ENTRA NA LIVRARIA VITRUVIUS         Volta ao menu inicial
-ISSN 1809-6298 . .
Texto Especial 162 – dezembro 2002
     
    | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius |

         
  Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira
Oscar Satio Oiwa
 

 
         
     

Oscar Satio Oiwa é arquiteto (FAU-USP, 1989). Em 1991 muda-se para Tóquio, onde trabalha como arquiteto durante quatro anos. Paralelamente desenvolve sua atividade artística, com diversas exposições coletivas e individuais, projetos comissionados de arte em espaço público, palestras em Universidades, publicação de catálogos, etc. Em 2002, participou de mostra individual em galerias de Tóquio (Fuji Television Gallery) e Paris (Galerie Frederic Giroux), exposições coletivas no Museu de Arte de Oita e no Museu de Arte de Shizuoka. Atualmente reside em New York

 
       
 

No começo da década oitenta, era do governo Collor, o país estava em mais uma das suas eternas crises. Na época era recém formado em arquitetura pela USP. Além do diploma, tinha na bagagem um estágio de oito meses em escritórios de arquitetura no Japão durante a faculdade e estágios na Fundação Bienal de São Paulo; tinha trabalhado inúmeras vezes como assistente de artistas internacionais. Além dessas experiências, a minha própria família tem ascendência estrangeira e sair para o mundo era um pouco “familiar”.

Na época, o Japão era o lugar mais fácil para eu ir, pois este país estava com a economia bastante aquecida. Eu também falava um japonês básico e não tinha problema com visto de permanência. Mudei para Tóquio no ano de 1991 e após poucas semanas consegui começar a trabalhar diretamente em um escritório de arquitetura. Eu arrumei emprego sem qualquer indicação, apenas comprando uma revista de ofertas de empregos na banca da esquina. Evidentemente, como todo estrangeiro, passei por muitas dificuldades de adaptação. Tudo levava muito tempo para se acertar, mas uma vez tendo optado por morar fora do país, procurei sempre fazer o melhor possível.

Pouco a pouco a economia japonesa foi esfriando e fui trabalhando cada vez mais com as artes plásticas. Desde o tempo de São Paulo pintava e desenvolvia paralelamente trabalho com as Artes. Em 1991, com 25 anos de idade, cheguei a participar da 21ª Bienal de São Paulo, como representante do Brasil. Em Tóquio, trabalhava durante o dia em período integral no escritório de arquitetura; à noite e aos finais de semana desenvolvia a minha atividade artística. Pouco a pouco foram surgindo oportunidades de exposições. E pouco a pouco fui construindo uma carreira dentro do meio artístico japonês. O Japão possui uma cultura própria e fechada em grupos. Mas hoje tenho na minha bagagem inúmeras exposições em museus públicos japoneses e tenho conseguido trabalhar com as boas galerias de Tóquio. Com arquitetura, de forma direta, não tenho trabalhado muito, mas tenho tido a oportunidade de desenvolver projetos em espaços públicos, como é o caso de dois projetos de esculturas, uma para o Estádio de Sapporo e a outra para o Estádio de Shizuoka, ambos construídos para sediar a última Copa do Mundo.

Além do Japão, tenho tido uma relação profunda com a Europa. Em 1996, a partir de um convite de uma Fundação inglesa (Delfina Studio Trust), tive a oportunidade de permanecer nove meses em Londres, trabalhando e morando no prédio mantido pela fundação. Foi uma experiência muito rica. Contudo, meu trabalho tem alcançado mais sucesso na Franca, aonde vou regularmente expor, trabalhando com uma galeria de Paris. Tenho feito exposições também em Leiden, Barcelona, Madrid, Weimar, Lausagne, e outras cidades européias. Atualmente resido em Nova York, vivendo com uma bolsa oferecida pela Fundação Simon Guggenheim.

A cidade de Nova York possui um dos mais agressivos mercados de arte do mundo e foi o motivo que me levou a tentar a sorte no mercado americano, mas só depois de ter um trabalho amadurecido, pois além dos contatos pessoais, é necessário muito, muito fôlego financeiro para se manter nessa cidade. Mudei para Nova York sem muita previsão de quanto tempo vou permanecer por aqui. Vim com a família (mulher e duas crianças pequenas) e continuo a desenvolver simultaneamente alguns projetos em Paris e Tóquio. Como meu dia de amanhã sempre depende do trabalho de hoje, busco sempre fazer o melhor possível e – coisa muito importante – procuro adaptar minha forma de trabalhar de acordo com os outros, sejam brasileiros, europeus, japoneses ou americanos.

Em resumo, tenho ido e vindo de muitos lugares. Trabalhar com artes é difícil em qualquer parte do mundo, mas me sinto bem realizado com as minhas conquistas. Seja arquitetura, artes ou qualquer outra profissão, acho que tudo é uma questão de muito trabalho sério desenvolvido durante muitos anos.

– E o Brasil onde fica?! –, me perguntam muitos amigos. Espero do fundo do coração que o país melhore e que eu possa desenvolver aí minhas idéias. Apesar de tantos projetos desenvolvidos no exterior, continuo a achar que o melhor país do mundo é o país onde fomos criados, onde mora a “sua gente e o seu povo, que fala a sua língua”.

Leia também da série Depoimentos da Geração Migrante

GUERRA, Abilio. Depoimentos de uma geração migrante

SPADONI, Francisco. Geração Migrante – Depoimento 1. Kenzo Tange e uma peniche no rio Sena

LEONIDIO, Otavio. Geração Migrante – Depoimento 2. Em Paris, chez Christian de Portzamparc

VIOLA, Assunta. Geração Migrante – Depoimento 3. Arquitetura e criatividade: uma experiência com Massimiliano Fuksas

ORCIUOLI, Affonso. Geração Migrante – Depoimento 4. De São Paulo a Barcelona

OIWA, Oscar Satio. Geração Migrante – Depoimento 5. Arte sem fronteira

MOREIRA, Pedro. Geração Migrante – Depoimento 6. Brasil, Inglaterra, Alemanha – 15 anos

LIMA, Zeuler R. M. de A. Geração Migrante – Depoimento 7. Migrar, verbo transitivo e intransitivo. Uma experiência nos Estados Unidos

DIETZSCH, Anna Julia. Geração Migrante – Depoimento 8. Uma dupla experiência nos Estados Unidos

 


Oscar Satio Oiwa


Scarecrow Project Matsudai-Town. Echigo-Tsumari Art Triennil, 2000


"Whale 1" and "Whale 2", técnica mista sobre papel, 23 metros X 2 metros, 1989. Obra a ser exposta em julho de 2003 no Museu de Arte de Utsunomiya


"Devil Portrait", acrílico sobre madeira recortada, 2,4 X 1,8 metros,
coleçãoo Art Place Skydoor, 1995


"Urban Fossil", dez peças 1,8 X 0,9 metros em ferro fundido implantadas diretamente na calçada. Projeto de fossil para ser descoberto daqui há dez mil anos. Tóquio, 1993


"Terreno Baldio FC", obra em concreto armado pintado, 5 X 4 metros, monumento em frente ao Estádio de Shizuoka que sediou a última Copa do Mundo, Shizuoka, 2001

 
         
  | Autor | Assunto | Números | Página principal | Expediente | Vitruvius |