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CORINALDI, Vittorio. Arquitetura e judaísmo: Mendelsohn. Resenhas Online, São Paulo, ano 02, n. 016.05, Vitruvius, abr. 2003 <http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/02.016/3214>.


Bruno Zevi – arquiteto, crítico e historiador – faleceu em Roma há cerca de dois anos. Seu nome representa um marco fundamental na formação de gerações de arquitetos, a partir da segunda guerra mundial e continuando até hoje.

Ao dizer isto, posso me referir a minha modesta experiência pessoal: “descobri” Zevi praticamente sem qualquer introdução prévia ou indicação bibliográfica por parte do establishment: acadêmico curricular. Foi na biblioteca da Faculdade de Arquitetura da USP, que freqüentava assiduamente e com interesse e curiosidade maiores do que aqueles despertados por certas cadeiras pouco atraentes do curso, nos anos da primeira metade da década de 50.

Nessa época, eu me encontrava em meio a dilemas ideológicos e de consciência, provenientes de um lado de minha inclinação para o mundo da arquitetura, e de outro, da solicitação para a problemática do pós-guerra, seja no terreno político-social genérico, seja no campo específico da realidade judaica emergente da catástrofe do Holocausto.

E em todos os anos de estudante na FAU estive oscilante entre os dois pólos, que me absorviam e apaixonavam em igual medida: os estudos de arquitetura e a filiação a um movimento de juventude sionista-socialista.

Nestas circunstâncias, foi um achado revelador a leitura de Zevi: não só nas obras essenciais já publicadas naquela época (como Saper vedere l’architettura, Verso un’architettura organica, Storia dell’Architettura Moderna), como no periódico Metron, que Zevi editava então, antes de passar a dirigir a revista L’Architettura: literaturas em que sobressaíam, para além de seu agudo espírito crítico e original interpretação da arquitetura, também uma corajosa combatividade por justiça, bem-estar social, dignidade humana, liberdade de pensamento, aversão a toda sorte de despotismo e coerção.

Minha curiosidade saiu do ponto de partida de um fundo familiar italiano, mas foi rapidamente canalizada para o pensamento de Zevi, no qual encontrei – ainda antes de saber de sua origem judaica e de sua formação liberal e socialista – uma expressão de síntese e de equilíbrio para os dilemas a que me referi.

Esta afinidade foi se fortalecendo à medida que alarguei meu contacto com seus escritos em anos posteriores. E transformou-se em identificação quase incondicional quando, já estabelecido em Israel, tive ocasião de ouvi-lo em várias de suas empolgantes apresentações públicas, de conhecê-lo pessoalmente e de verificar suas claras e expressas posições de judeu e de sionista convicto.

É este aspecto de sua personalidade que acho importante pôr em evidência: porque infelizmente assistimos hoje a manifestações pouco edificantes de intelectuais judeus, que num esforço de se fazerem notar como portadores de idéias pseudo-humanitárias e progressistas, abraçam equívocos movimentos cujo verdadeiro teor é simplesmente anti-semita, mesmo quando este anti-semitismo procura se apresentar atrás de uma fachada de anti-sionismo (numa evidente deturpação tendenciosa do caráter desse grande movimento de renascimento nacional judaico).

Bruno Zevi nunca escondeu seu judaísmo. Como homem de esquerda não escravizado pelos convencionalismos de opinião que caracterizaram grande parte das esquerdas antes e depois do desmantelamento da União Soviética, sempre defendeu o Judaísmo perante as arbitrariedades que o atacavam: arbitrariedades do Estado, da Igreja, das ideologias servis, da superstição e do preconceito. E nunca negou seu apoio ao Sionismo, declarando aberta e entusiasticamente sua admiração pelos feitos e realizações de Israel, por sua cultura nascente, por seus sucessos científicos e tecnológicos ou sociais e humanos.

Um aspecto original desta sua característica são os estudos que fez ao redor da contribuição judaica para a arte (e em especial a arquitetura) do século XX. Aqui ele demonstra mais uma vez sua extraordinária vitalidade de observação e de pensamento, identificando fatores eminentemente judaicos na produção de artistas cujo impacto sobre a cultura ocidental moderna é poderoso e importante.

E diferenciando-se da atitude clássica ou da tradição helenística do legado ocidental, ele sublinha o aspecto antiestático, dinâmico e contestador desses fatores. Ou então sua colocação em esferas de inspiração mística, extraterrena (conforme convém a uma cultura errante, alheia a divindades ancoradas em lugares e ordens hierárquicas definidas e absolutas, tanto no plano físico-visual como no teórico-espiritual).

Daí o enfoque especial que Zevi dá ao expressionismo ou a manifestações de marcado teor judaico na colocação figurativa e na caracterização do espaço arquitetônico.

Zevi enxerga então um contraste de valores entre, por exemplo, os arquitetos do Racionalismo europeu como Gropius, Mies Van der Rohe e outros de sua linha, e Erich Mendelsohn, expoente máximo do expressionismo na arquitetura. Zevi, que foi o grande propagador da arquitetura de Frank Lloyd Wright, considera Mendelsohn como um paralelo europeu do gênio americano – sacrificado e não de todo realizado em sua criatividade apenas devido às vicissitudes de judeu, que o impeliram a buscar campo de atividade em 3 continentes, sem chegar a lançar raízes profundas em nenhum dos três: na Europa, onde figura como um pioneiro solitário e sui generis do Movimento Moderno; em Israel (então Palestina mandatária) onde suas obras são até hoje um documento de visão autêntica e não comprometida por modismos, do projeto no ambiente físico local; e na América, onde realiza obras para a comunidade judaica, sem conseguir a mesma penetração na esfera do trabalho profissional, nem o mesmo grau de intensidade expressiva das duas experiências anteriores.

Bruno Zevi, na riqueza e exuberância de sua argumentação sensível e erudita, leva suas concepções filosóficas e estéticas a posições que podem confundir o observador menos familiarizado com sua linguagem, deixando-lhe a impressão que seu juízo sobre arte e arquitetura seja às vezes unilateral e dogmático: é o caso de sua contrariedade de princípio a todo tipo de simetria, que considera um símbolo de absolutismo e opressão; é o caso de sua entusiástica ampla subscrição da atual tendência do deconstrutivismo – que no seu entender encerra “por definição” as qualidades de anseio de liberdade e negação de monolitismo próprias do judaísmo: tanto assim que aponta toda uma série de arquitetos judeus contemporâneos como os portadores da única mensagem válida para a arquitetura de hoje: Frank Gehry, Daniel Libeskind, Zvi Hecker.

Mas na verdade trata-se de colocações extremas que – buscando encontrar formulações atualizadas para o significado do espaço arquitetônico – recusam-se a aceitar a avalanche de má arquitetura rotulada sob toda sorte de “ismos” que caracteriza a produção de hoje.

Pessoalmente, acho desnecessário catalogar os nomes citados dentro de uma única definição específica e prefiro examinar suas obras segundo critérios de avaliação intrínseca. E acredito que Zevi, embora destacando a centralidade da idéia contida na forma, não despreza também a importância de outros fatores menos “poéticos”, como se pode deduzir de sua constante aberta defesa de causas sociais, políticas e humanas.

Tudo o acima dito resulta das impressões tiradas da leitura do livro de Zevi, Arquitetura e judaísmo: Mendelsohn, aparecido agora em sua edição brasileira a cargo da Editora Perspectiva.

A tradução, compilação e apresentação da obra se deve a Anat Falbel, pesquisadora que apresenta a seu crédito já diversos estudos no terreno da historiografia da arquitetura, e especificamente no da arquitetura judaica no Brasil. Ela levou a cabo a tarefa (inclusive mantendo correspondência com o autor até seu desaparecimento) com a seriedade e a meticulosidade que lhe são próprias, enriquecendo o volume com grande quantidade de citações e chamadas bibliográficas, com ilustrações abundantes e esclarecedoras.

O livro constitui leitura obrigatória para completar um panorama histórico-crítico objetivo da arquitetura de nosso século. Mas igualmente ele vem preencher um vazio e afastar ignorâncias casuais ou propositais quanto à contribuição judaica neste setor e no acervo cultural do Ocidente: no que cabe uma dívida de reconhecimento à excepcional figura de Bruno Zevi e um voto de louvor a Anat Falbel, por ter tornado essa obra acessível ao público de língua portuguesa.

[leia também, sobre o livro de Bruno Zevi: "Zevi e Rykwert: messianismo, misticismo e paixão arquitetônica", de Roberto Segre]

sobre o autor

Vittorio Corinaldi é arquiteto formado na FAU USP e correspondente Vitruvius em Israel

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Arquitetura e judaísmo

Arquitetura e judaísmo

Mendelsohn

Bruno Zevi

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