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Carta do Novo Urbanismo norte-americano |
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| Arquiteto, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo,FAUUSP/1964. Mestre em Desenho Urbano pela Graduate School of Design-Harvard University-, GSD/1977. Doutor em Estruturas Ambientais Urbanas pela FAUUSP/1987. Ministra disciplinas dos cursos de graduação e pós-graduação, do departamento de projeto, na FAUUSP e na Universidade São Judas Tadeu, USJT. Desenvolve trabalhos de pesquisa na área de Arquitetura, Teoria e Método. Sócio-diretor da Empresa LOCUM Arquitetura e Urbanismo Ltda. Diretor administrativo da Fundação Conrad Wessel. |
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| A Carta do Novo Urbanismo, de 1996, é o documento de referência do Congresso do Novo Urbanismo, formado por profissionais cujo objetivo foi o de formalizar um enfoque para o urbanismo explorando as possibilidades reais do desenvolvimento das cidades norte-americanas. A Carta estabelece princípios associados à formação do espaço regional, da cidade, e do bairro, com a intenção de: organizar sistemas regionais articulando áreas urbanizadas centrais com as cidades menores em setores bem delimitados do território, evitando a ocupação dispersa; valorizar a acessibilidade por transportes coletivos; favorecer a superposição de uso do solo como forma de reduzir percursos e criar comunidades compactas; estimular o processo de participação comunitária, e retomar os tipos do urbanismo tradicional relativos ao arranjo das quadras e da arquitetura. Com atenção para a articulação do sistema de transportes e para conceitos de compacidade do espaço urbano e do projeto da paisagem como um todo, o novo urbanismo, depende de um bom planejamento urbano e regional, da qualidade dos projetos locais e do envolvimento das comunidades. Em outubro de 1993, foi realizado o I Congresso do Novo Urbanismo, ICNU, na cidade de Alexandria, estado da Virginia, nos Estados Unidos da América, que contou com a participação de aproximadamente cento e setenta profissionais, de diversos campos de atuação. Os congressos se sucederam anualmente e, no quarto congresso, IVCNU, realizado em Charlestown, South Carolina, em 1996, foi assinada a Carta do Novo Urbanismo por duzentos e sessenta e seis participantes. Os organizadores dos congressos foram seis arquitetos, que como diversos outros profissionais vinham da experiência de projetar algumas pequenas cidades de subúrbio, revitalizar espaços centrais, e projetar a reconstrução de setores urbanos. Seus nomes: Peter Calthorpe, Andres Duany, Elizabeth Moule, Elizabeth Plater-Zyberk, Stefanos Polyzoides e Daniel Salomon. (1). Parte do grupo exerce atividades acadêmicas e todos exercem intensa atividade profissional: Duany-PlaterZyberk & Company tem seu escritório principal em Miami e filiais em Charlotte, North Caroline, e em Gaithersburg, Maryland, Moule & Polyzoides Architects and Urbanists tem seu escritório em Los Angeles, Califórnia, Peter Calthorpe Associates Urban Designers, Planners and Architects, é uma firma de Berkeley, Califórnia e, Daniel Solomon E.T.C trabalha em associação com Walace,Roberts & Tood LLC, Planning and Design,estando localizados em San Francisco, Califórnia. O Novo Urbanismo no contexto dos Estados Unidos da América, EUA, é novo apenas no sentido de estabelecer princípios relacionando o espaço regional com o espaço local através do sistema de transportes, de estimular um tipo de parcelamento do solo e organização das áreas residenciais retomado conceitualmente das cidades-jardim, e de promover um processo de gestão dos espaços com a participação da comunidade. São referencia histórica importante os conceitos desenvolvidos por Ebenezer Howard, e aplicados por Raymond Unwin e Barry Parker, no projeto da primeira cidade-jardim em 1903: Letchworth, Inglaterra (2). Nos EUA, no início do século vinte, havia proeminentes intelectuais, como Lewis Munford, pensando o futuro das cidades segundo uma visão humanista. Com este propósito e decorrendo deste pequeno circulo de intelectuais, do qual é necessário destacar também Benton Mackaey, um pioneiro na idéia de se reservar espaços naturais para conservação e recreação, foi fundado o Regional Planning Association of América, RPAA, em 1923 (3). No entanto, o RPPA liderado por Munford, não conseguiu impor os ideais de construir tendo em vista as necessidades humanas e o respeito à natureza. O enorme crescimento industrial do país no inicio do século XX, fez crescer um clamor desenvolvimentista, que no planejamento regional levou ao conceito de áreas metropolitanas ligadas por eficiente sistema de auto-estradas. Foi o “boom” das construções rodoviárias, e Munford estabeleceu “forte batalha ideológica com o expoente do planejamento urbano inglês Thomas Adams”. Adams foi contratado para elaborar e implantar o “Regional Plan of New York and Its Environs”, calcado na defesa da idéia de crescimento metropolitano, sem preocupação com possíveis interferências nos empreendimentos localizados e muito menos com o impacto que isto pudesse ter nas questões ambientais (4) [ver a figuras 01 e 02]. Continuando esta breve história, o processo de implantar a estrutura macro-territorial associada com a adoção do ideário do urbanismo moderno (Carta de Atenas, 1935) por técnicos de entidades financeiras da habitação e por escritórios de projeto por elas contratados, em grande maioria adeptos do zoneamento separador do uso do solo e dos tipos construtivos para as áreas residenciais caracterizados por grandes edifícios, precedem e acompanham até hoje os movimentos posteriores contra esta corrente. Contra este planejamento centralizado, particularmente nas décadas de sessenta e setenta do século passado, muitas comunidades passam a se organizar e contratam seus próprios planejadores. Forma de atuar que ficou conhecida como “advocacy planning”, caracterizada por pessoal qualificado defendendo os interesses da comunidade junto aos órgãos do governo e instituições financeiras privadas. É o tempo, onde grandes conjuntos residenciais recentemente construídos são demolidos (Pruitt-Igoe, Saint Louis, inauguração em 1963, premio do American Institute of Architects em 1964, implosão em 1972, dez anos de vida!) e, a força de manifestações locais faz estancar a construção de diversas auto-estradas. A jornalista-socióloga Jane Jacobs escreve o livro: Vida e Morte das Grandes Cidades Americanas, mostrando o quadro real da realidade urbana em diferentes cidades (5). No decorrer do tempo e em bom número, as grandes cidades, sujeitas a um processo de degradação devido à saída de famílias de renda média e alta para os subúrbios, e as pequenas cidades (típicas do subúrbio americano), com espaços desqualificados por empreendimentos imobiliários de má qualidade, vão se multiplicando ao longo dos eixos principais de circulação, havendo uma alta concentração dos grandes estabelecimentos de serviços nos entroncamentos rodoviários, sinal evidente da falta de um sistema de planejamento regional adequado (6). Por força desta situação os planejadores vão procurando novas formas de estruturar o binômio rural e urbano. É o prenuncio da era do planejamento inteligente – “smart growth” – e, do novo urbanismo assumindo nomes como: “transit-oriented development”, ”traditional neighborhood development”, ou “neotraditional design”, conforme a ênfase atribuída aos projetos. É o passado recente e o desenrolar do tempo presente, em um país rico onde muito se constrói e os profissionais são estimulados na busca de princípios que respondam às demandas reais [ver as figuras 03 e 04]. As cidades americanas, apesar dos efeitos desastrosos do automóvel nas áreas centrais, da construção de auto-estradas levando muito pouco em conta aspectos locais, e do zoneamento mono-funcional, nunca deixaram de ter sua estrutura regional apoiada em uma mistura de áreas comerciais, residenciais e de setores de indústrias leves, articulados pelo sistema de faixas verdes, estradas, vias secundárias e vias locais. Os bairros residenciais em geral formam um núcleo constituído pelas moradias, escolas, centros esportivos, com calçadas largas e tudo perto das moradias. Luigi Frascati comenta: “o Novo Urbanismo é o que planejadores urbanos, arquitetos, engenheiros civis, empreendedores, corretores de imóveis, avaliadores de imóveis e banqueiros em todos os Estados Unidos se referem como simplesmente Urbanismo. É um processo muito familiar para nós, pelo as qual cidades grandes, pequenas e os bairros tem sido idealizados, planejados e construídos” (7). Complementamos a afirmação de Frascatti com o fato que a grande maioria destas cidades de subúrbio, apesar de serem completas quanto aos equipamentos públicos relacionados a habitação, não possuem uma oferta de locais de trabalho em conjunto, estes podem estar próximo, mas, dependem de viagens de automóvel. Esta situação confere para estes locais o caráter cidade-dormitório, articuladas com outros núcleos de serviço do tipo mono-funcional (por exemplo, o shopping center). Hoje, muitas delas têm sido revitalizadas pelo princípio de criar espaços para atividades diversificadas e, as novas cidades são feitas segundo o enfoque mais global de se projetar cidades completas interagindo com o sistema de transportes coletivo de âmbito regional: o Novo Urbanismo. A leitura dos vinte e sete princípios da Carta do Novo Urbanismo permite a compreensão da maneira holística de ver a realidade segundo seus signatários. Os princípios são claros e alto explicativos, assim os transcrevemos de maneira completa. Os princípios de 01 a 09, contemplam a região: metrópole, a cidade grande e média (city), e a pequena (town); de 10 a 17, se referem ao bairro (neighborhood), ao setor (district, setor caracterizado por uma centralidade, por exemplo, área histórica, portuária, cidade universitária, etc.) e, e ao corredor (corridor); os princípios de 18 a 27, são relativos às quadras, ruas e edifícios. A região: metropóle, cidade grande e média, cidade pequena Princípio 01 A região metropolitana é uma unidade econômica fundamental no mundo contemporâneo. Cooperação do governo, política pública, planejamento físico, e estratégias econômicas devem refletir esta nova realidade. Princípio 02 Regiões metropolitanas são lugares finitos, limitados por divisas geográficas derivadas da topografia, nascentes (watersheds), faixas costeiras, fazendas, parques regionais, e bacias de rios. A metrópole é feita de múltiplos centros que são as cidades grandes, pequenas e vilas, com seu centro bem identificado e seus limites. Princípio 03 A metrópole tem uma necessária e frágil relação com a área rural e a paisagem natural. A relação é ambiental, econômica, e cultural. As terras agrícolas e a natureza estão para a metrópole assim como o jardim esta para a casa. Princípio 04 Os padrões (patterns) de desenvolvimento não devem tornar imprecisos os limites da região metropolitana. O desenvolvimento localizado dentro de áreas existentes conserva os recursos ambientais, investimentos econômicos e a trama social, na medida em que façam uso de áreas marginais ou abandonadas. As regiões metropolitanas poderão estabelecer estratégias para encorajar este tipo de desenvolvimento nas expansões periféricas. Princípio 05 Quando apropriado, a ocupação nova contígua aos limites urbanos, poderá ser organizada como vizinhanças e distritos (bairros), e ficar integrada com o tecido urbano existente. O crescimento não contíguo poderá ser organizado através de pequenas cidades (towns) e vilas com seu próprio perímetro urbano, e e planejado para ter um equilíbrio entre residências e empregos e não ser apenas um subúrbio de dormir. Princípio 06 O desenvolvimento e re-desenvolvimento das pequenas e grandes cidades deve respeitar o legado histórico (padrões históricos), precedentes e limites (da urbanização). Princípio 07 As cidades (cities) grandes e as médias (towns) devem oferecer um uma larga oferta de serviços públicos e privados como apoio a economia regional, que beneficie pessoas de todas as faixas de renda. Habitação de interesse social deve ser distribuída na região para se mesclar com as oportunidades de emprego e e evitar a concentração da pobreza. Princípio 08 A organização física da região deve se basear na infra-estrutura de alternativas para o sistema de transportes. Transportes coletivos, pedestres e bicicletas poderiam melhorar o acesso e a mobilidade na região com a redução da dependência do automóvel. Princípio 09 Impostos e demais recursos podem ser divididos mais equitativamente entre os governos locais para evitar uma competição negativa no lançamento de impostos e promover a coordenação racional do sistema de transportes, recreação, serviços públicos, habitação, e instituições comunitárias. Bairro, setor, e corredor Princípio 10 O bairro, o setor urbano (1) e o corredor são os elementos essenciais para o desenvolvimento ou o re-desenvolvimento da metrópole. Eles formam áreas identificadas que encorajam as pessoas a ter responsabilidade sobre sua manutenção e sua transformação. Princípio 11 Os bairros devem ser compactos, acolhedores para estar ou caminhar das pessoas, e ter uso do solo do tipo misto. Os setores em geral dão ênfase a um tipo de uso principal, mas devem seguir os princípios de projeto dos bairros sempre que possível. Os corredores são os conectores regionais dos bairros e dos setores; eles variam desde as vias do tipo “boulevard” e linhas férreas, até os cursos de água e estradas-parque. Princípio 12 Muitas atividades do cotidiano podem acontecer a uma distancia possível de se percorrer à pé, possibilitando independência àqueles que não dirigem veículos, especialmente o idoso e o jovem. Uma rede interligada de vias pode ser projetada para encorajar o caminhar, reduzir o número e a distancia das viagens de automóvel, e conservar energia. Princípio 13 Nos bairros, uma grande variedade de tipos de moradia e preços, pode facilitar a interação no dia a dia de pessoas de diversas idades, raças, e níveis de renda, reforçando os vínculos pessoais e cívicos, essenciais para o crescimento de uma autêntica comunidade. Princípio 14 Corredores de transito quando bem planejados e coordenados, ajudam a organizar a estrutura metropolitana e revitalizam os centros urbanos. Por sua vez, os corredores das vias expressas não devem desalojar os investimentos dos centros existentes. Princípio 15 Densidades adequadas de edificações e do uso do solo podem estar a uma distancia possível de ser percorrida a pé desde os pontos de parada do sistema de transportes, permitindo que o transporte público seja uma alternativa para o uso do automóvel Princípio 16 A concentração de atividades de interesse público, institucionais, e comerciais, devem ocorrer nos bairros e nos distritos, e não em um conjunto específico isolado e mono-funcional. As escolas devem ser dimensionadas e implantadas de modo que as crianças possam chegar a elas a pé ou de bicicleta. Princípio 17 A vitalidade econômica e a evolução harmoniosa de um bairro, distrito ou corredor pode ser melhorado através de esquemas gráficos de desenho urbano que definam diretrizes para as transformações. Princípio 18 Uma diversidade de parques, desde as áreas para crianças e os pequenos espaços verdes das vilas residenciais até os campos de jogos e os jardins comunitários, podem ser distribuídos nos bairros. Áreas de preservação e áreas abertas podem ser usadas para definir e conectar diferentes bairros e distritos. Quadra, rua e edifício Princípio 19 A primeira tarefa de toda a arquitetura urbana e do paisagismo é a definição física das ruas e dos espaços públicos como lugares de uso comum. Princípio 20 Projetos de edificações isoladas podem ser perfeitamente ligados a seus vizinhos. Esta questão transcende as razões de estilo. Princípio 21 A revitalização de espaços urbanos depende de segurança (safety) e de proteção (security). O desenho das ruas e dos edifícios pode reforçar lugares seguros, mas não em prejuízo da acessibilidade e sentido de abertura. Princípio 22 Na metrópole contemporânea o desenvolvimento deve acomodar os automóveis de forma adequada. Isto deve ser feito de modo a respeitar os pedestres e a forma do espaço público. Princípio 23 Ruas e praças podem ser seguras, confortáveis, e interessantes para o pedestre. Bem configuradas elas encorajam o passeio, permitem os moradores se conhecerem e com isto protegerem sua comunidade. Princípio 24 O projeto de arquitetura e paisagismo deve desenvolver-se considerando o clima, a topografia, a história e a prática de construir. Princípio 25. Edifícios institucionais e lugares públicos de reunião requerem sítios significativos para reforçar sua identidade e a cultura da democracia. Eles merecem formas distintas, porque seu papel é diferente dos outros edifícios e lugares que constituem o tecido urbano da cidade. Princípio 26 Todos os edifícios devem proporcionar a seu ocupante um claro senso de localização, clima, e tempo. Processos naturais de calefação e ventilação podem ser mais eficientes como economia de recursos que os sistemas mecânicos. Princípio 27 A preservação e renovação de edifícios históricos, áreas urbanas significativas (distritos), e de espaços verdes (landscapes) garantem a continuidade e evolução da sociedade urbana. No livro editado por Michael Leccese e Kathleen McCormick, sobre o Congresso Para O Novo Urbanismo (9), onde é oficialmente publicada a Carta, Peter Calthorpe é responsável pelos comentários finais. Este arquiteto que é autor de diversos projetos relacionando o sistema de transportes regional com comunidades locais comenta que, “o Novo Urbanismo é um complexo de políticas e princípios de projeto para operar nas múltiplas escalas do desenvolvimento urbano. Ele tem sido mal interpretado no sentido de ser apenas um movimento conservador de retorno ao passado, considerando tipos e estilos da arquitetura, ignorando as questões do tempo presente”. Argumenta que a utilização de estilos do passado é freqüente nas cidades americanas e isto não impediu que muitas delas entrassem em decadência, ou seja, apenas o apelo aos tipos tradicionais não é garantia nenhuma do sucesso das novas cidades ou dos planos de revitalização. Finaliza afirmando, “nostalgia não é o que os novos urbanistas estão propondo. Suas metas e intenções são muito maiores, mais completas e desafiadoras. Muito do desentendimento tem sido causado pelo foco dos críticos na escala da arquitetura dos bairros, sem o entendimento da interação desta escala com a maior da região”. De fato, apesar dos diversos projetos realizados pelos novos urbanistas e a atualidade de se fazer planejamento e projeto de acordo com princípios de respeito às pessoas e ao ambiente, da aceitação geral da Carta, com restrições centradas mais nos princípios que propugnam apelo maior a arquitetura tradicional, no meio acadêmico existe divergências conceituais e críticas veementes em relação aos novos urbanistas. Para discutir o assunto, é necessário ter em mente que o movimento ganhou em pouco tempo o apoio de muitos profissionais que atuam com empreendimentos imobiliários, o apoio de empreendedores, da mídia em geral, de professores em diversas escolas de arquitetura e de planejamento urbano e regional. O Novo Urbanismo passou a ser compreendido como algo que expressa a vontade das pessoas por um ambiente melhor. A visibilidade na mídia para o movimento liderado pelo arquiteto Duany, não pode fazer esquecer o ponto colocado de inicio, citando L. Frascati sobre a formação das áreas urbanas americanas, e que hoje a maior consciência sobre os problemas da interação das pessoas com o ambiente, leva um grande número de arquitetos e planejadores urbanos americanos a atuar segundo os princípios da Carta, mesmo não pertencendo ao grupo dos novos urbanistas. É o caso, por exemplo, dos profissionais do escritório Urban Design Associates, UDA, que tem um grande volume de trabalho e são responsáveis pelo conteúdo conceitual e projetos apresentados no livro “The architectural pattern book”, editado por Ray Gindroz em 2004 (10) [ver figuras 05 e 06]. Desde três anos antes de 1996, Andres Duany foi responsável por um curso de verão, sobre Novo Urbanismo, na Graduate School of Design, GSD, Harvard University, e pretendia transforma-lo em um curso regular. No entanto, foi impedido em sua tentativa, pois existia nesta escola objeções fortes contra as pretensões dos novos urbanistas. Duany não conseguiu seu propósito, de outra parte se negou ficar apenas com o curso de verão, que é um período para atividades livres da universidade. O CNU, com transito em outros setores buscavam o reconhecimento da importante universidade, onde Walter Gropius teve lugar para desenvolver as idéias da Bauhaus, e por onde passaram os principais arquitetos modernos. Conquistar Harvard seria consolidar o CNU definitivamente no meio acadêmico de ponta. No texto “Teaching new urbanism” (outubro de 1997) o jornalista Alex Marshall mostra como os conceitos do Novo Urbanismo alastraram-se entre professores de diversos pontos do EUA, foram criadas disciplinas e grupos de pesquisa, inclusive na Universidade da Califórnia, em Berkeley (11). O CNU após o insucesso junto aos colegas de Harvard, decidiu propor uma discussão nacional em duas etapas, fechada para professores, críticos, arquitetos e urbanistas do “star system” americano. A primeira aconteceu em Seaside, Flórida, em setembro de 1998. O convite para a reunião em Seaside, foi para que todos conhecessem a cidade projetada pelos lideres do Congresso para o Novo Urbanismo e tivesse inicio um processo de discussão que se prolongaria até os dias quatro a seis de março 1999, em Cambridge, Massachussets, na conferencia que recebeu o nome “Exploring the (New) Urbanism”. Contra o clamor dos que propagam a bandeira do CNU, há opiniões contrárias que chamam atenção principalmente para o fato do movimento ter conseguido quase nada no planejamento regional, apesar de terem demonstrado sucesso com o projeto das pequenas cidades e no de comunidades (bairros). Apontam para que a aceitação do Novo Urbanismo pelo público respalde os empreendedores construírem mais e mais cidades, fazendo aumentar a dispersão regional. Este é o ponto fundamental das divergências. Em novembro de 1998, Alex Krieger, Chefe do Departamento de Planejamento e Projetos Urbanos, GSD-Harvard, publicou o texto “Whose Urbanism?” [Urbanismo de quem?], se referindo ao ufanismo dos colegas novos urbanistas (12). Os pontos críticos levantados por Krieger, em relação ao trabalho dos colegas são:
Este é resumo dos pontos críticos colocados por Krieger, espelho da posição do GSD, Departamento de Planejamento e Projetos Urbanos. Conclui que o bom urbanismo não é necessàriamente aquele dos novos urbanistas. Que o sucesso obtido pelo Novo Urbanismo, como repercussão na sociedade, tem sido maior que suas realizações, se analisadas do ponto de vista técnico. Que o movimento poderá ter vida efêmera e que Harvard não poderá orientar seu curso pelos postulados do Novo Urbanismo e sim continuar ensinando como fazer “bom urbanismo”. Recentemente (meados de 2006), Krieger em artigo de sua autoria enquadra Andres Duany na categoria de visionário das idéias sobre projetos urbanos, vindo lá detrás mencionando as grandes figuras responsáveis pelas mudanças de conceito do urbanismo moderno, como o Barão Haussmann, Daniel Durnham, Ebenezer Howard, Raymond Unwin, Lê Corbusier e, talvez, Rem Kholhaas e Andres Duany (13). Em nosso entender o professor Duany, da Universidade de Miami, está fazendo Harvard pensar bastante sobre os rumos do urbanismo. Os dois últimos exemplares da revista Harvard Design Magazine, número 24 (spring-summer 2006) e número 25 (fall 2006-winter2007), foram dedicados, respectivamente a: As Origens e Evolução do “Urban Design”, 1956-2006 e, “Urban Design” Hoje. Os assuntos veiculados pela revista certamente não tem o objetivo de represália ao CNU, nem tocam na questão em seus títulos principais. Mostram sim as idéias de um conjunto de acadêmicos e profissionais preocupados, discutindo propostas para as cidades grandes, centros e bairros centrais, grandes projetos, nada de projetos urbanos nos subúrbios. Parece que Duany, líder do CNU incomoda um pouco Harvard, mas como se pode subtender de Krieger: Harvard talvez possa se preocupar com assuntos menos sérios, como Kholhaas e Duany, mais tarde, na história. Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 Bibliografia complementar AMERICAN PLANNING ASSOCIATION. New urbanism, renewed neighborhood – our history. www.planning.org/newurbanism/history. Acessado em 21/03/2006. COUNCIL FOR EUROPEAN URBANISM. New urbanism in europe. <www.eurocouncil.net/CEU/index_m.htm>. GOODMAN, Robert. After the planners. Touchstone. NY. 1971.KATZ, Peter, The new urbanism, toward an architecture of community. McGraw-Hill. NY. 1994. IRAZÁBAL, Clara. Da carta de Atenas à carta do novo urbanismo. Qual seu significado para a América Latina? Arquitextos nº 019.3. São Paulo, Portal Vitruvius, dez. 2001 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq019/arq019_03.asp>. KEITH, Trevor; DEL RIO, Vicente. “New urbanism, dependência do automóvel, senso de comunidade. Um estudo comparativo de dois conjuntos residenciais na Califórnia”. Arquitextos nº 042, Texto Especial nº 201. São Paulo, Portal Vitruvius, nov. 2003 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp201.asp>. LARA, Fernando. “Admirável urbanismo novo”. Arquitextos nº 009, Texto Especial nº 056. São Paulo, Portal Vitruvius, fev. 2001 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq000/esp056.asp>. LARA, Fernando. “Vizinhos do Pateta”. Arquitextos nº 011.2. São Paulo, Portal Vitruvius, abr. 2001 <www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq011/arq011_02.asp>. MACEDO, Adilson Costa. “O espaço urbano por parte” In Sinopses, nº 38. São Paulo, FAU-USP, out. 2002, p. 07-16. REIS FILHO, Nestor Goulart. “Notas sobre urbanização dispersa e novas formas de tecido urbano”. São Paulo, Via das Artes, 2006. |
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