “redentora” (8). da arquitetura, enquanto motor impulsor e de incentivo para reformas. “Comunicar a educação pela educação” (9), era o lema de Anisio Teixeira. Estas escolas iam em contra ao princípio acadêmico inflexível e disciplinar do aproveitamento escolar para privilegiar o princípio do natural prazer e expansão, associados a vida afetiva da criança, ou do indivíduo, no caso do edifício da FAUFRJ. Estas eram escolas (ou faculdades) desenclausuradas, escolas-parques, escolas-jardins.

O prédio escolar seria utilizado integralmente, dia e noite, podendo agrupar diferentes atividades socializantes de forma que “a escola passaria a ser um verdadeiro cadinho no amálgama da nossa heterogênea população. Reuniões de pais, pequenos bailes, curso para mães e noivas, pequenas palestras, cinema e teatro educativos, biblioteca, audições de música, teatro de bonecos e jogos. Tudo aí poderia ser realizado. Forças centrípetas convergiriam para a escola e seriam as concorrentes da formação intelectual, social e profissonal dessas pequenas comunidades, onde depois de processadas passariam a ser as forças centrífugas – difusoras dos conhecimentos adquiridos” (10). O questionamento é extrememente atual e extrapola fronteiras nacionais.

Destas arquiteturas decorrem noções de economia de meios, flexibilidade, diversidade, solidariedade, dignidade, liberdade ; noções fundamentais para avançar rumo a uma convivência pacífica e solidária entre os povos, que convidam a refletir sobre outros modos de produzir e de consumir a arquitetura.

notas

1
Artigo publicado originalmente no número especial, dedicada ao Brasil, da revista suíça Tracés. OLIVEIRA, Olivia de; BUTIKOFER, Serge. “Un voyage vers l’architecture brésilienne“. Lausanne, Tracés, n° 15/16, ano 131, 17 agosto 2005, p. 6-10. O artigo de Renato Anelli, presente no volume, já foi publicado em Vitruvius. As partes deste número são os seguintes:

GUERRA, Abilio. "Arquitetura e Estado no Brasil / editorial". Arquitextos nº 64. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2005

OLIVEIRA, Olivia de; BUTIKOFER, Serge Butikofer. "Uma viagem pela arquitetura brasileira". Arquitextos nº 64.01. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2005

ANELLI, Renato. “Centros Educacionais Unificados: arquitetura e educação em São Paulo”. Arquitextos, nº 55.02. São Paulo, Portal Vitruvius, dez. 2004

GIMENEZ, Luis Espallargas. "As quatro escolas do FDE em Campinas". Arquitextos nº 64.02. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2005

EKERMAN, Sergio Kopinski. "Um quebra-cabeça chamado Lelé". Arquitextos nº 64.03. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2005

SALOMON, Maria Helena Röhe. "Programa Favela-Bairro: construir cidade onde havia casa. O caso de Vila Canoa". Arquitextos, Texto Especial nº 331. São Paulo, Portal Vitruvius, set. 2005

2
Esta obra de Jorge Machado Moreira, construída em 1957, faz parte de um conjunto de edifícios concebidos para o novo campus universitário, concentrando as atividades da Universidade do Brasil. Diversos estudos para a localização do campus foram realizados, inclusive por Le Corbusier, expressamente convidado ao Brasil, em 1936, para tratar deste assunto. Em 1948 tomou-se a decisão de situar o campus numa ilha artificial criada pelo aterro de nove ilhas, entre elas a ilha do Fundão que deu nome à nova área de 5,6 milhões de metros quadrados. Jorge Machado Moreira, à frente de uma equipe de dezenove arquitetos do escritório Técnico da Universidade do Brasil, foi quem realizou entre 1950 e 1955 o projeto para a nova cidade universitária da Ilha do Fundão. Dos doze edifícios projetados originalmente, apenas cinco foram executados: o Instituto de Puericultura, a Faculdade de Engenharia, o Hospital Universitário, a oficina gráfica e a Faculdade de Arquitetura.

3
Edifícios concebidos pela mesma equipe de arquitetos e ainda em pior estado de conservação, como o Instituto de Puericultura e Pediatria (1949-53), primeira obra a ser erguida na ilha, uma jóia da arquitetura moderna. Tal edifício, com paisagismo e painéis de Burle Marx e de Aylton Sá Rego e Yvanildo da Silva Gusmão, também foi premiado na II Bienal Internacional de São Paulo em 1953, na categoria de edificações hospitalares, por um júri de prestígio, que contava com a presença de Walter Gropius, Alvar Aalto e Ernest Rogers. Ou ainda o Hospital das Clínicas (1957), hospital-escola com capacidade para 2000 leitos para ensino e prática de todas as especialidades médicas, mais um projeto grandioso e inacabado, atualmente apenas parcialmente ocupado e em estado de quase abandono.

4
A expressão é retirada do artigo “Parque tecnológico para urbanizar o Fundão”. Jornal O Globo. Apud in: <www.dba.com.br>.

5
GRZYBOWSKI, Cândido. “O segredo do novo. Valores éticos e diversidade, entre as primeiras pistas da construção de um outro mundo possível. Publicado in: <www.planetaportoalegre.net>. Acessado em 01 jun. 2005.

6
Idem.

7
TEIXEIRA, Anísio S. “Um pressagio de progresso”. São Paulo, Habitat, n. 4, jul. 1951, p. 3.

8
Idem.

9
Idem.

10
DUARTE, Hélio. “O problema escolar e a arquitetura”. São Paulo, Habitat, n. 4, jul. 1951, p. 4-6.

sobre os autores

Olivia de Oliveira, arquiteta formada pela UFBa e doutor arquiteto pela ETSAB

Serge Butikofer, arquiteto EPFL Lausanne, SIA

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